Outro dia o Instagram me lembrou que era aniversário de uma amiga.  Achei delicado da parte dele. A Meta aparentemente sabia mais sobre a nossa relação do que nós duas.

Pensei em mandar uma mensagem. "Parabéns! Tudo de lindo." Escrevi. Apaguei. Escrevi de novo. Achei íntimo demais. Achei distante demais. Reagi a um story com um coração. Ela curtiu a reação. Pronto.

Essa atitude foi o equivalente emocional a dois vizinhos que se encontram no elevador, comentam que o tempo anda seco e seguem para apartamentos diferentes. Passamos quinze anos dividindo a vida e agora compartilhamos um emoji.

Freud dizia que o luto é um trabalho e faz todo sentido, claro. Porém ele, que explica tudo, não explicou o que fazer quando a pessoa continua viva. Porque existe um tipo de morte que não tem caixão, flores, lápide. A pessoa continua ali, o tempo todo, com a gente. Só que do lado de fora. 

Não há missa de sétimo dia para a amiga que parou de responder seus áudios de sete minutos. Não existe licença no trabalho porque aquele grupo inseparável da faculdade hoje mal consegue combinar um café. Ninguém leva lasanha para a sua casa porque você descobriu que virou uma espectadora da vida de alguém que um dia sabia a senha do seu Orkut.

Ninguém têm método, tempo, escuta para a saudade daquela amizade de infância, que viveu com você suas piores dores e melhores momentos e que abandona, sem mais nem menos. Não existe manual para a falta de consideração. Para o vazio que fica quando alguém tão íntimo se vai e não se pode chorar por isso, porque a pessoa ainda está ali. Só não é mais alcançável. 

Talvez porque ninguém admita que amizades também morrem. Nós, millennials, crescemos acreditando que elas eram eternas.

A gente prometeu envelhecer junto enquanto customizava perfil no MSN com música da Pitty e do Legião Urbana, escrevia depoimentos quilométricos no Orkut e passava madrugadas inteiras convencido de que aquela turma seria a mesma aos quarenta. Haveria filhos circulando entre as mesas do bar, rugas novas, joelhos piores, mas nós continuaríamos ali, discutindo política, literatura, amores e o último disco que ninguém mais ouviu inteiro.

Foi uma ingenuidade bonita, já que a vida adulta não mata as amizades de uma vez, mas vai lixando as bordas.

Primeiro, alguém muda de cidade, depois alguém tem filho. Começam a trabalhar na Faria Lima. Alguém descobre que trabalha melhor até dez da noite. Depois alguém entra numa espiral de ansiedade, perde os pais, começa a responder mensagens como quem responde e-mails. Depois vocês passam a dizer "precisamos marcar". 

Depois descobrem que "precisamos marcar" é o latim contemporâneo para "talvez nunca mais". Por fim, a resposta nem chega mais. 

O termo “amizade de baixa manutenção” passa a circular nas redes sociais como quem vende uma paleta mexicana saborosíssima, com gosto de novidade e desobrigação, mas, no fundo, é só um jeito neoliberal de não sentir culpa por abandonar as pessoas. 

Claro que eu me incluo nisso. Sou workaholic - como manda a geração, lógico - e mal consigo dar conta das obrigações diárias, quanto mais de manter contato ao vivo com as pessoas que amo. Mas poxa, custa fazer um esforço? 

E ninguém percebe exatamente quando aconteceu, porque não foi uma tragédia - embora tenha esse sabor.  Foi uma terça-feira, às 14h17, enquanto você pensava "respondo depois". O depois virou dois anos.

Existe um luto muito específico em encontrar uma conversa antiga no WhatsApp: lá estão os planos para viajar juntos, os memes que já não fazem sentido, as fotos borradas de um boteco que fechou. Os áudios intermináveis porque ainda existia tempo para ouvir sete minutos da vida de alguém sem colocar a velocidade em duas vezes.

Hoje a conversa termina numa figurinha - que eu amo e odeio na mesma proporção - nem sempre por falta de carinho. Por excesso de pressa. A gente costuma culpar a política. E ela tem sua parcela de culpa.

Conheço amizades que morreram nas urnas, no impeachment, na pandemia, nas eleições seguintes e em todas as discussões que vieram depois. Mas, pensando bem, talvez elas já estivessem doentes antes. A política apenas revelou a febre.

Outras morreram porque ninguém conseguiu pedir desculpas, porque um comentário atravessou feito faca. Algumas, porque uma das partes preferiu um namoro. Porque um silêncio demorou demais. Porque alguém resolveu competir para ver quem estava mais cansado. Porque um de nós começou a falar apenas dos filhos. Outro, apenas do mercado financeiro. Outro, apenas do burnout. Outro, apenas de si. Até que um dia ninguém mais fazia perguntas. E talvez seja isso.

Talvez amizades não acabem quando falta amor. Elas acabam quando falta curiosidade.

Quando você deixa de perguntar como foi a consulta e já presume a resposta. Quando não quer mais saber do livro que o outro está lendo porque imagina que será "mais um desses". Quando a história deixa de surpreender.

Quando ouvir passa a dar mais trabalho do que concluir. A curiosidade é uma forma de amor. Talvez a mais sofisticada delas. Porque amar alguém por vinte anos é decorar seu pedido no restaurante.

Continuar curioso depois de vinte anos é perguntar quem essa pessoa se tornou enquanto você também mudava. É aceitar que ninguém permanece igual. Nem você. Talvez por isso doa tanto encontrar um amigo antigo. Vocês se abraçam com a intimidade de quem conhece cicatrizes que já nem existem mais. Conversam durante quarenta minutos.

Descobrem que passaram tempo demais atualizando a biografia um do outro e tempo de menos vivendo capítulos juntos.

Há uma estranheza nisso, tal qual visitar a casa onde você cresceu e perceber que o corredor encolheu. Não foi o corredor, foi você.

Às vezes penso que a amizade não morre, ela muda de endereço e esquece de avisar. Outras vezes acho que morre, sim.

E nós insistimos em mantê-la respirando por aparelhos: um coração no story, um parabéns protocolar, uma reação com palmas, um "qualquer dia a gente marca" que ninguém acredita, mas todo mundo assina.

Talvez Freud tivesse razão, o luto realmente é um trabalho. Só que ninguém nos ensinou a fazer o luto das pessoas que continuam vivas.

Seguimos carregando essas amizades como quem leva no bolso a chave de uma casa demolida. Ela ainda abre alguma coisa. Só não existe mais porta.

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