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Por Isabel Gonçalves
Na segunda-feira de manhã, Ana saiu de casa atrasada. O trânsito estava travado, o ônibus demoraria e o aplicativo parecia a solução óbvia. Abriu o Uber, digitou o destino de sempre, um trajeto que costumava custar cerca de R$18.
O valor apareceu na tela, R$39,80. Ela fechou o app e abriu o 99. R$37. Pensou duas vezes, respirou fundo e pediu a corrida mesmo assim. No fim do mês, quando a fatura do cartão chegou, o susto não veio de uma compra grande, mas da soma de várias corridas “normais” como aquela.
Mas afinal: por que as corridas de aplicativo estão tão caras? E, mais importante, o que dá pra fazer quando o preço dispara?
Por que meu Uber dá mais caro?
Em 2025, segundo dados do IPCA, os preços das corridas por aplicativo subiram 56% no Brasil, a maior alta anual já registrada. Em algumas capitais, esse aumento chegou perto de 70%. O transporte por app, que já foi símbolo de economia e praticidade, virou um dos itens que mais pressionam o orçamento.
A alta no preço das corridas não tem um único culpado. Ela é resultado de uma combinação de fatores econômicos, mudanças no modelo de negócio das plataformas e transformações na forma como as pessoas se deslocam nas cidades.
O fim da era do “preço artificial”
Durante anos, Uber, 99 e outros aplicativos operaram no prejuízo. A estratégia era cobrar barato, conquistar usuários, dominar o mercado e só depois pensar em lucro. Esse período ficou conhecido como a era do preço artificial, quando o valor pago pelo passageiro não refletia o custo real da corrida.
Essa fase acabou. De acordo com Leonardo Leão, CEO da Brave, consultoria especializada em gestão financeira, hoje, as plataformas priorizam sustentabilidade financeira e rentabilidade. Isso significa menos promoções generosas e mais custos repassados diretamente ao usuário. Em termos simples, a corrida ficou mais cara porque agora quem paga tudo é você.
Tarifa dinâmica mais sensível
A tarifa dinâmica sempre existiu, mas se tornou mais agressiva e frequente. Ela representa um aumento no preço das corridas quando a demanda por carros supera a oferta em uma determinada área.
Por isso, pequenas variações de demanda, uma chuva repentina, um show, um jogo de futebol ou um atraso coletivo no horário de saída do trabalho, já são suficientes para multiplicar o valor da corrida.
Mais gente usando, nem tantos motoristas assim
A volta massiva ao trabalho presencial aumentou a demanda por transporte diário. Mais pessoas usando o app todos os dias, nos mesmos horários, cria um problema.
Ao mesmo tempo, ser motorista de aplicativo ficou mais caro. Combustível, manutenção, seguro e depreciação do veículo pesam, e muitos motoristas abandonaram as plataformas ou passaram a rodar menos. Resultado? Mais passageiros disputando menos carros.
Em quais horários o Uber fica mais caro?
Se você sente que o aplicativo “sabe” a pior hora para cobrar caro, não é impressão. Existem padrões bem definidos.
Horários de pico tradicionais
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Manhã: entre 6h30 e 9h
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Fim de tarde/noite: entre 17h e 20h
Esses são os momentos clássicos de alta demanda por causa do deslocamento casa–trabalho. Mesmo sem chuva ou eventos, os preços tendem a subir.
Dias úteis x finais de semana
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Sexta à noite: um dos períodos mais caros da semana
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Sábado à noite: bares, festas e eventos elevam a tarifa
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Domingo à noite: retorno de viagens e compromissos
Clima e eventos
Choveu? O preço sobe. Teve show, jogo ou festival? Sobe mais.
Qualquer situação que aumente a urgência do deslocamento ativa a tarifa dinâmica quase instantaneamente.
Regiões específicas
Áreas com grande concentração de escritórios, hospitais, shoppings e casas de eventos costumam registrar picos mais intensos, especialmente em horários previsíveis.
O que fazer quando o Uber está muito caro? Veja 5 dicas.
Não dá para controlar o algoritmo, mas dá para reduzir o impacto no bolso com algumas estratégias simples e realistas.
1.Comparar (de verdade) antes de pedir
Abrir Uber, 99 e outros apps disponíveis não é perda de tempo. Em alguns momentos, a diferença chega a 20% ou 30% para o mesmo trajeto.
2.Esperar alguns minutos pode ajudar
A tarifa dinâmica oscila. Em horários muito disputados, esperar 5 ou 10 minutos pode fazer o preço cair, especialmente se a demanda estiver concentrada naquele instante.
3.Ajustar horários quando possível
Antecipar ou atrasar a saída em 20 ou 30 minutos pode tirar você do pico mais caro do dia. Nem sempre é viável, mas quando é, faz diferença.
4.Repensar o uso recorrente
O transporte por aplicativo virou hábito diário para muita gente. Mas o mais importante é se perguntar se isso é necessidade ou conveniência. Pedir carro por aplicativo todos os dias cabe no seu orçamento mensal? Alternar com transporte público, bicicleta ou caminhada em trajetos curtos pode aliviar bastante a fatura.
5.Fugir da ilusão do “valor pequeno”
Uma corrida de R$25 não parece absurda isoladamente. Mas 20 corridas assim no mês viram R$500 sem você nem perceber. O perigo está em não somar todas as corridas do mês..
O impacto real no orçamento pessoal
O aumento das corridas por aplicativo é um exemplo clássico de como pequenos gastos recorrentes se transformam em grandes vilões financeiros. Eles não chamam atenção como uma parcela de financiamento ou um aluguel, mas corroem o orçamento pouco a pouco.
As corridas entram na fatura do cartão de crédito como gastos fragmentados. R$28 aqui, R$34 ali, R$15 na volta pra casa. Nenhuma delas assusta sozinha. O problema é a soma. Quando o preço médio sobe mais de 50%, o transporte por app passa a disputar espaço com despesas fixas importantes. Para muita gente, isso significa:
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menos margem para lazer,
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dificuldade de poupar,
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ou a sensação de que o dinheiro “some” sem explicação clara.
O aumento não dói no momento da corrida, mas aparece com força no fechamento do mês.
Conclusão: conveniência tem preço e agora ele é explícito
O transporte por aplicativo não ficou caro por acaso, nem apenas por ganância das empresas. Ele ficou caro porque o modelo amadureceu, os subsídios acabaram e os custos reais vieram à tona. A conveniência segue ali, carro na porta, poucos minutos de espera, pagamento automático, mas agora ela cobra o valor cheio.
Para o consumidor, o desafio é outro: usar com consciência. Entender quando vale a pena pagar pela comodidade e quando ela está custando mais do que deveria. Spoiler, na maioria das vezes não vale. Em um cenário de orçamento apertado, não dá mais para tratar o Uber como gasto invisível.
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A pergunta que fica não é só “por que está caro?”, mas quanto desse conforto cabe, de fato, na sua vida financeira. Porque o aplicativo pode até calcular o preço da corrida, mas quem paga a conta, no fim do mês, é você.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
