Existe uma confusão que o mercado imobiliário ajudou a construir, e que a sociedade brasileira abraçou sem muito questionar: a ideia de que morar junto é o mesmo que conviver. Que dividir um endereço equivale a compartilhar uma vida. Que um condomínio é uma comunidade.
Não é.
Um condomínio é um contrato. Um conjunto de obrigações e proibições que regula a coexistência de pessoas que, na maior parte dos casos, não teriam escolhido umas às outras se tivessem outra opção. A coesão não vem de afinidade — vem do regimento interno. O que une os moradores não é uma visão de mundo compartilhada, nem laços de confiança construídos ao longo do tempo. É a lista do que não pode: não pode barulho depois das 22h, não pode animal no elevador, não pode churrasco na varanda, não pode estacionar bicicleta na sua própria vaga. É o pior de cada um disputando o poder sobre o que os outros não podem fazer, dando concretude à síndrome do pequeno tirano.
Numa comunidade, a lógica é inversa. O que une as pessoas é o que elas têm em comum — valores, visão de mundo, pertencimento a algo maior do que cada um. A coesão vem da convergência, não da coerção. E dessa convergência nasce algo que nenhum regimento produz: vínculo. A sensação de que há uma rede, que alguém vai notar sua ausência, que você não está inteiramente sozinho no mundo.
O condomínio dispensa tudo isso. Dispensa a cordialidade, porque a portaria filtra quem entra. Dispensa a confiança, porque a câmera registra quem passa. Dispensa o vínculo, porque o síndico resolve — ou tenta resolver — o que a convivência não conseguiu construir.
E o espaço público pagou o preço mais alto por essa confusão.
Durante décadas, a cidade foi o lugar onde a comunidade acontecia. A rua, a praça, o mercado, o bar da esquina — esses eram os espaços onde pessoas diferentes se encontravam, negociavam diferenças, construíam referências comuns. Onde o padeiro conhecia o nome dos filhos do vizinho. Onde a calçada era, ao mesmo tempo, extensão da casa e território coletivo. A cidade compacta, densa, miscigenada era, ela própria, uma máquina de produzir comunidade.
O condomínio fechado destruiu essa máquina — peça por peça, quarteirão por quarteirão. Criou uma geração de pais apavorados e filhos medrosos.
Quando os muros cresceram e os portões se fecharam, o espaço público foi esvaziado. A rua virou corredor de passagem. A praça, lugar de ninguém. O comércio migrou para dentro dos condomínios ou para os shoppings — outros não-lugares cercados de estacionamento e ar-condicionado, onde ninguém mora, ninguém pertence e ninguém se reconhece. A cidade perdeu sua função mais antiga e mais nobre: ser o palco da vida coletiva.
O que sobrou do lado de fora dos muros foi uma cidade sem dono — abandonada pelos que poderiam defendê-la, porque esses já encontraram, dentro do condomínio, um substituto confortável e controlado para tudo que a cidade pública um dia ofereceu.
É um substituto pobre, claro. Playground no lugar de parque. Salão de festas no lugar de praça. Câmeras no lugar de vizinhos. Regimento no lugar de cultura.
Mas é seguro. E no Brasil, segurança virou argumento que encerra qualquer conversa.
O problema é que essa segurança tem um custo invisível e coletivo: a erosão do espaço público como lugar de encontro, de pertencimento e de construção de identidade urbana. Cada condomínio que se fecha retira da cidade um pedaço de vida. Cada muro erguido é uma declaração de desistência — da rua, do vizinho desconhecido, da cidade como projeto compartilhado.
Comunidade não se constrói dentro de muros. Ela se constrói no atrito, no encontro, na negociação cotidiana com a diferença. Ela exige exposição — e a cidade, quando funciona, é o melhor lugar do mundo para isso. O que estamos construindo, em seu lugar, são ilhas. Confortáveis, vigiadas, silenciosas.
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