Rafa Silva é um dos reforços do Cruzeiro para a temporada 2024 identificados com a torcida celeste -  (crédito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press)

Rafa Silva é um dos reforços do Cruzeiro para a temporada 2024 identificados com a torcida celeste

crédito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press

“A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.”


Essa é a abertura de uma crônica escrita, em 1983, pelo maior gênio de outro estilo literário, a poesia. Apesar de não ser um fanático por futebol e apenas simpatizar pelo Vasco da Gama e pelo clube de sua cidade, o Valério, Carlos Drummond de Andrade havia se consternado com o falecimento de Garrincha e, dois dias depois, escreveu o texto intitulado “Mané e o sonho”.


Mais do que falar sobre a vida e morte de um dos mais brilhantes jogadores da história do esporte mundial, essa pérola escrita por Drummond, uma verdadeira confissão de como a paixão pelo futebol, cria uma união inquebrável entre torcedores e seus times do coração. Um amor tão intenso que, sistematicamente, cura qualquer dor vinda de derrotas ou perdas de títulos; que dá aos decepcionados o dom do perdão.


É esse “relevar por amor”, essa aceitação ao “recomeçar” que também podem se resumir em frases botequianas como “ah, o futebol... Essa nossa eterna cachaça. Vai começar tudo de novo!”


O Cruzeiro inicia oficialmente sua temporada 2024 nesta quarta-feira, com a peleja contra o Villa Nova, no velho estadinho Castor Cifuentes, em Nova Lima, cidade que, assim como a Itabira de Drummond e a minha Mariana, tem boa parte da opulência de sua história escrita pela mineração, mas também grande parte de sua estrutura social destruída pela mesma atividade.


Os meses finais da temporada celeste de 2023 foram dolorosos para uns, revoltantes para outros e de cegueira e inércia para os próximos ao poder. Mas todos nós terminamos salvos por um conjunto de fatores internos e externos à administração da SAF Cruzeiro. E na toada do relevar, os sufocos de 2023 já são “cachaças passadas”. Bola para frente! O que realmente importa, agora, é que nós, torcedores de arquibancadas, recebemos a volta do Cruzeiro aos gramados com um sentimento de esperança.


Mas eis que Drummond faz um novo alertar: “O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.”


É preciso que a torcida comece a se acostumar (para não se frustrar) com o estilo dos investidores que adquiriram a nossa SAF. Não esperem deles uma política de contratações que aposte em “Garrinchas” ou mesmo em medalhões capazes de formar e fidelizar novas gerações de torcedores, como fazem alguns outros clubes como Grêmio, Atlético de Lourdes, Bahia e São Paulo.


A montagem do escrete estrelado para 2024 foi bem mais tímida do que se esperava. Novamente, os grandes nomes, como Everton Ribeiro e Douglas Costa, ficaram só nas especulações. Porém, ao contrário da montagem do elenco de 2023, desta vez, não vieram refugos e falsas promessas. Temos sim peças de qualidade já comprovada. Algumas delas, inclusive, já identificadas com a Nação Azul e com o manto sagrado, como Rafa Silva e Lucas “Perro” Romero.


Sendo assim, bem ou mal, aí está o nosso escrete que será responsável por alimentar o nosso sonho de voltarmos a gritar “campeão”. Então, vamos lá! Vai começar tudo de novo; que sirvam as doses de cachaça de 2024. Bora, Cabuloso!