Por Luciano Alvarenga *

O futebol é uma metáfora da vida, escreveu Rubem Alves. Ele conserva algo de imprevisível, de saboroso e artístico, apesar de tantas coisas que o tem desencantado ao longo dos anos.

O futebol perdeu sua magia, dizia Eduardo Galeano, quando as camisetas dos clubes passaram a estampar marcas comerciais. Hoje, são tantos os anúncios que os próprios símbolos e cores tradicionais das agremiações se perdem em meio às propagandas.

 

 

Até os campeonatos e copas, aliás, têm seus nomes acompanhados por anúncios. “Compre, consuma, aposte!”. Este é o lema de nossos tempos, dos gramados à vida.

Vivemos num mundo em que tudo é passível de redução ao valor econômico. Nem mesmo as serras, estruturas naturais dos mais belos jardins de Minas Gerais, forjadas na paciente cadência da evolução geológica e símbolos primeiros de nossa identidade serrana, escapam dessa lógica.

 

 

Ainda assim, porém, o futebol é capaz de nos surpreender. Quem imaginaria um Lanús, uma modesta “equipe de bairro”, derrotar o Atlético de Lourdes – também um clube de bairro em Belo Horizonte, mas com cofres recheados de grana de banqueiros e de outras fontes – na final de Sul-Americana? Quem imaginaria, alguns meses depois, esse mesmo time argentino destituir a arrogância do todo-poderoso, midiático e populista Flamengo em pleno Maracanã, numa espécie de Maracanazo elevado à décima potência?

E, apesar de tudo, o futebol ainda nos cativa tanto. Demonstrações vivas de resiliência e de amor a um clube, venham elas das arquibancadas, venham elas de jogadores, nutrem e revelam a alma de um futebol raiz. De uma arte-esporte capaz de produzir momentos de desfrute estético e de alegria, apesar de...

Essas demonstrações são ainda mais dignas de nota quando surgem em momentos difíceis e desafiadores. Como torcedores do Cruzeiro, podemos nos lembrar comovidos da última partida da equipe em 2021. Um Cruzeiro x Náutico, no Brasileirão Série B, no qual nenhum título ou classificação estava em jogo. Um Cruzeiro x Náutico, entretanto, em que, com o Mineirão lotado, veio à tona, para aqueles que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir, o mais importante: o amor, o vínculo, o profundo afeto dos torcedores cruzeirenses – a verdadeira alma da Instituição – pelo seu clube.

No futebol, torcer pelo nosso Cruzeiro, com respeito à história do clube e por tudo o que ele simboliza e representa, já é motivo de celebração. Celebramos o vínculo; celebramos a paixão.

Nesse contexto, quando Leonardo Jardim declarou publicamente que, no Brasil, não treinaria nenhum outro clube além do Cruzeiro, a apaixonada torcida Cinco Estrelas passou a vê-lo com um afeto mais que especial.

Essas declarações, somadas aos resultados relativamente positivos, nos gramados, conferiram um raro e rápido reconhecimento da China Azul ao técnico português. Sua imagem de um homem sério, mas simpático, apreciador e cultivador de vinhos e azeites em terras d’além-Mar, cativou inúmeros cruzeirenses.

Escrevo “relativamente”, sim, quanto aos resultados de Jardim, porque, a bem da verdade, ele alcançou no Cruzeiro feitos menos importantes que os de técnicos hoje quase esquecidos, como Pinheiro ou Marco Aurélio. De todo modo, Jardim parecia ser alguém diferente num mundo – o do futebol e, mais além, o da vida – dominado pela moral dos interesses e dos negócios. Um mundo em que tudo e todos têm um preço.

É nesse contexto de afetos mobilizados que a torcida do Cruzeiro recebeu, com espanto e profundo desencantamento, a notícia da contratação de Leonardo Jardim pelo Flamengo. Mais que o descumprimento da palavra dada meses atrás, o gesto agrega mais um dissabor ao banquete de decepções que o mundo do futebol tem oferecido àqueles que resistem apaixonados por ele, como os que, por puro amor e teimosia, estiveram no Mineirão apoiando o Clube Celeste na última partida de 2021.

Tudo o que deveria ser sólido se desfaz no ar, inclusive a palavra. Na manhã de 3 de março de 2026, fomos despertados com uma desilusão. E a desilusão, claro, tem seu lado pedagógico. No futebol, como na vida, tudo e todos têm um preço, inclusive os jardins.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

* Luciano José Alvarenga, professor, pesquisador e assistente jurídico no Ministério Público de Minas Gerais. Apaixonado pelas serras de Minas Gerais e pelo Cruzeiro, escreveu esta crônica a convite do amigo Gustavo Nolasco

 

compartilhe