O agronegócio brasileiro não é fruto do acaso, nem simples dádiva natural. Ele é, antes de tudo, obra de gente. De gente bem formada, persistente, criativa e disposta a enfrentar problemas que outras agriculturas jamais precisaram enfrentar. “A taça do mundo é nossa”, cantava o país em 1958, celebrando não apenas um título de futebol, mas um modo de ser. A letra da Copa de 58 não falava só de futebol: falava de engenho, coragem, improviso inteligente e confiança coletiva. Desde então, essa mesma lógica se repete sempre que o Brasil decide transformar desafio em projeto nacional. Pena que sejam tão poucos esses grandiosos projetos.


Um dos exemplos mais fortes de “projeto nacional” está na construção da Embrapa. Costuma-se celebrar o avanço tecnológico, os ganhos de produtividade e a revolução nos cerrados. Mas nada disso teria existido sem o elemento humano, organizado, persistente e visionário. A Embrapa é, antes de tudo, uma obra de pessoas que enxergaram muito adiante do seu tempo.
Eliseu Alves trouxe a base econômica e institucional, ajudando a estruturar uma visão de longo prazo para a pesquisa agropecuária. José Pastore contribuiu com o entendimento profundo do fator trabalho, das relações humanas e da importância de instituições sólidas. Alysson Paolinelli, por sua vez, foi decisivo na articulação política e estratégica que permitiu transformar ciência em política pública e, depois, em resultado concreto no campo. Juntos, e com muitos outros, mostraram que inovação em país complexo não nasce do vácuo, mas da organização do capital humano e de determinação política inabalável.
Foi essa combinação – talento técnico, inteligência institucional e compromisso público – que permitiu ao Brasil, em pouco mais de 50 anos, mudar sua posição no mundo da agro-produção: de importador crônico de alimentos a grande potência agroambiental. Um feito comparável, em escala histórica, às grandes viradas nacionais. A virada do agro nacional começou quando o país decidiu confiar na ciência e nas pessoas. Nos anos 1970, em vez de aceitar os limites impostos pelo clima tropical, solos ácidos e baixa produtividade, o Brasil optou por formar quadros técnicos, investir em pesquisa e criar instituições. Nesse contexto nasceu a Embrapa. Não foi apenas mais uma empresa pública de pesquisa. Foi um projeto nacional baseado em ciência, método e multiplicação de gente qualificada. A Embrapa formou milhares de pesquisadores, tropicalizou tecnologias e construiu um estoque de conhecimentos aplicados que permitiram ao produtor brasileiro inovar em vez de só copiar. Esse capital humano acumulado é o ativo invisível – e decisivo – do agro brasileiro.
Décadas depois, o que se observa é a continuidade lógica dessa trajetória, com sensores, imagens de satélite, softwares de gestão, biotecnologia e automação, que ampliaram a capacidade de decisão, reduziram desperdícios e elevaram a produtividade sistêmica. O agro passou a operar com dados, previsibilidade e inteligência embarcada.
É nesse ambiente que floresce o novo ecossistema das agtechs brasileiras, hoje com mais de duas mil empresas, distribuídas ao longo de toda a cadeia produtiva [ver o quadro]. A inovação deixou de ser periférica e passou a integrar o núcleo do processo produtivo da tropicultura nacional.
Essa transformação é bem sintetizada pela dupla visão de quem observa o campo a partir de sua larga experiência “de dentro” – como agrônomo de formação – e “de fora” – como líder de grandes conglomerados empresariais e financeiros. Falo de Roberto K. Bornhausen, 93, cuja antevisão de futuro aqui compartilho com o leitor:
“Paulo, sobre a agricultura, minha visão é que vamos ter uma nova evolução acentuada nestes próximos anos, com base, principalmente, em seis vetores: 1 – bio-insumos, fator já presente e com bom uso, mas é um campo quase infinito para explorar, pois não estamos falando de espécies de microrganismos, mas sim de cepas destes; 2 – drones, já em uso, mas ainda demandando muita evolução no hardware e também adaptações dos produtos ao uso para drone; 3 – IA, começando a ser usada, mas demandando a existência de inteligência artificial voltada e treinada para o agro; 4 – engenharia genética, para obtenção de novos cultivares e novos defensivos com mais celeridade. A técnica já é dominada; 5 – robôs, campo que já tem o primeiro exemplar, mas ainda bem restrito. Necessário para suprir a escassez crescente de mão de obra; 6 – nanotecnologia, para aumentar a eficiência de nutrientes e defensivos. Necessária ainda muita pesquisa, mas já começam a aparecer as primeiras informações.
Esta é minha visão, a de um velho agrônomo, observador da lida no campo.” Roberto K. Bornhausen.
A força desse fantástico resumo está em sua sobriedade. Não há futurismo, nem deslumbramento tecnológico. Há continuidade histórica. Todos esses vetores dependem, no fundo, do mesmo insumo que moldou o sucesso do agro brasileiro desde os anos fundadores da Embrapa: capital humano qualificado.
Nada disso prospera sem gente preparada. Inteligência artificial exige dados bem tratados; bio-insumos exigem microbiologia avançada; robôs exigem engenharia, manutenção e integração ao sistema produtivo; nanotecnologia exige pesquisa rigorosa. Tecnologia alguma se sustenta sem conhecimento humano acumulado.
O desafio atual do Brasil não é tanto o de inventar soluções – elas já existem. O desafio maior é difundir essas soluções em escala, criando ambiente institucional, infraestrutura digital, crédito compatível com o risco agrícola e segurança jurídica. Sempre que essas condições se alinham, o produtor responde – como sempre respondeu – com trabalho, investimento e mais produtividade.
O Brasil venceu no agro porque apostou nas pessoas. Apostou em ciência, método e formação. Com brasileiro bem preparado, não há solo ruim, não há clima hostil, não há desafio técnico que não possa ser superado. Com brasileiro preparado, de fato “não há quem possa”.

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