O eleitor brasileiro vai precisar de muita criatividade ao tentar fazer sua escolha de candidatos para o pleito de outubro. O distanciamento entre o eleitor e os candidatos é especialmente grave no nível federal. Em alguns dias, começará o massacre da propaganda eleitoral. Mas o eleitor brasileiro continuará perdido no cipoal de promessas vazias e marchinhas sem nexo. Para entender melhor o que está por trás do barulho das campanhas, visitamos os planos de governo dos principais candidatos à Presidência da República. Fizemos uma avaliação comparativa das agendas de governo por meio da frequência léxica – uma contagem de palavras – pra tentar entender o que estaria sendo planejado e quais as prioridades dos candidatos e de suas respectivas equipes.

 


Pesquisamos as agendas de cinco candidatos: Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos. Para tornar comparável a análise de palavras entre as cinco agendas, procuramos nelas 58 vocábulos indicados pelo Instituto Atlântico que, desde 1994, vem elaborando propostas de políticas públicas para candidatos presidenciais. O Atlântico tem grande experiência sobre o que um projeto para o Brasil precisaria conter para nos resgatar do atual chove-não-molha em que estamos desde o Plano Real. O “Vocabulário da Superação”, de 58 palavras, respeita a linha social-liberal do Atlântico e foi testado nas cinco agendas programáticas dos candidatos, por meio da busca e contagem das vezes em que cada palavra aparece [ver Quadro]. Eis alguns dos principais resultados:


1) Palavras mais empregadas (mais de 200 vezes na soma das 5 Agendas) são, por exemplo, “estado”, “segurança”, “saúde”, “investimento”, “infraestrutura” e “desenvolvimento”.


2) Palavras menos citadas (menos de 10 vezes na soma das Agendas) são, entre outras, “Supremo” (ou STF), “reeleição”, “empresário”, “pai”, “poupança”, “cientista” e “custo-de-vida”.


O emprego muito frequente de certas palavras, comparado à escassez da presença de outras, é altamente revelador: os candidatos, mesmo quando já ocupam o cargo de presidente, como é o caso de Lula da Silva, não conseguem definir bem os caminhos para chegar aos objetivos por eles traçados.

“Desenvolvimento”, por exemplo, é um grande objetivo, mas não se apresenta como um conjunto de políticas capaz de ser concretizado e, por isso, tampouco pode ser medido em termos de sucesso ou insucesso. Saúde, segurança e infraestrutura são também grandes objetivos, porém genéricos. Cada eleitor entenderá essas palavras do jeito que quiser e o candidato, no caso, fica dispensado de comprovar se atingiu ou não o que prometera.


Há um descompasso quase absoluto entre os objetivos e os meios ou instrumentos para se chegar aos alvos esperados. Sabemos que o Estado brasileiro precisa ser reorganizado; porém, pouco se fala de como o ativismo do STF atrapalha o necessário reequilíbrio entre os poderes da República. O fim da reeleição para cargos executivos, e outras propostas no campo politico-eleitoral, quase não são citadas.


Curioso também constatar quantas vezes são citados os objetivos do investimento e da infraestrutura, enquanto as palavras empresário, poupança e cientista estão entre as que menos aparecem nas agendas. Fica difícil entender como os investimentos surgirão sem a poupança correspondente. O Estado brasileiro não consegue poupar nada, aliás é um consumidor da poupança das famílias e das empresas. Contudo, essa destruição da poupança nacional pelo poder público não é debatida a fundo. Mais escandaloso é o esquecimento dos empresários e dos cientistas, pois estes constituem o núcleo vital do impulso de crescimento e geração de riqueza em qualquer país. Lula, como candidato ao quarto mandato, ainda não consegue pronunciar a palavra empresário uma única vez. O desprezo dele pelo vocábulo é total. Aliás, tampouco é lembrada a figura do pai. Nem para rezar. Uma sociedade que se descuida de fortalecer a figura paterna é fadada a conviver com pesados problemas morais, de disciplina e até de produtividade. Num grande resumo, os candidatos da hora continuam atrelados ao mau hábito de prometer o que não sabem como entregar. Em bom português, as agendas não são planos, porque não projetam nem medem nada.


A respeito de como os candidatos estão, de modo geral, afastados da realidade do dia a dia da população, é surpreendente como o termo corriqueiro “custo de vida” é mencionado apenas uma vez. Ora, na realidade de 2026, de famílias endividadas e ameaçadas pelos juros obscenos e pelo aumento de carga que a reforma tributária lhes trará, é espantoso como os candidatos não estão nem aí para o torniquete do alto custo de vida. Outro exemplo marcante de descolamento da realidade pelos candidatos é a quase absoluta ausência do termo INSS. Essa instituição, que deveria ser um pilar na formação da poupança nacional e da segurança econômica das famílias se tornou um covil de falcatruas e de enormes déficits que desfiguram seu propósito de dar aos brasileiros mais confiança no futuro. O desafio de reformar o INSS mal é abordado.


E podemos perguntar como o candidato vitorioso nas urnas pretende encaminhar propostas tão diversas e amplas para a deliberação do Congresso Nacional. Seria fundamental forjar um caminho para a aprovação em bloco dessas numerosas iniciativas. O Atlântico estudou essa matéria com cuidado e concluiu que a melhor maneira de fazê-lo, dentro da estreita janela do primeiro ano do próximo mandato, seria por meio de uma revisão constitucional, por rito sumário, de modo a passar o país a limpo e dar uma melhor chance à virada tão necessária. O presidente Milei, na Argentina, fez algo parecido logo nos primeiros dias do seu governo. Contudo, o termo “Revisão constitucional” não foi sequer mencionado, por qualquer dos candidatos. É um mistério como eles articularão as importantes medidas que cada um promete executar.
A impressão que nos fica, afinal, é a de um país abandonado à própria sorte, esquecido do que já foi um dia, quando estadistas do quilate de JK ou Castelo Branco conseguiam atrelar instrumentos de realização aos sonhos que propunham ao povo. Hoje, estamos num mato sem cachorro.

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