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Por Isabel Gonçalves
Dona Maria é aposentada e vive recebendo ofertas de empréstimo consignado por ligação. Ela viu no jornal que agora a contratação do empréstimo vai ser por outro caminho, o chamado Leilão do Consignado INSS. A notícia dizia que os juros seriam menores e tudo seria feito por aplicativo.
E ela nem sabia que o INSS tinha aplicativo de celular.Curiosa, pediu ajuda ao neto para baixar o tal app. Quando abriu, se deparou com uma série de informações, opções e termos que não eram tão simples quanto pareciam na reportagem. Taxa, prazo, parcela, custo total… tudo ali, mas nada exatamente claro pra quem nunca teve contato com esse tipo de decisão.
O que é o leilão do consignado INSS?
O chamado “leilão do consignado” é uma nova funcionalidade que está prevista para ser disponibilizada no aplicativo Meu INSS. A proposta é simples no papel, em vez de o aposentado ou pensionista sair procurando crédito em diferentes bancos, ou aceitar a primeira oferta por telefone, são os bancos que passam a disputar esse cliente dentro da própria plataforma.
Funciona como uma vitrine de ofertas. A pessoa informa que tem interesse em contratar um empréstimo consignado e, a partir disso, diferentes instituições financeiras enviam propostas com taxas de juros, prazos e condições. Tudo aparece reunido em um único lugar, para que o beneficiário compare e escolha a melhor opção.
A ideia é inverter a lógica do empréstimo, em vez de aceitar uma oferta sem pensar, o usuário teria mais poder de escolha.
Esse modelo já existe
O leilão do consignado do INSS não surge do nada, ele segue o que já vem sendo aplicado no consignado CLT, o Crédito do Trabalhador. Na Carteira de Trabalho digital, trabalhadores do setor privado já conseguem receber propostas de empréstimo consignado de diferentes bancos e comparar condições antes de contratar.
A dinâmica é bem parecida, várias instituições apresentam ofertas, e o usuário escolhe a que considera mais vantajosa. O objetivo dos dois modelos é justamente essa centralização das propostas em um único ambiente digital, com a promessa de mais transparência e concorrência.
Só que tem um detalhe importante aí, e pouca gente fala sobre isso. Quem usa a Carteira de Trabalho Digital, em geral, já tem mais familiaridade com tecnologia e ainda está no mercado de trabalho. Já no Meu INSS, o público é outro, aposentados e pensionistas, que muitas vezes têm mais dificuldade tanto com aplicativos quanto com esse tipo de decisão financeira.
Pra ter uma ideia, uma pesquisa da fintech meutudo com 6.828 pessoas mostrou que 56% dos entrevistados ainda têm dúvidas ou não se sentem seguros em relação ao leilão do consignado do INSS. Ou seja, antes mesmo de comparar propostas, muita gente ainda está tentando entender o básico.
Qual o real benefício do leilão consignado INSS?
A principal bandeira do leilão do consignado é clara, aumentar a concorrência entre bancos para, com isso, reduzir os juros cobrados dos aposentados e pensionistas.
Quando várias instituições disputam o mesmo cliente em um ambiente aberto, a tendência é que elas tentem oferecer condições mais atrativas para ganhar aquela contratação. Em vez de receber uma única proposta, muitas vezes por telefone ou por meio de um correspondente bancário, o beneficiário passa a ter acesso a diferentes opções ao mesmo tempo.
Isso muda o ponto de partida da decisão. O crédito deixa de ser algo “empurrado” e passa, ao menos em teoria, a ser escolhido. Mas vale lembrar que, os juros do consignado INSS possuem um teto máximo estipulado pelo Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS), sendo hoje uma das modalidades mais baratas do mercado.
Qual a diferença entre consignado normal e leilão do consignado?
No modelo tradicional, o aposentado costuma receber ofertas prontas, seja por ligação, mensagem ou atendimento presencial. Essas ofertas chegam a ser até abusivas pela quantidade e forma que são oferecidas. O aposentado contrata até sem querer.
