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Por Isabel Gonçalves
O brasileiro ama parcelar compras. A diferença é que, cada vez mais, o crédito está deixando de ser usado só para comprar bens maiores e chegando às contas essenciais. Hoje, já tem gente dividindo no cartão gastos como supermercado, conta de luz, gasolina e até a fatura.
Quando despesas básicas começam a depender de crédito para caber na renda, significa que o parcelar ficou automático demais. E, quando você para e percebe quanto da sua renda já está comprometida nos meses seguintes, é que bate o desespero. Saiba como identificar quando vale a pena parcelar ou não.
Como não se afundar nas dívidas
Vamos direto ao ponto. Para te ajudar, temos um exemplo real de como o parcelamento pode virar uma bola de neve. Conheça a fatura da Júnia.
Ainda em dezembro, com as festas de Natal e Ano Novo, ela gastou no cartão e parcelou, pensando que seriam poucas parcelas em um valor baixo. O ano virou, a vida aconteceu e ela teve que gastar com o pagamento anual do seguro do veículo, compras do supermercado e, em um momento de impulsividade, esvaziou o carrinho da Shopee.
A fatura final foi de apenas R$ 721. “Dá para pagar”, ela pensou. O limite utilizado pelos parcelamentos foi de R$ 3.156.
Em fevereiro, Júnia teve que gastar com o filho. Material escolar, uniforme. Além disso, ela resolveu tirar a promessa do papel e assinou academia. Acontece que os gastos pesaram, e a Júnia fez um Pix parcelado para pagar a fatura.
Março veio acompanhado daqueles gastos que nunca pedem licença. O celular da Júnia queimou de vez e ela teve que trocar às pressas. Como acontece com muita gente, entrou no parcelamento: 9 vezes no cartão. No mesmo mês, assinou a Netflix que o filho vinha pedindo há tempos e ainda comprou uma camisa de time para presentear o marido no aniversário. A fatura, que já estava apertada, saiu ainda mais do controle e ela recorreu a outro pix parcelado para conseguir pagar as contas.
Em abril, a situação já tinha saído do controle. A fatura, que já estava pesada, agora ficou impossível de ser paga, sem limite até para o Pix Parcelado. Os parcelamentos continuam acumulados, sem espaço para respiro ou emergências.
E, no fim trágico da história, Júnia “caiu no rotativo” de cartão de crédito, o grande vilão do mundo financeiro, com taxas que superam os 400% de juros.
Se identificou? Você não é o único. O exemplo da Júnia é mais real do que você imagina e é o pontapé inicial para uma bola de neve de dívidas. E tudo começou com pequenos parcelamentos que pareciam inocentes.
Parcelar ou à vista: como decidir?
Agora que você já sabe o que não fazer, vale parar e entender quando o parcelamento faz sentido. O que vale a pena parcelar?
Note que não estamos dizendo que todo parcelamento é ruim. A resposta depende tanto do consumidor quanto de cada caso de consumo. O financiamento de uma casa, por exemplo, é um tipo de parcelamento que faz sentido. Se as parcelas couberem no seu orçamento, claro. Isso porque você está construindo patrimônio, e é um bem que vai durar anos e anos.
Dá para parcelar eletrônicos e eletrodomésticos?
Quando o assunto são eletrônicos e eletrodomésticos, o parcelamento também pode fazer sentido. Isso porque também são bens duráveis.
Mas se você ainda está em dúvida, uma regra simples ajuda bastante: vale mais a pena parcelar produtos que vão durar mais tempo do que o período das parcelas. Afinal, ninguém quer continuar pagando algo que já estragou faz tempo.
Também vale olhar com atenção para o desconto à vista. Normalmente, as lojas oferecem preços significativamente menores para pagamentos no Pix ou em dinheiro. Nesse caso, vale a pena esperar um pouco mais, juntar a quantia e evitar parcelas que vão comprometer o orçamento por meses.
Pode parcelar contas mensais e supermercado?
Não deveria. Parcelar supermercado, conta de luz, água ou outras despesas do mês dá uma sensação de alívio imediato, só que o problema continua te perseguindo. Afinal, mês que vem essas contas vão chegar de novo e você ainda vai estar pagando as parcelas das anteriores. É assim que muita gente entra num ciclo em que o salário já chega comprometido antes mesmo do mês começar.
Diferente de um imóvel, um carro ou um eletrodoméstico que vai durar anos, em uma compra no supermercado você consome tudo e continua com a dívida pelos próximos meses.
Quando a pessoa começa a usar crédito para bancar a própria rotina, normalmente é sinal de que o orçamento já não está fechando direito. Por isso, mais importante do que procurar formas de parcelar tudo é ter uma organização financeira minimamente saudável para não transformar contas básicas em um beco sem saída.
Conclusão: como parcelar compras grandes sem comprometer o orçamento mensal?
Que não dá para fugir 100% do parcelamento a gente já sabe. Em algumas situações, vale realmente a pena, por isso, estamos aqui para te mostrar como identificar essas situações.
A primeira é organizar minimamente os gastos fixos do mês e entender o quanto realmente sobra depois das contas essenciais. É importante também separar um valor mensal, mesmo pequeno, para emergências. Ter uma reserva evita recorrer ao cartão para qualquer aperto inesperado.
Na hora de parcelar compras maiores, vale seguir algumas regras práticas:
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só parcele algo que vá durar mais do que o período das parcelas;
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não acumule muitas prestações ao mesmo tempo;
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compare o desconto à vista antes de dividir no cartão. Para isso a decisão exige calma, não parcele nada no impulso;
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nunca comprometa uma parte tão grande da renda que o próximo mês vire um sufoco.
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No fim, o crédito deve servir para facilitar a vida, não para virar uma muleta permanente do orçamento. Porque quando até o supermercado começa a ser parcelado, normalmente o problema já não está no preço da compra, mas no desequilíbrio entre renda e custo de vida.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
