A população do Brasil e do mundo está envelhecendo em ritmo acelerado. Organismos internacionais e dados do IBGE mostram que, em poucos anos, haverá mais pessoas com 60+ do que crianças em vários países, inclusive no Brasil. Vivemos mais graças aos avanços da medicina, da tecnologia e das condições de vida, mas nossas cidades, serviços, produtos e relações sociais ainda operam como se a velhice fosse exceção — quando, na verdade, ela já é parte central do presente. Envelhecer deixou de ser um tema de nicho e passou a ser um dos principais desafios estruturais do século XXI.
Ao mesmo tempo, o idoso de hoje não é mais o estereótipo frágil, passivo e recolhido que por muito tempo dominou o imaginário social. A geração 60+ tornou-se um mercado em crescimento, dispõe de mais recursos para retardar e amenizar os efeitos do envelhecimento e ocupa espaços que antes lhe eram negados: restaurantes, viagens, shoppings, academias, cursos e redes sociais. Mas envelhecer bem não é apenas viver mais nem consumir mais — é viver com autonomia, pertencimento e dignidade. É por isso que esta coluna propõe olhar para o Brasil a partir da lente do envelhecimento: para entender não apenas como estão os idosos, mas como estamos, enquanto sociedade, nos preparando — ou falhando — para um futuro que já chegou.
Nesta semana, recebi mais de uma mensagem perguntando se eu já tinha ouvido falar da sigla NOLT. “Não é idoso, é NOLT”, dizia um texto que circula em redes sociais e grupos de WhatsApp. NOLT vem de New Older Living Trend e tenta dar nome a algo que muita gente 60+ já sente na prática: não se reconhece mais no rótulo de “idoso” associado a fim de ciclo, dependência e recolhimento. O NOLT é apresentado como alguém que volta a estudar, aprende tecnologia, viaja, empreende, muda de carreira, cuida da saúde, da mente e das relações. Alguém que não está esperando o tempo passar, mas tentando fazer o tempo acontecer.
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Mesmo sendo um termo criado no ambiente do marketing — e praticamente só usado no Brasil — ele pegou porque conversa com uma experiência real dessa geração. O nome pode ser novo, mas a sensação de estar vivendo uma fase ativa, curiosa e cheia de projetos é verdadeira para muita gente. Ao mesmo tempo, fora desse discurso de comportamento, NOLT já é uma sigla usada na ciência para Novel Object Location Test, um teste aplicado em pesquisas para avaliar memória espacial e possíveis sinais de declínio cognitivo no envelhecimento. A coincidência resume bem o nosso momento: convivem, ao mesmo tempo, a narrativa da vitalidade e a realidade dos riscos que também aumentam com a idade.
O problema, portanto, não é chamar de NOLT ou criar novos rótulos para o envelhecimento. O problema é achar que mudar o nome resolve o problema. O que se espera, de fato, é que governo, empresas e sociedade civil passem a testar, medir e redesenhar produtos, serviços e políticas públicas a partir de quem está envelhecendo de verdade — e não apenas a partir de campanhas publicitárias. Isso vale para aplicativos e sites, para o atendimento em bancos e serviços públicos, para o transporte, para os espaços culturais, para a moradia e para a própria organização das cidades. Em um país que envelhece rapidamente, essas escolhas deixam de ser apenas técnicas e passam a ser políticas: definem onde colocamos recursos, quais grupos priorizamos e que tipo de sociedade estamos construindo. Envelhecer melhor não depende só de atitude individual ou poder de consumo, mas de sistemas mais justos, acessíveis e preparados para lidar com todas as diversidades, inclusive a diversidade geracional.
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