O técnico do Gotham FC, Juan Carlos Amorós, tirou cinco semanas de licença-paternidade no meio da temporada. E isso é interessante justamente porque ele ocupa uma função em que normalmente existiria o argumento pronto: "eu não posso sair agora, o time precisa de mim."
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Esse movimento não é isolado. A Diageo, por exemplo, já saiu na frente da legislação e oferece 180 dias de licença desde 2019, independentemente do gênero de quem se torna pai ou mãe.
E é exatamente por isso que esse tema deveria estar na mesa do CEO como uma questão de negócio e não, sendo uma pauta cuidada somente pelo RH como mais um item de bem-estar. Essa pauta recai diretamente sobre performance, entrega, cultura e resultado final de um negócio. Afinal de contas, uma licença-paternidade estendida pode mostrar para você que a sua empresa depende única e exclusivamente de uma única pessoa na sua empresa. Ainda, essa pauta faz com que o negócio forme gestores mais preparados para delegar e confiar em quem está ao redor. Amadurece a cultura organizacional, tornando-a mais igualitária e menos dependente de discursos institucionais. Avança a pauta de equidade de gênero dentro das empresas, ao tirar da mulher o peso de ser a única a "pagar o preço" da parentalidade na carreira. E fortalece a forma como essas empresas são percebidas por quem está de fora: do talento executivo que decide onde quer trabalhar, ao mercado como um todo.
A LICENÇA-PATERNIDADE É UM TESTE DE LIDERANÇA
Existe uma frase clássica: "não posso ficar 2 meses fora, a empresa precisa de mim." E dessa frase nasce uma pergunta muito importante, que todo gestor e todo RH deveriam se fazer: por que a empresa não consegue funcionar 2 meses sem ele?
A partir daí, a licença-paternidade deixa de ser uma discussão apenas sobre parentalidade e passa a tocar em: delegação autonomia sucessão concentração de poder desenvolvimento da segunda linha maturidade organizacional.
E é quando ele sai que a empresa consegue perceber muita coisa que não percebia na sua presença: o nível de dependência do time em relação a ele; a falta de autonomia; a concentração de poder; e o quanto ou quão pouco, a sucessão foi de fato desenvolvida.
UMA LICENÇA QUE PODE TRANSFORMAR PESSOAS
Mas essa transformação não fica só na estrutura da empresa: ela também torna esses homens pessoas melhores, na medida em que passam a viver o dia a dia da casa, dos filhos.. Uma pesquisa da McKinsey com 130 pais entrevistados em 10 países mostra bem isso: 90% notaram melhora no relacionamento com o parceiro ou parceira depois da licença, e muitos relataram passar a priorizar melhor o tempo, trabalhar de maneira diferente e sentir maior motivação para permanecer na empresa.
Esse tema também leva a uma discussão sobre um modelo de liderança antigo, e ainda muito presente nas organizações, a ideia de que disponibilidade é igual a comprometimento: o líder que responde às 23h; o diretor que nunca tira férias; o executivo que participa da reunião durante a própria licença e o CEO que diz, com orgulho, que voltou ao trabalho quatro dias depois do nascimento do filho.
Durante muito tempo, isso foi interpretado como demonstração de compromisso. A discussão atual começa a permitir outra interpretação: talvez um líder que precise estar disponível o tempo inteiro ainda não tenha construído uma organização suficientemente autônoma. Mas os pais que efetivamente tiraram essa licença estendida mostraram, na prática, que esse modelo não é necessário: eles voltaram entregando mais, não menos. Provaram que qualidade de vida não é o oposto de alta performance, é o que sustenta ela. Um líder descansado, presente e com a cabeça no lugar entrega mais do que um líder esgotado tentando provar comprometimento à custa da própria saúde.
DA LICENÇA À CULTURA: O EFEITO CASCATA
Para que essa transformação aconteça de verdade, ela precisa vir de cima para baixo: o VP precisa tirar a licença, e é a partir daí que o diretor entende que também pode. Isso vai descendo pelas camadas da empresa e deixa de ser apenas uma conversa do RH para se tornar um exemplo vivo da cultura.
E é justamente quando essa cultura se instala dessa forma que ela abre portas para melhorar a igualdade de gênero em cargos de liderança. Historicamente, se afastar do trabalho para cuidar de um filho sempre foi tratado como um evento de carreira feminina, algo que impacta a trajetória da mulher, que gera viés inconsciente na hora de promovê-la ou contratá-la. Quando homens em cargos de liderança também se afastam por meses, essa lógica começa a se desfazer. A parentalidade para de ser percebida como um evento de carreira feminina e passa a ser um evento de carreira de profissionais. E isso pode mudar o cálculo de quem decide quem sobe: quantas empresas vão passar a pensar de forma diferente sobre colocar mulheres em cargos estratégicos, quando o afastamento para cuidar dos filhos deixar de ser um risco associado apenas a elas?
E o que isso constrói para dentro e para fora da empresa?
Para dentro, isso constrói valor de permanência: o time enxerga, na prática, que a empresa sustenta o que promete, e isso pesa na hora de decidir ficar ou sair. Um colaborador que vê um VP ou um diretor tirando a licença sem que nada desmorone entende que aquilo vale para ele também, não é só discurso de manual.
Para fora, isso também melhora a percepção externa da empresa: mostra que essa prioridade existe até no topo da hierarquia.
Essa decisão traz força ao employer branding e à retenção de liderança, especialmente em uma geração de líderes que valoriza cada vez mais o equilíbrio entre vida pessoal e carreira.
No fim das contas, a licença-paternidade estendida não é sobre o tempo que um executivo passa fora do escritório. É sobre o que essa ausência revela — e o que ela constrói. Quando Juan Carlos Amorós tirou cinco semanas no meio da temporada, o Gotham FC não parou. E é justamente esse o ponto: a empresa que sobrevive à ausência do seu líder é a empresa que amadureceu.
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Talvez a pergunta que fica não seja mais "quem pode se dar ao luxo de tirar essa licença?", mas "quantas empresas ainda não conseguem se dar ao luxo de deixar seus líderes saírem?"
