Marcelo de Assis
Marcelo De Assis
Jornalista, pesquisador musical desde 1984, Marcelo de Assis já escreveu para grandes portais como o Terra, IG e Claro Notícias. Em sua carreira coleciona inúmeras entrevistas com grandes nomes da música nacional e internacional. Ele também é membro do Gr

José Jr apresenta visão humanizada da fé em "Linhas Invisíveis"

Segundo álbum da carreira do cantor e compositor mineiro se distancia de representações tradicionais e reúne coragem para confessar as próprias fraquezas

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Aos poucos, José Jr. deixou de ser apenas o menino que cantava em casa, o jovem do interior de Minas Gerais que sonhava em ser médico e realizar trabalhos humanitários e o estudante da UFMG que compunha nas horas vagas. Aos 30 anos, o cantor e compositor abre um novo capítulo dessa trajetória com o lançamento de Linhas Invisíveis, seu segundo álbum de estúdio, que chega nesta terça-feira (11).

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Com 14 faixas, o disco nasce menos da tentativa de encontrar respostas e mais da disposição de conviver com perguntas. Fé e dúvida, desejo e renúncia, comparação e contentamento, medo e esperança atravessam um repertório interessado nas forças que conduzem uma história e nos acontecimentos aparentemente pequenos capazes de mudar completamente uma vida.

Musicalmente, Linhas Invisíveis também revela parte das referências que acompanharam José durante sua formação. Cazuza e Belchior aparecem entre as influências mais importantes na composição, ao lado de nomes como Gal Costa, Caetano Veloso e Djavan. O resultado transita por MPB, folk, indie e pop, sem abandonar o caráter confessional da escrita do artista.

Uma viagem ajudou a criar o conceito de ‘Linhas Invisíveis’

Parte do conceito do álbum começou a tomar forma depois de uma viagem de José à Tailândia. A experiência despertou reflexões sobre destino, acaso e a sequência de acontecimentos que determina os rumos de uma pessoa.

“Se alguma coisa tivesse acontecido de forma milimetricamente diferente, talvez quem eu sou hoje não fosse exatamente quem eu sou”, conta.

É dessa percepção que surge a imagem das linhas invisíveis que dão nome ao trabalho: conexões entre acontecimentos, encontros e escolhas que só podem ser percebidas quando alguém olha para a própria trajetória em retrospecto.

“Existe uma ordem, uma narrativa sendo construída, mesmo quando, do nosso ponto de vista limitado, tudo parece caótico”, explica José.

José Jr. admite ainda estar descobrindo o próprio álbum

Embora seja responsável pelas canções, José afirma que ainda não compreendeu completamente tudo aquilo que escreveu. Algumas músicas nasceram diretamente de situações que enfrentava durante o processo criativo. Outras surgiram antes que determinados acontecimentos ganhassem significado em sua vida.

Durante a produção, o compositor percebeu que certas letras pareciam antecipar emoções e conflitos que ele só experimentaria posteriormente.

“Cada vez que eu escuto ‘Linhas Invisíveis’, eu descubro alguma coisa nova sobre mim. Não sinto que seja um álbum que eu já compreendi completamente”, afirma.

Essa característica também diferencia o trabalho da produção anterior do artista. Se antes havia um compositor mais jovem e romântico, agora José direciona a escrita para questões relacionadas a propósito, espiritualidade, amadurecimento e à própria necessidade de construir uma vida considerada extraordinária.

“Eu sempre fui uma pessoa que sonhou em viver algo grandioso, em ter uma vida de impacto, e esse álbum também começa a desmontar um pouco essa necessidade, mostrando que talvez exista muito valor no caminho, e não apenas no destino”, diz.

César MC participa de ‘Verde Gramado’

Uma das músicas que melhor traduz essa mudança é Verde Gramado, parceria com o rapper César MC. A última faixa escrita para o álbum nasceu a partir da leitura de O Filho de Mil Homens, do escritor português Valter Hugo Mãe.

