A educação se destina à humanização. A escola, para testar e selecionar. São duas coisas que se relacionam, mas com naturezas um pouco distintas. Cada vez acredito mais na educação. Cada vez menos na escola.
Como instituição disciplinar, criada na modernidade para oferecer mão de obra ao mercado industrial, ela se especializou em transformar qualquer diferença em desvio a ser corrigido.
Descobriu-se, enfim, uma maneira extraordinariamente eficiente de medir aquilo que, por natureza, não cabe em régua alguma: a diversidade humana. Uma espécie de Darwinismo Escolar: sobrevivem melhor aqueles que aprendem mais rapidamente as regras do ambiente.
Beirando à pseudociência, criamos um raciocínio circular: premiamos quem melhor se adapta ao sistema e depois usamos seu desempenho como prova de que o sistema é justo. Felizes os que não sofrem com as regras do jogo, eles herdarão o Reino do Conselho de Classe!
Quem lê no ritmo esperado, escreve com pega perfeita, senta quando deve sentar, responde quando perguntado e demonstra o tipo certo de inteligência costuma ser reconhecido como “bom aluno”. Os demais precisam ser corrigidos, recuperados, adaptados. Quase nunca nos perguntamos se o problema está no aluno ou na régua utilizada para medi-lo.
Educação e conhecimentos são coisas estimulantes. A escola, por sua vez, é sempre chata. Isso porque ela mata a diversidade, o diverso e, portanto, a fonte de toda a diversão.
Uma instituição criada para educar seres humanos mas que desconfia da criatividade que constitui a própria humanidade. Entre uma pergunta e outra, a escola realiza seu pequeno milagre civilizatório: substitui o espanto pela rotina.
Não é que a escola não ensine. Ensina muito. Ensina horários, filas, silêncios, hierarquias, competição, submissão, comparação e, sobretudo, a sofisticada arte de parecer interessado naquilo que não se compreende para não ser punido por não compreender. É uma pedagogia da conformidade, confirmando o absurdo quase perfeito.
Mas a educação acontece apesar da escola. Acontece numa conversa que desloca uma certeza, num livro que desorganiza uma convicção, numa criança que descobre que não precisa pensar como todo mundo para continuar pertencendo ao mundo.
Com algum tempo de sala de aula, aprendemos que educar significa produzir pequenas desobediências intelectuais. E que o pensar só é legítimo mesmo quando surge sem autorização.
Mas as escola continuará levantando barricadas moralistas para salvar o ignorante com todo seu ressentimento pedagógico, como uma máquina que se especializou em produzir analfabetos de si mesmos.
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Talvez por isso eu acredite cada vez mais na educação e cada vez menos na escola. Não porque ela seja inútil, mas porque é pequena demais para aquilo que pretende representar.
