Educando Seu Bolso
Educando Seu Bolso
Dicas de especialistas e informações sobre finanças pessoais, investimentos e economia para ajudar você a gerir melhor seu dinheiro.

Pedi pra uma IA montar minha carteira de investimentos

Testamos como é pedir uma carteira de investimentos para uma IA e mostramos o que especialistas dizem sobre confiar (ou não) no robô.

Publicidade

Mais lidas

Por Alexia Diniz

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Enquanto boa parte do Brasil ainda decide entre poupança e Tesouro Selic, um grupo cada vez maior de investidores já chama a IA para tomar café da manhã com o próprio extrato bancário. E não é força de expressão: hoje, 9% dos investidores brasileiros recorrem à inteligência artificial para buscar informações e tomar decisões financeiras. O número parece pequeno, mas já é maior do que o uso de Facebook, TikTok, rádio e e-mail juntos para esse fim.

Resolvi testar na prática. Sim, fui lá e pedi para uma IA montar uma carteira de ações para mim. Spoiler: ela respondeu mais rápido do que qualquer gerente de banco jamais respondeu um WhatsApp meu.

Melhor IA para investimentos: existe uma "campeã"?

Não existe uma IA oficialmente coroada "a melhor para investir", mas existe uma que está sendo bastante usada com esse propósito: o Claude, da Anthropic. E foi justamente ela que usei no teste.

Pedi para montar uma carteira de ações focada em dividendos, pensando na aposentadoria, com aporte mensal de R$200. Em menos de dois minutos (menos tempo do que eu levo para decidir o que pedir no delivery), recebi uma resposta com cinco ações de setores diferentes, todas com retorno em dividendos (o famoso dividend yield) entre 9% e 14% ao ano.

E o claudinho (apelido carinhoso do Claude) montou uma simulação de como meu patrimônio evoluiria ao longo de décadas com esse aporte mensal, e ainda deixou um aviso educado, de que dividendos não são garantidos e que aquilo tudo não substitui um profissional certificado pela CVM.

Ou seja, a IA foi rápida, organizada, e ainda teve a educação de dizer "procure um especialista humano", o que já é mais do que muito influenciador de finanças nas redes sociais costuma fazer.

IA que investe sozinha: isso já é realidade?

Calma lá. Uma coisa é a IA sugerir uma carteira. Outra, bem diferente, é ela decidir e executar as compras sozinha, sem ninguém no controle.

Hoje, o uso mais comum é como apoio à decisão, não como piloto automático. A pesquisa Raio-X do Investidor Brasileiro, feita pela Anbima, mostra um perfil bem específico de quem já usa IA para investir: 67% são homens, 49% são da Geração Z e 58% pertencem às classes A e B. Ou seja, o público típico é jovem, com bom poder aquisitivo, e provavelmente já nasceu perguntando coisas para assistente de voz.

Esse grupo também investe de forma mais estruturada: 77% já têm carteira diversificada, e apenas 23% ainda estão na boa e velha poupança. Além disso, 88% pretendem investir ainda este ano, um número bem acima da média geral dos investidores brasileiros.

IA Trader: dá para confiar o dinheiro numa máquina?

A IA é ótima para processar volume gigante de dados e encontrar padrões que um ser humano levaria semanas para perceber. O problema é justamente quando a decisão pede mais do que dados frios.

A IA costuma ser excelente processando informação, mas vira uma conselheira bem ruim em momentos de estresse do mercado. Quando o investidor está com medo e a decisão pesa emocionalmente, é o profissional de carne e osso que faz a diferença.

Faz sentido. Imagine perguntar para uma IA "devo vender tudo em pânico?" no meio de uma crise financeira. Ela pode até te dar uma resposta técnica impecável, mas não vai te abraçar, não vai lembrar que você tem duas filhas na faculdade, nem vai dizer "respira, vamos com calma" do jeito que um consultor de confiança diria.

Como usar IA para investir na bolsa de valores?

O ponto não é banir a IA da vida financeira. É saber onde ela ajuda e onde ela não deveria decidir sozinha. Alguns exemplos mostram isso bem.

A Letícia Fiorin, criadora de conteúdo especializada em marketing de luxo, que por sinal tem como sogro um investidor bilionário conhecido no mercado (Luiz Barsi), usa a IA antes de conversas familiares sobre finanças. A ideia não é substituir a conversa, mas chegar nela com perguntas mais afiadas, em vez de aparecer sem repertório nenhum.

Um amigo próximo meu, contador e advogado, usa a versão paga da IA para analisar fundos imobiliários à distância. Já um colega de faculdade, mostra a IA sendo usada para organizar um diagnóstico completo de doze ativos diferentes, cruzando relatórios trimestrais e dados macroeconômicos, tarefa que manualmente tomaria um tempo enorme.

Ou seja, o uso mais inteligente da IA não é perguntar "compro ou vendo?" e obedecer cegamente. É usar a IA para organizar, comparar e entender, deixando a decisão final para depois de pensar com a própria cabeça (ou com ajuda de um profissional regulado).

