Todo mangueirense reconhece a importância de Alcione para a escola verde e rosa. Foi a cantora, apelidada de Marrom, quem criou ao lado de Tia Neuma e Tia Zica, lá nos anos 1980, o projeto Mangueira do Amanhã, voltado para as crianças. O que pouca gente sabe é que a bateria da escola atualmente é formada por muitos dos meninos que passaram pelo projeto. Um deles é Mestre Marron, que completa 40 anos na avenida. No último sábado (3/2), enquanto se preparava para subir ao palco no CCBB, na Praça da Liberdade, ele não escondia a emoção ao falar do desfile deste ano, cujo enredo será “A negra voz do amanhã”, homenagem a Alcione. “Vai ser da Marrom para o Marron”, brincou. 

O carnaval de 2024, comparado aos grandes desfiles da Mangueira, terá emoção a mais pelo fato de Alcione ser mentora da escola, acredita Mestre Marron. “Fui um dos primeiros a fazer parte da Mangueira do Amanhã. Hoje, a maioria da bateria vem do projeto, por isso a emoção de todos nós”, contou. Ele será um dos 270 ritmistas que desfilarão no Sambódromo na próxima segunda-feira (12/2). 



A maior torcida

A Mangueira tem a maior torcida do carnaval, garante Mestre Marron. “O mangueirense leva a emoção ao público e contagia”, afirma ele, que desfila desde os 6 anos. Conta que já viu Beija-Flor, Salgueiro, Portela, Mocidade e Imperatriz vencerem na avenida. Mas a emoção maior foi a Mangueira campeã em 1984, com homenagem a Braguinha. “Sempre que a escola está homenageando alguém, ela é candidata ao título. E este ano não será diferente”, aposta.

 

Mestre Marron participou do Projeto Mangueira do Amanhã, criado por Alcione, Tia Zica e Tia Neuma

Tais Stein/divulgação

 


“Emoção indescritível”

A porta-bandeira Lorenna Brito fará seu segundo carnaval na escola – “emoção indescritível”, segundo ela. Em BH, a jovem se apresentou com o mestre-sala Maycon Ferreira. Lorenna destaca não apenas o sentimento na avenida, mas também nos shows, como o realizado em BH. “São pessoas de estados diferentes e de municípios diferentes que se emocionam com a Mangueira. As pessoas choram. Estamos levando arte para elas”, afirma.

 

A porta-bandeira Lorenna Brito e o mestre-sala Maycon Ferreira no CCBB-BH

Tais Stein/divulgação

 

Tarde para Oiticica

A performance da escola fez parte da programação de encerramento da exposição “Helio Oiticica – Delirium Ambulatorium”, que se despede de BH nesta segunda-feira (5/2). O curador Helio dos Anjos destaca a relação de Oiticica (1937-1980) com a Mangueira – o artista plástico começou a frequentar a escola na década de 1960. “Na verdade, ele percebeu que várias coisas que estava tentando fazer e queria fazer tinham a ver com o que já ocorria no morro. Escola de samba é lugar onde a arte se encontra com as coisas do cotidiano, com a rua. Não à toa o Helio Oiticica foi passista da Mangueira e desfilava no carnaval do Rio de Janeiro.” 

Da Mangueira para o mundo

O curador observa que vários trabalhos de Oiticica, como os parangolés e os ambientes “Tropicália” e “Éden”, resultam da vivência do artista junto da escola. “Helio quer transpor para o mundo da arte muito da experiência que teve na Mangueira, principalmente a forma de habitar o mundo, que ele enxergava ali de maneira mais desregulada, sem o controle das normas habituais.” A exposição “Delirium Ambulatorium” pode ser visitada hoje das 10h às 22h, com entrada franca. O CCBB fica na Praça da Liberdade, 450, Funcionários.

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