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Ivan Drummond
Repóter de Polícia e Esportes. Participei da cobertura e sete edições dos Jogos Olímpicos, Cobertura Copa do Mundo. Ganhador de dois Prêmios "Esso", em 1985 e 1987. Ganhador Prêmio Nacional Petrobras, com a série de matérias "Hilda Furacão"
HISTÓRIAS DO ESPORTE

Uma história de Oscar e Gersão

Gersão abriu a mochila e retirou um par de tênis pretos de futebol de salão, da marca Pênalti. Oscar quase caiu de costas

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Nos últimos seis anos, o basquete brasileiro perdeu dois grandes jogadores. Coincidentemente, no mês de abril. Primeiro, em 2020, Gersão, que sofria com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica. Este ano foi a vez de Oscar, que faleceu em consequência de uma parada cárdio-respiratória.

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Os dois fizeram história no basquete brasileiro. Juntos, conquistaram a memorável vitória sobre os EUA, em Indianápolis, nos Jogos Pan Americanos de 1997.

Oscar já era famoso quando Gersão começou sua carreira no Ginástico. Mas o primeiro encontro entre eles só se deu em 1981, quando da primeira convocação do mineiro para a Seleção Brasileira, para a disputa do Campeonato Sul-Americano.

Dirigente e ex-treinador do Ginástico, Aloísio Dufles Teixeira, o “Ísio”, que também foi jogador, acompanhou Gersão para sua apresentação. Naquela época, este tipo de ocasião era um espetáculo, realizado em um palco. Um a um os jogadores eram chamados, e subiam para se apresentar. No caso da primeira convocação de Gersão, essa solenidade aconteceu no Clube Pinheiros, em São Paulo.

E houve uma mudança no protocolo. Normalmente, os atletas tinham os nomes anunciados de acordo com o número da camisa, mas naquele ano quebrou-se esse padrão, justamente por causa do mineiro.

Foram chamados Nilo, armador, número 4; Fausto, armador, 5; Carioquinha, armador, 7;Marco Antônio, ala, 8; Marquinhos, pivô, 9; Gílson, pivô, 10; Maury, ala, 11; Adilson, ala/pivô, 12; Marcelo Vido, ala, 13; e Oscar, ala, 14. Somente então o nome de Gersão, pivô, camisa 6, foi anunciado. O motivo ficou claro quando o pivô se levantou da cadeira: sua altura. Parecia que não acabava de subir jogador, afinal de contas, eram 2,10m. E Aí, todo mundo queria tirar foto com ele.

Foi quando Oscar interveio. Se aproximou e tratou de afastar todo mundo. Disse que precisava falar com Gersão. Sua vontade foi respeitada. O veterano chamou o novato e e juntos eles deixaram o ginásio do Pinheiros.

Do lado de fora, Oscar pediu para Gersão abrir a mochila e mostrar-lhe seu tênis, aquele com o qual iria jogar. Veio a surpresa. Gersão abriu a mochila e retirou um par de tênis pretos de futebol de salão, da marca Pênalti.

Oscar quase caiu de costas. “É com isso que você joga?”

Gerasão respondeu que sim e quis saber o motivo da pergunta.

Oscar imediatamente disse ao mineiro que guardasse seu tênis e que os dois iriam até sua casa. Atônito, Gersão ficou calado e acompanhou o maior jogador do basquete brasileiro até o carro que os levou até a casa de Oscar.

Lá chegando, o “Mão Santa” apresentou Gersão a sua família, pelo menos os que estavam lá e se dirigiu ao seu quarto. Abriu o armário e a surpresa de Gersão: havia vários pares de tênis.

Oscar passou a mão num e o entregou a Gersão, mandando que ele experimentasse.

“Coube?”, perguntou. Com a resposta positiva, de Gersão, pegou outra caixa, com outro par. “Pronto. Agora você vai jogar basquete. A primeira coisa que vai fazer quando sair daqui será jogar esse tênis de futebol de salão no lixo”, disse Oscar.

Eram dois pares de tênis importados, da marca Pony.

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Ao retornar ao Ginástico, Gersão contou a história aos colegas e amigos. “Fiquei assustado. Não sabia o que dizer. Só falei obrigado”, explicou. “Aqui, no clube, a gente fica falando desses tênis importados. Quando os calcei para o primeiro treino, quase não saio do banco. Só queria ficar olhando para meus pés e para aquele troféu.”

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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