No leilão, quem chega primeiro é o beneficiário. Ao demonstrar interesse no empréstimo, o sistema abre espaço para que diferentes bancos enviem propostas. Cada instituição tenta se destacar oferecendo:
-
taxas de juros mais baixas
-
parcelas menores
-
prazos mais flexíveis
Essas propostas ficam organizadas dentro do aplicativo, permitindo uma comparação direta. É como se os bancos estivessem “competindo” pela preferência do cliente, em vez de apenas apresentar uma condição padrão.
Mas esse fluxo “bonito” parte do ponto de que o acesso ao INSS está normal e seguro. Acontece que, na prática, muitos beneficiários ainda enfrentam problemas como bloqueios no sistema, necessidade de validação de dados ou até dificuldades para acessar o próprio aplicativo, situações comuns para quem já teve o benefício travado ou precisou regularizar cadastro.
Além disso, a centralização das ofertas em um único ambiente pode trazer mais transparência ao processo. Em vez de depender da abordagem de um único banco, o beneficiário passa a enxergar um panorama mais amplo antes de tomar a decisão. Mas esse benefício tem uma condição importante, ele só se concretiza se a pessoa conseguir entender como funcionam os juros, o custo efetivo total e comparar corretamente as propostas.
Preciso mesmo usar celular pra contratar empréstimo agora?
Levar o crédito consignado para dentro de um aplicativo parece ser um grande avanço. Centraliza informações, facilita o acesso e dá mais autonomia para o usuário decidir sem depender de terceiros. Como faz o nosso simulador de empréstimos.
Mas quando a gente olha com mais calma, a gente se pergunta se digitalizar esse processo realmente resolve o problema ou só muda ele de lugar?
Isso porque a facilidade de acesso não significa, facilidade de entendimento. Se a pessoa não entende bem o que está vendo, a tecnologia pode até agilizar o processo, mas não garante uma escolha melhor.
E o problema é real. A mesma pesquisa da Meu Tudo mostrou que:
-
45% se preocupam em não entender as condições das propostas
-
19% Tem receios de receber ofertas de bancos desconhecidos
-
19% Tem medo de enfrentar dificuldades para usar o aplicativo
Das pessoas entrevistadas, só 15% disseram que não têm nenhuma preocupação. E isso não surpreende ninguém, afinal o público do INSS não é, em sua maioria, nativo digital. Muitos aposentados e pensionistas até usam celular no dia a dia, mas isso não significa familiaridade com aplicativos mais complexos, cheios de etapas, termos técnicos e comparações financeiras.
Só uma interface simples não resolve
É comum ouvir que basta deixar o aplicativo “mais simples” para resolver o problema. Mas a questão vai além da aparência da tela.
Mesmo com uma interface amigável, as pessoas ainda precisam entender o que está por trás da decisão:
-
o que são juros
-
como funciona o prazo
-
qual é o custo efetivo total do empréstimo
-
quanto aquilo vai comprometer da renda
Sem esse entendimento, comparar propostas vira quase um chute ou, no máximo, uma escolha baseada na menor parcela, que nem sempre é a melhor opção. Sem informação clara e preparo, a decisão importante vira algo rápido demais e pouco consciente.
Conclusão: tecnologia resolve até certo ponto
Vamos ser sinceros, o leilão do consignado parece uma boa ideia, até a gente olhar pra realidade do país. A inadimplência está nas alturas e a cada dia surge uma nova ferramenta de crédito.
Boa parte dos aposentados ainda não entende bem como o consignado funciona e agora vai ser convidada a comparar várias propostas dentro de um aplicativo. É um salto grande. Talvez até grande demais.
Quando a gente transforma uma decisão que é difícil em algo rápido e automatizado, o resultado são escolhas feitas sem pensamento crítico e compreensão.
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E sem isso, o leilão corre o risco de virar só mais uma vitrine de crédito, bonita, moderna, mas pouco útil para quem realmente precisa. Então fica o questionamento: será que estamos mesmo dando mais poder de escolha ao aposentado e pensionista ou só facilitando o caminho para eles se endividarem mais rápido?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
