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Por Alexia Diniz
Quanto da sua renda está comprometida com parcelas de empréstimo, cartão de crédito ou financiamento? Se a resposta for "não sei ao certo", você não está sozinho. Um relatório recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o sistema financeiro brasileiro trouxe um número que ajuda a dimensionar o problema: em média, 28,2% da renda disponível da população já é destinada ao pagamento de dívidas. E é justamente esse dado que embasa uma das recomendações mais discutidas do documento, a criação de um teto para o comprometimento de renda das famílias brasileiras.
Nova proposta do FMI
A recomendação faz parte do Programa de Avaliação do Sistema Financeiro (FSAP, na sigla em inglês), uma revisão periódica em que o Fundo analisa a solidez do sistema financeiro dos países-membros. No caso do Brasil, divulgado em julho de 2026, o FMI sugere que as autoridades adotem um limite máximo para o quanto da renda de uma pessoa pode ser comprometido com o serviço de dívidas, incluindo o pagamento de juros e do valor principal.
A lógica por trás da proposta é evitar que o país repita, em menor escala, o tipo de problema que já levou muita gente ao superendividamento: pessoas que acumulam empréstimo consignado, limite do cheque especial e rotativo do cartão de crédito ao mesmo tempo, até chegar a um ponto em que praticamente toda a renda do mês já nasce comprometida antes mesmo de cair na conta.
O FMI também recomenda reforçar a proteção ao consumidor contra o que o próprio relatório chama de assédio predatório de instituições financeiras na oferta de crédito. Uma das sugestões específicas é limitar o número de vezes que uma pessoa pode renovar um empréstimo consignado, prática comum entre aposentados do INSS e servidores públicos, que costuma prender o cliente numa dívida "rolada" por anos, mesmo sendo uma das linhas de crédito mais baratas do mercado.
Porque a renda comprometida preocupa o governo?
O comprometimento da renda das famílias não é só uma questão de estatística. Segundo o relatório, o peso crescente do pagamento de principal e juros no orçamento das famílias reduz a sensação de bem-estar da população e chega a afetar a popularidade do próprio governo. Não é à toa que o tema já motivou o lançamento de dois programas de refinanciamento com condições especiais, batizados de "Desenrola", voltados justamente para famílias endividadas.
O problema, segundo especialistas ouvidos pela imprensa, é que programas de renegociação como esse resolvem o sintoma, mas não necessariamente evitam que a mesma família volte a se enrolar mais adiante. É por isso que o FMI defende uma ferramenta preventiva: em vez de socorrer quem já está afogado em dívidas, criar uma trava que impeça o banco de emprestar além do que a renda da pessoa suporta pagar.
Vale lembrar que já existem parâmetros informais usados por órgãos de defesa do consumidor para identificar um comprometimento perigoso. O Procon costuma recomendar que ninguém comprometa mais de 33% da renda com o pagamento de dívidas, mas na prática muitos consumidores batem à porta do órgão já com 70% ou 80% da renda tomada por parcelas, geralmente por terem contratado vários tipos de crédito ao mesmo tempo.
Teto de 40% na concessão de crédito
Para dar concretude à recomendação, os técnicos do FMI simularam o efeito de um teto de 40% de comprometimento de renda (excluindo financiamentos imobiliários) sobre o volume de crédito concedido em 2025. O resultado: as famílias brasileiras teriam contratado R$250,6 bilhões a menos em empréstimos naquele ano, uma queda de 5,6% no total emprestado.
O setor mais afetado seria o financiamento de veículos, com recuo estimado de 22,6% na concessão de crédito. Em seguida viria o crédito pessoal não consignado, com queda de 18,7%, e o crédito consignado, com redução de 8,1%. Os números ajudam a entender por que a medida é controversa: ao mesmo tempo em que protege famílias de se endividarem além da conta, ela também reduz o acesso ao crédito para quem, mesmo com renda mais apertada, às vezes depende dele para lidar com emergências ou reorganizar dívidas mais caras através de uma renegociação.
Como será feita a limitação do crédito?
A ideia de limitar o comprometimento de renda não é nova na cartilha do Fundo. Ela faz parte de um conjunto de ferramentas chamadas macroprudenciais, recomendadas pelo FMI desde 2012, no rescaldo da crise financeira mundial que começou nos Estados Unidos, no mercado de financiamento imobiliário de alto risco. Outro exemplo desse tipo de ferramenta é exigir capital extra dos bancos quando eles fazem operações mais arriscadas ou concentram demais a carteira em um único perfil de tomador.
A lógica das medidas macroprudenciais é simples de entender, em períodos de juros baixos e otimismo com a economia, os bancos tendem a expandir demais suas carteiras de crédito, muitas vezes oferecendo condições que parecem vantajosas no momento da contratação. O problema aparece depois, quando o ciclo vira. Se a taxa contratada for flutuante, ou se for preciso rolar a dívida, os juros podem subir com força e transformar uma parcela que cabia no orçamento em um peso insustentável, engatilhando ondas de inadimplência que afetam não só as famílias, mas a saúde do próprio sistema bancário.
Regras para a concessão de crédito
Além do teto de renda, o FMI recomenda o aprofundamento das práticas de oferta responsável de crédito pelas instituições financeiras. O relatório reconhece que a legislação brasileira já prevê, em termos gerais, a avaliação da capacidade de pagamento e da adequação do crédito ao perfil do cliente, mas defende que esses princípios precisam ganhar mais detalhamento, com regras robustas de concessão responsável e expectativas claras de supervisão por parte dos reguladores.
Entre os aperfeiçoamentos sugeridos está justamente a restrição ao número de renovações de empréstimos consignados, hoje um dos produtos mais usados (e, segundo o FMI, mais explorados comercialmente) entre aposentados e pensionistas. O Fundo também recomenda que os reguladores monitorem de perto as práticas de marketing das instituições financeiras e reforcem as regras de divulgação de informações e transparência na oferta de crédito.
Conclusão: o que isso significa para quem já está endividado
Vale reforçar que essas são recomendações, não regras em vigor. Cabe ao Banco Central e ao governo brasileiro decidir se, quando e como vão incorporar essas sugestões à regulação do sistema financeiro. Mas o relatório do FMI serve como um retrato preciso do momento: o brasileiro médio está gastando quase um terço da renda só para pagar dívidas antigas, e isso deixa cada vez menos espaço no orçamento para lidar com imprevistos.
Se esse cenário soa familiar, o primeiro passo não precisa esperar por nenhuma mudança regulatória. Vale calcular quanto da sua renda está de fato comprometida hoje com parcelas, entender quais dívidas têm juros mais altos e quais valeria a pena renegociar primeiro. Ferramentas como o Cadastro Positivo, simuladores de empréstimo e até mesmo uma conversa direta com a instituição credora costumam abrir portas para condições melhores do que muita gente imagina, especialmente para quem ainda não chegou ao ponto de inadimplência.
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De todo modo, a proposta do FMI reforça um ponto que vale para qualquer orçamento doméstico, exista ou não um teto regulatório, a dívida que cabe no bolso de hoje pode não caber no bolso de amanhã, principalmente se depender de juros que sobem com o tempo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
