Tem uma palavra martelando na minha cabeça há dias: autenticidade.

Na semana passada, estive no SP2B, evento que estreou em São Paulo organizado pela mesma turma do carioca Rio2C — um dos maiores encontros de creator economy e audiovisual do país, frequentemente apelidado pelos mais entusiasmados de "o SXSW tupiniquim". Críticas ao formato inaugural à parte, o painel sobre o mar de mesmice que hoje engole a criação de conteúdo, seja ela orgânica ou publicitária, ficou ecoando na minha cabeça... Como se tornou difícil inovar.

Tá sentindo isso por aí também? Aquela sensação de que ter uma boa ideia – e, mais ainda, tirá-la do papel de um jeito fora da curva – virou artigo de luxo. Estamos sempre correndo contra o tempo ou operando sob a régua de um orçamento curto. E se tem uma coisa que ideia boa aprecia é tempo: o tempo de brotar, maturar e colorir o pensamento em camadas, feito uma tela da Beatriz Milhazes.

Para complicar (e fascinar), entra em cena a inteligência artificial. O ganho de escala e produtividade com a tecnologia é indiscutível. Reconheço meu viés de quem vive isso por dentro, trabalhando no Google, uma das empresas que lidera essa virada global, onde o desafio diário é justamente reinventar processos a partir das novas ferramentas que temos amplamente à nossa disposição. Mas há uma fronteira: a IA gera, ela não cria. Falta a ela o atrito, o desvio e o repertório humano que tornam uma ideia memorável.

Do outro lado da tela, há o esgotamento de quem consome. Não sei você, mas, por aqui, tem sido cada vez mais difícil manter o foco em um conteúdo, especialmente quando ele fica na palma da mão. Até pendurar uma melancia no pescoço para chamar minha atenção perdeu a eficácia. Na verdade, não dá para dizer que esse seja um método novo, já que Carmen Miranda eternizou seu turbante de frutas tropicais como adereço fashionista há mais de 80 anos. Hoje, num deslizar de feed, tudo parece pasteurizado. É quase impossível se destacar em um ecossistema onde todo mundo bebe da mesma fonte e obedece à mesma cartilha de engajamento. O case das chuteiras cor de rosa nos campos da Copa 2026 está aí pra nos lembrar disso.

Voltando ao painel, em determinado momento, a consultora de inovação Simone Kliass propôs um exercício simples à plateia, que repasso a você: abra seu assistente de IA favorito e peça para ele escolher um número de 1 a 10. Para a esmagadora maioria, a resposta foi 7. Por aí também? A probabilidade matemática e os padrões da linguagem explicam a escolha, mas o ponto é outro: a tecnologia tende a nos devolver o consenso, a média estatística. O perigo é quando nós, profissionais e criadores, passamos a agir com a mesma previsibilidade do algoritmo.

A saída para romper esse padrão não vem de um prompt milagroso, mas de um traço comportamental cada vez mais raro: o desapego do julgamento alheio. Vivemos na era do panóptico digital, resgatando aqui uma ideia de Michel Foucault. Não à toa, pesquisas recentes apontam que a Geração Z tem evitado festas e exposições públicas pelo pavor de ser filmada, cancelada ou taxada de cringe. O medo de errar engessa a criatividade. Ter estilo próprio e sustentar uma visão exige uma dose de risco que poucas marcas — e poucas pessoas — topam bancar.

Quem nada contra essa corrente acaba se tornando um ímã. Foi o caso de outra figura que chamou atenção nos corredores e palcos do SP2B: Chantal Kopenhagen Goldfinger, cofundadora da GoldKo, marca de chocolates sem açúcar e herdeira da chocolateria homônima. Com seus óculos excêntricos (palavra exclusiva dos gostos dos ricos, Michel Alcoforado iria concordar) e sua paixão por boas histórias, ela lembra que personalidade não cabe em templates, apesar de com certeza usá-los. Chantal fala de negócios misturando arte, viagens, bastidores e um toque de fofoca elegante. É magnética porque não tenta performar uma simplicidade protocolar para agradar a todos; ela é dona do próprio tom e faz o estilo “gente como a gente” que é tão gostoso de ver numa rede inundada de ostentação.

A tecnologia vai continuar nos entregando atalhos eficientes e respostas confortáveis no número 7. Ela pode ser até bajuladora — uma armadilha para os narcisistas, conheço alguns. É claro que um bom prompt pode ajudar, e me ajuda frequentemente, inclusive na edição deste texto. Mas sair do comum demanda esforço, simples assim. Seja para estudar cases e se inspirar por ideias, seja para buscar referências que tenham a ver com você na hora de reformar um apartamento ou escolher um nome mais original que Enzo para seu filho (nada contra, mas de fato ficou batido). O que parece ser capaz de nos conectar de verdade e fazer parar o polegar na tela continua sendo a ousadia de quem tem coragem de ser qualquer outro número — ou suas infinitas frações.


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