Apresento ao leitor o recém-lançado “Suicídio na adolescência” (Juruá), livro de Carolina Nassau Ribeiro, psicanalista e doutora em psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com ampla experiência na clínica de casos graves do sofrimento psíquico.

Este assunto merece toda a atenção da família, das escolas e dos operadores da clínica com adolescentes. O livro é uma boa fonte de informações, estatísticas, teoria e prática, trazendo extensa e atual bibliografia, além de referência e renovação de conhecimento.

Carolina Nassau ressalta ser a adolescência um desafio, por tratar-se de uma crise. É tempo de escolhas e decisões: um novo corpo; a saída para o social; o afastamento dos pais, que com frequência se desprendem antes da hora, invertendo os papéis; o transbordamento pulsional da puberdade; e a difícil assunção da escolha do parceiro sexual, quando as palavras e as fantasias falham, dando lugar ao ato como resposta à angústia, já que, nos lembra a autora as palavras de Freud, “o ato é o substituto da palavra”.

Sim, a adolescência pode ser compreendida como uma crise instalada com o despertar da puberdade. A adolescência, propriamente dita, é um sintoma da puberdade e momento de muito trabalho. O atravessamento para a idade adulta exige muito, é momento crucial. É quando são questionados os ideais parentais e, mais do que nunca, a falta no campo do Outro, com maiúscula, sim.

É o Outro que cuida, educa, ensina, fonte de referências, autoridade e assegurador da sobrevivência desde o nascimento até a vida adulta, cada vez mais distante, pelo desejo de prolongar a adolescência como ideal de felicidade.

Mas nem sempre é assim, ou quase nunca. É tempo de escolhas e encontro com impossíveis e de traumas como o levantar do véu acerca do mistério da sexualidade, a pressão em fazer existir essa relação sexual idealizada e sua inexistência. Daí a indiferença e apatia nas questões relacionadas ao amor. Eles não dizem mais que se apaixonam, se emocionam.

A saída da adolescência implica em responsabilidades e custos da independência que a vida adulta exige, em tempos de mudanças profundas, a partir do declínio do patriarcado. Não temos mais leis rígidas e pontos de basta bem delineados, como em outras épocas. A sabedoria dos mais velhos perde valor, porque o mundo digital substituiu esse saber, antes mediador e fonte do conhecimento, hoje acessível sem ele. Como nos aponta Carolina, o conhecimento está no bolso.

A incidência do virtual promoveu a reconfiguração do púbere e a demora na adolescência, além de elevar as taxas de insatisfação e autoextermínio, que têm relação com as ofertas do atraente mundo digital. Modelos de beleza e luxo, virilidade, o sexo via pornografia, mediante os quais a vida comum perde seu brilho, ferindo o narcisismo.

Os apelos do mercado exigem escolhas constantes, porém, geram indecisão e adiamentos. Tempos de “quarto” cada vez maiores evitam o encontro com o real. Angústias geram cuttings, cortes no corpo, em lugares que os adultos não podem ver, buscando alívio e consistência física a um sofrimento psíquico inconfesso.

A autora sugere a ampliação do momento de compreender como uma das ferramentas que a escuta psicanalítica pode oferecer como recurso e convite à palavra e reflexão, que falham nesse momento de crise e risco iminente de perda da vida. Nesse momento, a atenção e o cuidado da escola e dos pais são fundamentais.

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Enfim, entre muitos autores citados no livro, concluo com Byung-Chul Han, em “Agonia de Eros” (2012): O sujeito contemporâneo se tornou uma figura narcísica, enclausurado em si mesmo, em que o outro é percebido somente como um reflexo do próprio eu, sem alteridade necessária para o desejo, esterilizando assim as relações e levando à impossibilidade de experiências amorosas genuínas. Daí as passagens a atos como o autoextermínio rondam cada vez mais a dor atual.

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