Pelo mundo afora, as cidades correm para se adaptar a esse novo planeta que não para de aquecer. Avançam retirando o excesso de concreto, embora estejam voltando casas no tabuleiro e, sabiamente, deixando os espaços com pisos naturais e arborizados como os antigos sempre fizeram.
Paris, por exemplo, quer que 55% do seu território seja permeável até 2050. É o “Plan Paris Pluie”, ou Plano Paris Chuva, que prevê trocar parte do asfalto por piso poroso, aumentar a cobertura vegetal e multiplicar os jardins de chuva pela cidade, restaurando o ciclo da água o mais perto possível de onde ela cai.
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Essa ideia já chegou às escolas da cidade: desde 2017, os pátios parisienses vêm virando “cours oasis", pátios oásis, com menos asfalto e mais terra, vegetação e pontos de água. Já são 203 pátios e 5 creches transformados, com meta de 360 até 2030, criados justamente para proteger crianças, um dos grupos mais vulneráveis ao calor extremo.
Em Copenhague, capital da Dinamarca, a meta é agressiva. A nova estratégia climática é fazer com que a cidade remova mais carbono do que emite e, para isso, está revolucionado sua infraestrutura. Os parques e praças estão sendo redesenhados para comportar lagos e espaços alagáveis. Algumas ruas estão recebendo um calçamento fibroso que funciona como esponja: a cada litro de água despejado, absorve até 950 mililitros.
Jinhua, China: "E aqui vai um lembrete importante: todas essas adaptações foram inspiradas no famoso conceito de cidade-esponja, da China"
E aqui vai um lembrete importante: todas essas adaptações foram inspiradas no famoso conceito de cidade-esponja, da China. A ideia central de imitar o ciclo natural da chuva foi desenvolvida pelo arquiteto e urbanista Kongjian Yu, que morreu ano passado durante um voo pelo Pantanal.
O fato é que as cidades que entenderam e aplicam de forma eficiente esse conceito sabem que é preciso absorver, reter, armazenar, purificar, reutilizar e drenar a água de forma natural. Não é pouca coisa.
Mas há um ponto de atenção: tirar o concreto, sozinho, pode não resolver. Milton Braga, arquiteto e professor da USP, ao lado do grupo Metrópole Fluvial, também da USP, defende que a solução em escala pequena é uma espécie de "permeabilização formiguinha": diante do volume de um temporal e da saturação histórica do solo, esses pisos drenantes seguram muito pouco.
Para ele, o urbanismo precisa de vazios de água em escala maior e propõe grandes áreas públicas concebidas para receber e reter o excesso de chuva de forma controlada, parques fluviais e praças inundáveis integrados à paisagem, em vez de escondidos em galerias de concreto.
"Em Curitiba, no Bairro Santa Cândida, às margens do Rio Atuba, está surgindo o Parque Santa Cândida, batizado de 'parque esponja'"
O erro histórico, segundo ele, foi tratar rio e drenagem como problema exclusivo de engenharia hidráulica. A infraestrutura de água, defende, deveria ser desenhada para operar com múltiplas funções: conter cheia, oferecer lazer, viabilizar transporte hidroviário e qualificar o espaço coletivo, inclusive nas periferias.
Há exemplos pelo Brasil. Em Curitiba, no Bairro Santa Cândida, às margens do Rio Atuba, está surgindo o Parque Santa Cândida, batizado de "parque esponja”, com duas bacias de contenção, com capacidade de 60 piscinas olímpicas. O diferencial é que tudo está integrado a um espaço verde que poderá ser usado pela população em momentos de seca.
"Em Belo Horizonte, uma nova ideia ganhou corpo em agosto, com a proposta do Parque Linear Andradas"
Em Belo Horizonte, uma nova ideia ganhou corpo em agosto, com a proposta do Parque Linear Andradas: quase seis quilômetros de corredor verde acompanhando o Ribeirão Arrudas e a linha férrea da Avenida dos Andradas. O rio, hoje canalizado, seria reintegrado à paisagem da cidade e os moradores da região teriam uma área de lazer.
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Que as cidades resilientes preparadas para o futuro não se esqueçam de como eram as cidades do passado: lugar de encontro, lugar de convivência, lugar de vida.
