A última vez que vi Cidinha da Silva foi na cerimônia de posse da Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras, em novembro. Conto isso porque acho simbólico, muito chique e também porque, puxando pela memória, não consigo dizer exatamente quando a vi pela primeira vez. Mas sei dizer outras coisas. Sei que já fui aluna em uma das muitas formações literárias que ela realizou no Tambor Mineiro; que tenho quase todos os seus livros autografados; que a recebi na minha (saudosa) livraria Bantu para lançamento de obra; que já mediei mesa de feira literária em que ela era convidada e, sobretudo, que aprendi com ela muito da minha leitura crítica do mundo.
- O capitão do mato aplaudiria Beatriz Bueno, de pé
- Se Vini Jr. fosse branco, essa conversa nem existiria
É uma alegria imensa acompanhar uma escrita tão afiada, inteligente, generosa e necessária. Tenho orgulho de ser conterrânea de uma mulher tão fundamental para a cultura brasileira, especialmente para a literatura. Por isso, quero apresentar Cidinha para quem ainda não a conhece e celebrar para quem já conhece. Vamos lá:
Cidinha da Silva é escritora e ensaísta mineira, dona de uma obra marcada pela escuta atenta das experiências negras no Brasil, pelo humor preciso e por uma escrita que mistura literatura, política e afeto com muita naturalidade. Atua sobretudo na prosa curta, na crônica e no ensaio, transitando entre ficção, memória e intervenção social.
Com uma trajetória ligada ao movimento negro, à gestão pública e à formação acadêmica, construiu uma produção que enfrenta desigualdades raciais, de gênero e de classe sem perder a delicadeza, a ironia e o prazer da leitura. Seus textos colocam as mulheres negras no centro, como produtoras de pensamento, cultura e futuro.
Entre seus livros estão Cada tridente em seu lugar, Um Exu em Nova York, Racismo no Brasil e afetos correlatos e o recente Só bato em cachorro grande. Cidinha é hoje uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea e também uma das mais instigantes.
A negona é peso pesado. Quem chega nela, seja pelos livros, pelos textos na imprensa ou pelas redes sociais, sai diferente: provocado a pensar, rir, discordar, concordar, mas nunca a ficar no lugar comum. Cidinha é uma mulher poderosa que vai lá aprende e volta para ensinar quem está disposta a aprender. Agora, vamos ao nosso bate-papo, em que Cidinha fala um pouco sobre sua trajetória e sua escrita.
EM - Conheci seus livros na Mazza edições uma editora fundada por uma mulher preta e seu último livro também é fruto de um encontro seu com outra mulher preta a grandiosa Sueli Carneiro. Gostaria que me falasse sobre como esses encontros com nossas mais velhas atravessaram a sua trajetória até se tornar essa Cidinha da Silva que lemos hoje.
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CS - Integramos uma cultura na qual as pessoas mais velhas são muito importantes, são faróis de sabedoria e preparam o solo para a gente pisar. Não é à toa que este livro é dedicado a algumas delas como Luisa Bairros, tão importante em minha vida como Sueli Carneiro e Denise Ferreira da Silva e Isildinha Baptista Nogueira que ainda não conheço pessoalmente, mas conheço o pensamento delas que criou lugar de existência para a minha geração e pessoas ainda mais novas.
EM - Realmente é nítido que sua escrita nasce da vida vivida. Que lembrança, gesto ou palavra da sua infância ainda pulsa como força fundadora do que você escreve hoje?
CS- A liberdade de sonhar e vontade e espírito de luta para realizar esses sonhos.
EM - Ser mulher negra escrevendo no Brasil exige não só talento, mas fôlego. O que, ao longo da sua trajetória, te sustentou quando o mundo parecia estreito demais?
CS A crença em mim mesma e nas ferramentas de transformação que minha cabeça, mãos, pés e ideias poderiam construir e construíram.
EM- Sua relação com Sueli Carneiro é também uma história de amizade, formação e partilha. Que ensinamento dela você carrega não como conceito, mas como prática cotidiana de existência?
CS - Olha, a lição 29 do livro SÓ BATO EM CACHORRO GRANDE, DO MEU TAMANHO OU MAIOR – 81 Lições do Método Sueli Carneiro, que propõe: “Não alimente ilusões”, é a coisa mais importante da minha vida, foi o aprendizado mais transformador, ou seja, a busca de entender a vida em estado bruto, sem cortinas de fumaça, sem romantismo e emocionalismo barato. Não alimentar ilusões significa compreender a mutabilidade do racismo para garantir a presença dos de sempre no poder e, ao mesmo tempo, criar condições para driblar isso.
EM - Sua literatura é muitas vezes firme, mas também profundamente cuidadosa com suas personagens e leitoras. Para quem, no fundo, você escreve quando escreve?
CS - Escrevo para mim mesma. Escrevo para a leitora exigente que sou. Dou forma àquilo que gosto de ler.
EM - Esse livro tem humor, coragem e indignação, mas também ternura. Em que medida ele é um gesto de defesa, e em que medida é um gesto de amor?
CS - Não penso no Cachorro Grande como um livro que se defenda de alguma coisa, talvez ele defenda algo, a saber, o legado de Sueli Carneiro em movimento, dinâmico, vivo. Entendo-o como uma declaração pública de amor a Sueli Carneiro.
EM - Quando você pensa nas mulheres negras que estão começando a escrever agora, o que você deseja que elas encontrem na sua obra: permissão, companhia, coragem, ou tudo isso junto?
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CS - Desejo que encontrem e reconheçam o trabalho, o labor da escrita, e se isso puder ser útil para elas de alguma forma, terá valido a pena a dedicação incessante na construção de um caminho na literatura brasileira.
