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Nos últimos dias de outubro, os contratos futuros das bolsas americanas caíram fortemente após balanços financeiros decepcionantes das gigantes de tecnologia. A venda de ações ligadas à inteligência artificial (IA) disparou, levando os preços para baixo. Procurando abrigo, investidores compraram ainda mais títulos da dívida pública estadunidense e de outros países. Cresce a dúvida sobre o retorno dos gastos monumentais com IA, enquanto a promessa de produtividade desses negócios começa a receber o escrutínio que toda moda financeira deveria conhecer.
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Michael Froman, presidente do Council on Foreign Relations, vê nos receios e na resistência à IA ecos das controvérsias da globalização. Prometer prosperidade agregada não convenceu quem perdeu emprego e renda entre os anos 1980 e os anos 2000, quando a globalização chegou ao pico comercial. Dos anos 2010 para cá existe a ressaca da globalização e nesses anos 2020 teve início a onda da IA.
Em 2004, Jagdish Bhagwati ironizava a trajetória contraditória da globalização: por um lado, uma “buzzword”, ou “palavra da moda”, celebrada em Davos, enquanto, por outro lado, era achincalhada por seus adversários. Defensor da integração econômica, criticava paixões que dispensavam explicações. IA, a moda monetizável do momento, é outra “buzzword”. Cabe perguntar quem ganha, quem paga, quem decide e quais regulações são necessárias para o bem social.
A internet é a tecnologia de propósito geral que define nossa era, desde os anos 1980. Possibilita tanto a globalização quanto a IA. Sua infraestrutura conecta um conjunto de transformações: mídias digitais e redes sociais, IA, internet das coisas e digitalização associada à robótica. Não são sinônimos, mas nasceram uns dos outros. Combinados, alteram a produção e a circulação de informação, mercadorias e poder.
O Brasil entrega parcelas crescentes da vida econômica e política a plataformas estrangeiras, como Instagram, Facebook e WhatsApp, da Meta. Em 2025, 81% dos usuários brasileiros de internet usavam redes sociais. A dependência fica especialmente visível nas eleições.
O barulho digital veio para ficar. O negócio das redes não é propriamente a desinformação, mas a atenção, de preferência sem reflexão crítica. Afeto e desprezo são comercialmente explorados. Dados entregues pelos usuários alimentam sistemas que selecionam produtos e ideias antes mesmo de uma procura consciente. Num mundo de GPS, quem não tem bússola própria é presa fácil de micro e macroenganações. A IA barateia a fabricação de mensagens e personagens, multiplicando a capacidade de indução.
A ONU não consegue se livrar da natureza essencialmente política que lhe deu origem. Seus instrumentos de proteção de direitos dependem, em grande medida, da atuação dos Estados. A Declaração Universal não instalou um governo mundial. Existem decisões internacionais a princípio obrigatórias, mas a distância entre compromisso e execução permanece. A internet fez o cidadão nacional imaginar ser cidadão do mundo, sem lhe assegurar proteção equivalente.
Paul Krugman, hoje o decano dos estudiosos de economia internacional, enumera uma longa lista de inquietações com a IA: prejuízos aos trabalhadores, concentração oligárquica, investimentos em centros de dados comprimindo outros investimentos, risco de bolha financeira e ataques cibernéticos com consequências que vão do pequeno ao infinito.
Há tarefas que a IA pode facilitar e ocupações que pode desorganizar. Para a OIT, a IA generativa tende a transformar empregos mais que os substituir integralmente. A escolha empresarial entre ampliar o trabalho humano e eliminá-lo responde a incentivos públicos, legislação e negociação coletiva.
No Brasil e em qualquer lugar, recursos escassos têm usos alternativos. Energia, água, crédito e incentivos fiscais destinados a centros de dados deixam de atender outras finalidades ou exigem expansão custosa da oferta. Só vale a pena mesmo levando em consideração o custo de oportunidade.
O grande tema dos próximos anos é como termos e mantermos a soberania popular na era digital. É um tema com implicações ao mesmo tempo econômicas e para a democracia. A pesquisa científica sobre o assunto acumula conhecimento há anos, com respostas à altura para os desafios.
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Essa soberania requer capacidade de regulação estatal, agentes nacionais de vários portes, fiscalização das plataformas, aplicação efetiva das exigências de transparência e controle legal sobre decisões automatizadas. O algoritmo parece ingovernável quando seus proprietários e associados governam sem sujeição aos controles democráticos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.