Sempre achei curioso que, na casa de muita gente, discos e livros dividam a mesma prateleira. Não é coincidência. Os dois são obras que pedem tempo. Um livro organiza um tema em capítulos. Um álbum faz isso em faixas. Os dois defendem uma tese ou registram o retrato de uma época. Em linguagem popular: quando escutamos um álbum inteiro ou lemos um livro, estamos mergulhando num assunto. No caso do artista, é o resumo criativo de um período da sua vida.

Em 1971, Marvin Gaye lançou "What's going on", com o irmão recém-chegado do Vietnã. São nove faixas que se emendam como capítulos de um livro-reportagem. Em 1973, o Pink Floyd lançou "The dark side of the moon", uma tese sobre o tempo, o dinheiro e a loucura.  O  álbum "Clube da Esquina" é o retrato de uma geração que cresceu nas esquinas do meu bairro em Belo Horizonte,  Santa Tereza.

As artes plásticas seguem a mesma lógica. Uma exposição é um álbum pendurado na parede. Entre 1901 e 1904, depois da morte de um amigo, Picasso pintou quase tudo em tons de azul.

Hoje, quase ninguém escuta um álbum do começo ao fim. O mundo digital mudou esta cultura. O algoritmo entrega faixas soltas, como se arrancasse páginas de livros diferentes para montar um caderno de recortes. Também temos preguiça de livros longos. A comunicação de qualquer assunto ficou fragmentada e perdemos a paciência para esperar. Isso mudou a forma como aprendemos. Tudo precisa ser rápido e curto. Ficamos frágeis intelectualmente.

Com a inteligência artificial, a preguiça aumentou. Nunca gostei do estereótipo dos humanos na animação "Wall-E", seres gordos, acomodados em poltronas, sem fazer nada. Mas, quando vejo os algoritmos entregando tudo o que aparentemente gostamos, e as IAs sendo muito  carinhosas conosco, sinto que o nosso futuro não está tão longe daquela nave.

Sei que posso estar misturando assuntos, mas, para mim, é uma sequência. A falta de profundidade, a comunicação em pedacinhos e a preguiça de pensar e agir coletivamente formam um individualismo agressivo. E esse individualismo leva aos extremos de qualquer assunto. Não é por acaso que estamos criando líderes frágeis e egocêntricos. Na minha opinião, é uma situação mundial.

Não sei qual é a solução. Procuro fazer a minha parte e dedicar um pouco do meu tempo a ações sociais na minha área. Escutar um álbum inteiro ou ler um livro longo também é um exercício de paciência e de escuta. Talvez seja um bom começo.

Então fica a pergunta: o que você faz para melhorar o lugar onde vive e as coisas ao seu redor?

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