O psicanalista Christian Dunker, professor do Departamento de Psicologia da USP, certa vez disse que “Freud morreu, mas passa bem”. Ele refletia sobre os ataques que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, continua recebendo até hoje — e, ao mesmo tempo, sobre a força duradoura de sua teoria do inconsciente. Descaradamente, parafraseio: Habermas morreu, mas passa bem.
Perdemos um dos maiores filósofos contemporâneos. Mas sua teoria continua viva e significativa, oferecendo pistas sobre os caminhos do humano e sobre a importância de uma democracia cada vez mais participativa. Jürgen Habermas foi um pensador que nunca abandonou a aposta na razão — não uma razão fria ou autoritária, mas uma razão que se constrói na conversa entre pessoas.
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Se a ética discursiva nos ensina algo, é que a legitimidade das palavras não depende apenas de sua forma ou de sua eficiência, mas das condições em que são produzidas e discutidas. Uma sociedade democrática precisa garantir que as vozes possam se confrontar em condições minimamente justas, onde argumentos valham mais que ruídos.
Herdeiro intelectual da Escola de Frankfurt, Habermas seguiu por um caminho curioso dentro da tradição crítica: manteve o diagnóstico das distorções da modernidade, mas recusou o pessimismo absoluto. Em vez de ver a razão apenas como instrumento de dominação, propôs enxergá-la também em sua dimensão comunicativa. Para ele, é no diálogo que se abre a possibilidade de entendimento entre indivíduos e de construção legítima da vida política.
Ao longo da história do pensamento, a ética foi frequentemente pensada a partir de princípios universais previamente estabelecidos — mandamentos, leis naturais ou imperativos racionais. Habermas propôs uma mudança importante nesse horizonte. Em vez de buscar normas prontas, ele sugeriu que os valores devem surgir da própria prática do diálogo.
Segundo essa perspectiva, uma norma só pode ser considerada justa quando pode ser aceita por todos os envolvidos em condições adequadas de discussão. Isso implica algumas regras fundamentais do discurso: todos devem ter a oportunidade de falar e de questionar; os argumentos precisam ser apresentados publicamente e podem ser criticados; e, acima de tudo, ninguém deve ser coagido — nem pela força, nem pela manipulação, nem pela exclusão silenciosa.
É uma proposta exigente. Mas também profundamente democrática. A legitimidade moral não nasce da autoridade de quem fala, e sim da qualidade do processo de argumentação entre iguais. Lógico que alguns pensarão em uma utopia, porém ele está mais preocupado com a forma do que com o conteúdo. Ou seja, ele aponta para um horizonte no qual podemos nos orientar, e não necessariamente para uma cartilha de regras que utilizaremos para discursar.
A ética discursiva nos lembra que a palavra não é apenas um instrumento, mas um espaço de responsabilidade compartilhada. Cada argumento pressupõe um interlocutor. Cada afirmação pede justificativa. E cada debate carrega a possibilidade — ainda que frágil — de produzir entendimento.
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Talvez por isso possamos dizer, sem exagero, que Habermas continua passando bem. Não apenas porque seus livros ainda são lidos nas universidades, mas porque a pergunta que atravessa sua obra permanece aberta: como podemos conversar de modo que a vida em comum seja possível?
