Obrigado, Cássio, pela inspiração
O número 2 do número 1 foi ato de extrema coragem. Bastava cair no chão e pedir para sair. Uma falsa contusão, um mal-estar que ninguém precisava saber
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Perdão se começo pelo arquifreguês, o Real Madrid do Jardim Leblon, o Bayern do Parque Riachuelo. É que, apesar de passada a semana, ainda me assombra a coragem de seu arqueiro. Não se espera de um guarda-metas o atirar-se destemido de um volante, tampouco o encontro de carcaças cranianas a que se dispõe um xerife na jurisdição de sua zaga. Nada disso, no entanto, nem de perto se compara à valentia daquele que pede para cagar. Diante de milhares de pessoas. Em rede nacional. Há de se frisar, ainda, seu sangue frio: por muito menos, sabemos, o toletão se nega a cruzar a fronteira. No caso de Cássio, deportou-se antes mesmo da chegada do ICE. Jogo rápido. Pimba no gorduchão e segue o jogo.
Nada disso é pouca coisa. Outro dia, numa roda de samba, e portanto observado por diminuto número de testemunhas, imaginei-me a interromper o bumbo com minha sólida e insólita urgência: “Para, para, para! Vou passar o fax, o show não pode continuar”. Mesmo diante de uma única pessoa, é preciso a bravura de um exército. Imagine-se em um encontro do Tinder: “Você me daria licença para um cocô?”
O número 2 do número 1 foi ato de extrema coragem. Bastava cair no chão e pedir para sair. Uma falsa contusão, um mal-estar que ninguém precisava saber decorrente do bolo que faz aniversário todo dia, o bolo fecal. Mas não. O arqueiro preferiu encarar a realidade, mesmo que não tenha sido de frente. Tem ainda a importante vantagem para aquele que segura agora a lanterna: é improvável que cometa novas cagadas.
Além de ser luz para outros que estão adiante. Fosse eu um coach, sugeriria à nossa zagueirada o número da roda de samba. Para, passa o fax e volta, faceiro. Justamente falta a Junior Werley e Werley Tressoldi a coragem do enfrentamento, o destemor diante da possível cagada. Ao contrário do guarda-metas, escondem-se, dão as costas ao problema, disfarçam como se não fosse com eles. Se exercido literalmente, pedir para cagar e sair pode trazê-los de novo ao jogo.
Os atacantes também devem ser levados a alguma dinâmica semelhante. Expor-se ao ridículo do toletão desavergonhado, sentar-se ao trono como se na posse do monarca, tudo isso pode trazer de volta a autoconfiança. Além de sublinhar a importância do esforço individual e da boa mira, de se estar no lugar certo e na hora certa. De fazer bem-feito, com calma mas também com contundência. A sessão de descarrego é capaz de espantar o encosto e trazer de volta o espírito vitorioso do goleador que, pondo pra fora, coloca pra dentro.
Evidentemente que de nada vai adiantar tamanhos esforços sem a chegada de um volante que auxilie nossos Werleys na contenção das duas tartarugas. Não há cocô que resolva a falta de ligação com o ataque, uma cloaca desprovida de intestino. Nesses casos é preciso envolver também proprietários e diretores, que há um ano cagam ao mesmo tempo em que permanecem na moita. Deve ser por isso que se chama a coisa de iniciativa privada.
Vejo com desânimo que fez água a negociação de Júnior Santos. Com a bufunfa daria para trazer uma volância inteira. Mas o negócio emperrou no pagamento dos salários, gasto que o Galo não concordou em entubar. Que cagada! Isso lá é gasto? Isso é investimento! Por outro lado, meu apreço pelo Bahia estava a me deixar incomodado com a desova do peso morto. Fora que jamais deveríamos incentivar a Desunião Sinistra. Vende pro inimigo, pô.
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“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Obrigado, Cássio, pela inspiração.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
