Certa vez vi uma entrevista de Antônio Cândido, um dos maiores críticos literários do Brasil, em que ele cita uma conversa com Guimarães Rosa. Intrigado a respeito do posicionamento político do autor de “Grande sertão: veredas”, ele perguntou, em Gênova, se Rosa se identificava com a esquerda ou a direita, apesar de a questão ideológica nunca ter pesado entre os dois. Segundo ele, Rosa teria dito que achava que todos deveriam ter o direito à igualdade, que esse seria, talvez, o destino da humanidade. Porém, essa não era uma questão fundamental. Essencial mesmo, para o homem, seria saber se Deus existe ou não.
Sem dúvida, um grande ser humano em busca de uma grande questão. Não que as outras sejam de todo irrelevantes. Porém, acabam ficando pequenas diante dos grandes problemas metafísicos, existenciais, fundamentais. Quando perdemos essa dimensão, apequenamos a existência humana, seja ela coletiva ou individual.
Se formos medir o homem contemporâneo pelo tamanho de suas questões, encontraremos a futilidade dos problemas mesquinhos. Das filas de lançamento de smartphones às discussões sobre como performar no trabalho, estamos afundando na lama de uma vida torpe, sem nenhum tipo de elegância existencial. Aliás, com o fim da privacidade — conquista burguesa que nos dá o direito de construirmos nossos próprios intervalos — somos invadidos por imagens, sons e WhatsApps da empresa que nos recolocam na condição de um rebanho miserável, sem qualquer pergunta norteadora.
Na certa, os gregos nem ririam de nós, pois não valeríamos uma comédia. Eles, sim, inventores do teatro, desejavam retirar o ser humano de sua condição efêmera e entregá-lo às grandes questões que instigam nossa caminhada claudicante: o destino na tragédia de Édipo, as leis em “Antígona” ou até mesmo as prescrições de Epicuro. Toda uma cultura envolvida naquilo que realmente vale a pena. Parafraseando Guimarães, os antigos estavam em busca do essencial: saber se existe um sentido transcendente para a vida, ou não.
Assim como cada povo tem o governo que merece, cada geração ou civilização é do tamanho das questões que tenta resolver. A nossa parece que preferiu se acostumar à busca tacanha por novos aplicativos, likes e pequenos triunfos plastificados que envelopam o corpo daqueles que transformam angústia em intervenções estéticas.
Nunca se falou tanto, e nunca se perguntou tão mal. A dúvida, que antes era um motor trágico da consciência, virou defeito de caráter; pensar demais “cansa”, questionar “não agrega”, e a metafísica não dá retorno financeiro. O homem contemporâneo, longe da incômoda pergunta se Deus existe, tem a fé fundamentalista de que o algoritmo o favorece. Criamos uma civilização que exige opinião sobre tudo e reflexão sobre nada. Hamlet hoje seria diagnosticado com ansiedade generalizada e aconselhado a “focar no presente”.
Para ser honesto, fizemos do escritório o novo altar, e o deus que adoramos atende pelo nome de “carreira”, uma entidade abstrata, ciumenta e insaciável, exigindo sacrifícios diários. Trabalha-se não para viver melhor, mas para justificar a própria presença no mundo, como se o valor de um ser humano pudesse ser medido por agendas lotadas, empobrecemos até o tempo. Esse tipo de gente deve ser mesmo rica, pois dispensa o tempo vital — um artigo de luxo que jogam fora. E assim seguimos, orgulhosos de nossas carreiras impecavelmente vazias, acreditando que subir degraus resolve o fato incômodo de que a escada, talvez, esteja encostada no nada.
A elegância existencial de uma sociedade não tem nada a ver com sucesso, reputação ou cirurgia plástica; ela nasce da capacidade rara de habitar o tempo sem desespero, sustentando o silêncio sem culpa diante das grandes questões. É uma forma de dignidade interior que sabe esperar, que aceita a complexidade do mundo sem reduzi-la a tutoriais. Perdemos essa elegância quando transformamos cada pensamento em produto compartilhável. Tornamo-nos ansiosos demais para contemplar, ruidosos demais para compreender e pragmáticos demais para suportar o mistério. No afã de parecer relevantes, esquecemos o essencial: a elegância da existência está menos em vencer o tempo do que em saber atravessá-lo sem vulgarizar a própria alma.
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Talvez sejamos mesmo do tamanho de nossas questões — e isso explica muito. Reduzimos o mundo para que ele coubesse na palma da mão e, depois, nos espantamos com a falta de grandeza. Não é que as grandes perguntas tenham desaparecido; nós é que já não temos estatura para sustentá-las. Preferimos o conforto da irrelevância à vertigem do sentido. Afinal, perguntar se Deus existe pode nos obrigar a mudar de vida. Já atualizar o aplicativo só exige um clique — e nenhum tipo de coragem metafísica.