A composição parte da comparação e da tendência de observar a trajetória dos outros como se ela fosse necessariamente melhor do que a própria.

“Nem sempre a vida vai parecer extraordinária, mas isso não significa que ela seja menos bonita”, resume José.

César MC escreveu sua própria participação, acrescentando outra perspectiva à reflexão proposta pela faixa. O encontro transforma Verde Gramado em uma conversa sobre expectativas, contentamento e a capacidade de reconhecer valor na vida que efetivamente foi construída.

Gustavo Bertoni, do Scalene, aparece em ‘Beira Rio’

Outro encontro importante acontece em Beira Rio. José divide os vocais com Gustavo Bertoni, cantor e compositor brasiliense conhecido também como vocalista do Scalene.

A parceria surgiu de maneira inesperada durante o desenvolvimento do álbum e tornou-se uma das surpresas do processo para José. A faixa aborda questões relacionadas à fé, trajetória e ao peso de aceitar um propósito que passa a afetar não apenas quem tomou determinada decisão, mas também aqueles que caminham ao seu redor.

O álbum conta ainda com a participação do pianista Fellipe Fernandes, parceiro de José desde 2021 e responsável por boa parte dos pianos presentes no projeto.

Da infância em Minas Gerais à Faculdade de Medicina

A trajetória de José Jr. começou em Inhaúma, no interior de Minas Gerais. Criado em uma família que estimulava sua criatividade, desde criança inventava histórias, produzia trabalhos manuais e participava de apresentações escolares. Na casa da avó, que trabalhava como oleira, também teve contato com o processo de transformar barro em criação.

A relação mais estruturada com a música começou aos 13 anos, quando passou a fazer aulas de violão na igreja. Foi também nesse período que aprofundou seu contato com a música popular brasileira. Até então, parte importante de suas referências musicais vinha das trilhas das novelas assistidas pela família durante o jantar.

A medicina, por sua vez, nasceu de outro desejo da infância. Depois de encontrar uma revista com imagens de crianças negras vivendo em situação de extrema pobreza na África, José decidiu que queria tornar-se médico e participar de trabalhos humanitários.

O objetivo o levou à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mas foi justamente durante os anos de universidade que a música começou a ocupar um espaço cada vez maior em sua vida.

Uma música compartilhada em 2019 mudou sua trajetória

Um dos acontecimentos decisivos ocorreu em 2019. Durante uma escola de missões, José apresentou uma composição sem grandes pretensões. Um áudio da música começou a circular, ganhou força por meio do compartilhamento entre ouvintes e abriu uma possibilidade profissional que ele não havia planejado.

A partir daquele momento, medicina e música passaram a avançar paralelamente. José concluiu sua formação médica pela UFMG em 2022 e atualmente realiza residência médica em pediatria, ao mesmo tempo em que desenvolve uma carreira musical que alcançou milhões de ouvintes.

Para ele, as duas atividades não representam caminhos incompatíveis. A medicina oferece contato cotidiano com vulnerabilidade, sofrimento, cuidado e esperança. A música cria um espaço no qual essas experiências podem ser transformadas em narrativa.

‘Linhas Invisíveis’ coloca a experiência humana no centro

É justamente a relação entre essas experiências que sustenta Linhas Invisíveis. O álbum observa aquilo que não pode ser facilmente medido: encontros que alteram trajetórias, decisões aparentemente pequenas, dúvidas espirituais, expectativas frustradas e a tentativa de compreender o significado de uma vida enquanto ela ainda está acontecendo.

Em vez de apresentar a chegada aos 30 anos como um momento de certezas, José Jr. escolhe registrar as dúvidas que permanecem. As 14 músicas funcionam como capítulos de uma história que o próprio compositor admite ainda estar tentando interpretar.

Por trás das plataformas, números e algoritmos que passaram a fazer parte da carreira do artista, Linhas Invisíveis retorna a uma questão essencialmente humana: a tentativa de compreender como encontros, escolhas e acontecimentos aparentemente desconectados acabam formando a história de quem somos.

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