Por que líderes tecnicamente brilhantes travam em decisões importantes?
Aquilo que evitamos enfrentar em nós mesmos pode comprometer nossas relações familiares e impactar os negócios
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Há empresários capazes de administrar operações complexas que, diante de uma decisão incômoda, hesitam por razões que não aparecem no currículo. Negociam contratos de alto valor e, ainda assim, adiam uma providência simples. Conhecimento técnico sustenta o negócio, mas nem sempre basta para exercer a autoridade que a função exige.
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João Elias Carvalho, de 42 anos, é farmacêutico há 16, pós-graduado em farmacologia clínica e mental e proprietário de duas farmácias. Apesar da experiência, percebia que, em determinadas situações, tomava decisões que ele próprio considerava ingênuas, mesmo quando precisava agir com maturidade e firmeza. O que mais o inquietava era não compreender por que se comportava daquela maneira.
Foi essa inquietação que levou João a me procurar, uma especialista em consultoria sistêmica, abordagem que busca identificar padrões de comportamento que podem influenciar as relações pessoais e profissionais. Acostumado ao rigor científico, ele inicialmente desconfiava do método, mas aceitou o acompanhamento.
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Bert Hellinger, criador das constelações familiares, sugeriu examinar como vínculos familiares podem repercutir na vida adulta. No livro “Constelações organizacionais”, Klaus Grochowiak e Joachim Castella discutem como antigas formas de agir podem reaparecer no ambiente empresarial. Uma pessoa pode mudar de posição, assumir novas responsabilidades e continuar reagindo da mesma maneira diante de certos conflitos. Na empresa, porém, essas repetições podem afetar não apenas o líder, mas também as pessoas e os resultados que dependem de suas decisões.
Essa perspectiva não transfere aos pais a responsabilidade pelas escolhas de um adulto. Foram eles que nos deram a vida e, dentro de suas possibilidades, fizeram o que deram conta. Reconhecer essa história não significa ficar preso a ela, mas assumir a responsabilidade por nossas escolhas e fazer o melhor com a vida que recebemos.
Na vida de João, a dificuldade de distinguir os momentos de seriedade daqueles em que podia relaxar aparecia até no lazer. Casado há 13 anos e pai de dois filhos, associava maturidade à necessidade de manter sempre uma postura séria. Quando jogava basquete com o filho e outras crianças, preocupava-se com o papel de homem maduro que acreditava precisar representar. Ao mesmo tempo, reconhecia atitudes que considerava ingênuas justamente nas situações em que precisava agir com firmeza.
João também passou a perceber como os comportamentos pessoais podem influenciar a vida profissional. Para explicar essa relação, comparou duas situações: deixar um prato na pia e adiar o envio de um documento a um fornecedor. Em ambas, existe uma responsabilidade deixada para depois - uma pode afetar a convivência na família; a outra pode comprometer o andamento do negócio. Para ele, reconhecer comportamentos que nos sabotam faz parte do amadurecimento necessário para assumir nossas responsabilidades.
Essa relação entre comportamento e responsabilidade ganhou mais clareza para João com o acompanhamento sistêmico. Ele passou a compreender por que cobrava de si mesmo uma postura séria até nos momentos de diversão, mas nem sempre agia com a maturidade necessária diante de suas responsabilidades. Ao reconhecer esse padrão, entendeu que podia dar espaço à espontaneidade sem deixar de assumir seu papel de adulto. Hoje, joga basquete com o filho quase todos os dias, com tranquilidade, e afirma tomar decisões profissionais com mais maturidade.
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O ponto cego da liderança aparece justamente quando falta a percepção que João diz ter desenvolvido. Aquilo que evitamos enfrentar em nós mesmos pode comprometer nossas relações familiares e impactar os negócios. Reconhecer os próprios padrões não muda o passado, mas pode mudar a maneira como o empresário decide, lidera e constrói o futuro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.