ETF de IA: vale a pena investir na própria inteligência artificial?

Enquanto uns usam IA para escolher investimentos, outros preferem investir diretamente nas empresas de IA, seja via ações, seja por ETFs (fundos que reúnem várias empresas do setor de uma vez). Isso é um tema à parte, mas mostra como a inteligência artificial virou dois produtos ao mesmo tempo: ferramenta e também objeto de investimento.

Montando uma carteira na IA

Para não ficar só no "confia em mim, funciona", resolvi mostrar o caminho que segui de verdade. Foi mais simples do que abrir conta em corretora, e olha que isso já é dizer bastante.

Passo 1: dei contexto antes de pedir qualquer sugestão

Antes de sair pedindo ação, expliquei para a IA quem eu era dentro daquela conversa: quanto eu poderia investir por mês (R$200), qual era meu objetivo (aposentadoria) e qual era meu horizonte de tempo (longo prazo, décadas pela frente). Sem esse contexto, a resposta vem genérica, tipo aquele conselho de "compre um pouco de tudo" que qualquer um dá de graça.

Passo 2: pedi um objetivo específico, não "me dê dicas de investimento"

Em vez de perguntar algo vago como "quais ações eu compro", pedi algo pontual: uma carteira focada em dividendos, pensada para gerar renda passiva no futuro. Quanto mais afiado o pedido, mais útil a resposta. É tipo pedir "risoto de limão siciliano" no restaurante em vez de "me traz uma comida aí".

Passo 3: recebi a sugestão, mas tratei como rascunho, não como ordem de compra

A IA devolveu cinco ações de setores diferentes, com percentual sugerido de alocação e a faixa de retorno em dividendos esperada. Até aqui, ótimo. Mas guardei aquilo mentalmente na gaveta de "primeira versão", não na de "pode confirmar a corretagem".

Passo 4: usei a simulação de longo prazo só para entender a lógica, não como promessa

A IA rodou uma projeção de como meu patrimônio cresceria ao longo dos anos, reinvestindo os dividendos. É um exercício útil para visualizar o efeito dos juros compostos, mas não é uma bola de cristal. Mercado nenhum se comporta em linha reta por décadas, e a própria IA fez questão de lembrar isso.

Passo 5: fui atrás do que a IA não perguntou

Aqui está o pulo do gato. A carteira sugerida não sabia se eu tinha dívida no cartão, se minha reserva de emergência estava zerada, se meu emprego era estável, ou se eu tinha outro objetivo (tipo dar entrada num apartamento) disputando o mesmo dinheirinho do mês. Isso a IA não pergunta sozinha, a não ser que eu conte. E mesmo contando, ela não sente o peso emocional que cada uma dessas respostas tem na minha vida.

Passo 6: cruzei a sugestão com uma segunda fonte

Não usei a resposta da IA como veredito final. Comparei com informações de outras fontes, olhei um pouco do histórico das empresas sugeridas e chequei se fazia sentido dentro do que eu já sabia sobre meu próprio perfil de risco.

Passo 7: guardei a decisão final para mim, não para o robô

No fim, a IA funcionou como uma ótima primeira rodada de pesquisa: rápida, organizada, sem julgamento e sem tentar me vender produto nenhum. Mas a decisão de apertar o botão de compra, e de encaixar isso dentro do resto do meu orçamento, continuou sendo minha.

De onde vem as informações da IA?

Vale lembrar que esse cuidado extra faz sentido, boa parte do conteúdo sobre investimentos que existe por aí foi originalmente produzido por bancos e corretoras, que muitas vezes têm interesse comercial no assunto, e a IA aprende justamente com esse material, podendo repetir esse mesmo viés sem avisar. Além disso, por mais personalizada que a resposta pareça, nenhuma IA conhece de verdade o contexto emocional, familiar ou patrimonial de quem está perguntando. Isso só quem senta na sua mesa, ou entende a sua história de perto, consegue captar.

Conclusão: a IA é uma ótima assessora, só não pode ser a única voz na sala

O balanço geral é bem parecido com o de qualquer ferramenta: usada com critério, ajuda muito. Usada sem nenhum filtro, pode custar caro.

A IA acelera pesquisa, organiza informação, resume relatório chato, sugere pontos de atenção e chega antes de qualquer humano com a resposta pronta. O que ela ainda não faz, e talvez nunca faça completamente, é substituir o julgamento humano em decisões que envolvem medo, ansiedade, histórico de vida e prioridades pessoais.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Se antes o maior risco de quem investiu sozinho era seguir as dicas do grupo de WhatsApp, agora o desafio é diferente: usar a inteligência artificial como uma aliada que ajuda a pensar melhor, sem terceirizar para ela a responsabilidade de decidir. No fim das contas, carteira boa de verdade é aquela que combina tecnologia, informação de qualidade e, sempre que possível, uma conversa com quem realmente entende do assunto.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay