No começo da semana, na bolsa de apostas da Faria Lima, acreditava-se que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, teria uma conversa decisiva com o ex-presidente Jair Bolsonaro durante uma visita previamente agendada e autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
A expectativa era de que o gesto — embora apresentado como manifestação de solidariedade pessoal — carregasse um significado político mais profundo: abrir uma janela para rearranjo da direita na disputa presidencial e, sobretudo, reanimar a esperança do mercado de que ainda existe um caminho eleitoral capaz de derrotar Lula sem recorrer ao bolsonarismo “raiz”.
Nos bastidores da política paulista, circulava a versão de que Tarcísio tentaria convencer Bolsonaro de que uma candidatura apoiada diretamente pelo clã — com o senador Flávio Bolsonaro ou mesmo com Michelle Bolsonaro na vice — seria “imbatível” contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao contrário, argumentariam esses setores, um nome identificado de forma integral com o bolsonarismo aumentaria a rejeição e dificultaria a construção de uma maioria eleitoral que ultrapasse a base conservadora militante, impedindo a atração de segmentos do centro e do centro-esquerda que rejeitam Lula e se dispõem a votar em um candidato direita sem o estilo bolsonarista.
Esse raciocínio alimenta, há meses, o sonho da elite econômica: uma frente de centro-direita capaz de se articular, sobretudo em segundo turno, agregando o apoio de outras lideranças com densidade regional, como os governadores Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Junior (PR), Eduardo Leite (RS) e Romeu Zema (MG) — a maioria, inclusive, podendo entrar na aliança já no primeiro turno para ampliar o leque oposicionista.
O problema é que as pesquisas vêm mostrando que essa tese tem dificuldades crescentes para se materializar: o campo antipetista não se dispersa de forma “racional”, mas se organiza por identidade, comando e pertencimento político.
A pesquisa Quaest da semana passada apontava justamente essa contradição: ao mesmo tempo em que sinalizava a inviabilidade prática de uma terceira via competitiva, reforçava a expectativa de reeleição de Lula diante de um adversário polarizador.
Foi nesse ambiente que a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (21), caiu como um banho de água fria no sonho da Faria Lima, hoje com um olho na crise do Banco Master e outro no cálculo eleitoral.
Ao consolidar o peso de Flávio Bolsonaro como principal nome da oposição e ao retratar a manutenção de Lula na liderança, o levantamento reforçou um diagnóstico incômodo: a direita pode até ter nomes mais competitivos no plano administrativo, mas o bolsonarismo continua sendo o centro gravitacional do voto oposicionista. E, sem uma decisão política de Jair Bolsonaro, não há “engenharia” de mercado capaz de impor um candidato alternativo..
Turma do funil
O adiamento da visita de Tarcísio a Bolsonaro ampliou o mal-estar entre ambos e frustrou ainda mais as expectativas. A conversa estava autorizada por Alexandre de Moraes e seria realizada nesta quinta-feira, entre as 8h e as 10h. Mais cedo, o próprio governador havia confirmado o encontro, com um discurso cuidadosamente desenhado para transmitir lealdade e afeto: disse que iria visitar “um grande amigo”, manifestar solidariedade, oferecer apoio e reforçar que Bolsonaro “sempre poderá contar” com ele.
Na política, frases afetivas cuidadosas quase sempre carregam segundas intenções: tratava-se de um gesto público que poderia ser interpretado como tentativa de reaproximação, reafirmação de compromisso, ou até como ensaio de reposicionamento. Seria a primeira visita de Tarcísio a Jair Bolsonaro desde que o ex-presidente confirmou, em carta, o apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Antes desse anúncio, a possibilidade de Tarcísio ser o candidato da direita circulava com intensidade, alimentada pelo desempenho do governador paulista em São Paulo e pela percepção de que ele poderia ser mais competitivo contra Lula em segundo turno.
O problema é que a carta de Bolsonaro mudou o rumo da prosa: oficializou a candidatura de Flávio e faz de qualquer alternativa uma espécie de deslealdade. A visita, por isso, serviria para medir se existe espaço para flexibilizar a decisão do ex-presidente ou, no mínimo, reabrir as negociações. O que os números recentes indicam é que não existe argumento “robusto” o suficiente para demover Bolsonaro.
Flávio pode não ter perfil de administrador e não transmitir ao mercado a mesma previsibilidade de Tarcísio, mas é um político com mais experiência no Congresso e, sobretudo, com a chancela do pai — que segue como principal operador de unidade do campo bolsonarista.
A capacidade de transferência de votos, mobilização de base e pressão sobre o sistema político permanece impressionante. Na prática, Bolsonaro continua inelegível, mas plenamente ativo como árbitro da direita, dono de um capital político que nenhum governador ou empresário consegue neutralizar.
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O mercado reage à viabilidade, à governabilidade e ao risco de cada candidatura de oposição: Lula lidera; Flávio consolida-se como segundo polo; a alternativa “moderada” não encontra mecanismo de construção. A reação da Faria Lima é ambígua: deseja uma candidatura com menor rejeição, porém percebe o funil identitário que reduz as margens de manobra.