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Empréstimo com garantia de celular: crédito fácil ou armadilha digital?

Crédito rápido, juros altos e aplicativos que podem travar o celular expõem consumidores a riscos financeiros, jurídicos e digitais.

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Por Isabel Gonçalves

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A promessa é tentadora, dinheiro rápido, disponível para negativado, sem comprovação de renda e com juros menores. Em troca, você só precisa oferecer algo que já tem no bolso todos os dias, o celular.

O problema é que esse tipo de empréstimo, conhecido como empréstimo com garantia de celular, vem levantando alertas cada vez mais sérios no Brasil. E não é só entre especialistas em finanças, mas também na Justiça, em órgãos de defesa do consumidor e até em empresas de segurança digital.

Nos últimos meses, o número de aplicativos usados para bloquear remotamente celulares em caso de atraso no pagamento explodiu. Mesmo com decisões judiciais considerando essa prática abusiva e ilegal, o modelo segue crescendo. Mas afinal, como funciona esse tipo de crédito, por que ele é tão perigoso e o que você precisa saber antes de cair nessa cilada digital?

O que é o empréstimo com garantia de celular?

Nesse modelo de crédito, o celular do consumidor funciona como uma garantia no caso de não pagamento do empréstimo. Ao contratar o serviço, a pessoa é obrigada a instalar um aplicativo no aparelho.

Esse app tem permissões profundas no sistema do celular e permite que a empresa bloqueie o uso do aparelho remotamente ou restrinja acesso a aplicativos. Também dá para impedir chamadas, mensagens e internet e em alguns casos, até acessar dados pessoais

Ou seja, se houver atraso no pagamento das parcelas, o celular pode simplesmente parar de funcionar. É o chamado kill switch, ou “botão de desligamento”.

Para quem esse tipo de crédito é oferecido?

As financeiras miram principalmente pessoas negativadas, que não conseguem comprovar renda e por isso, tem dificuldade de acesso ao crédito tradicional. Quem já está em situação financeira vulnerável acaba sendo o principal alvo.

Por esse motivo, os valores liberados costumam ser mais baixos, de até R$4.500. Além disso, pelo celular ser uma garantia fraca se comparada a um imóvel ou carro, os juros não são tão atraentes, que ficam por volta de 8,49%.

O avanço dos apps que travam celular no Brasil

Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Segundo a Kaspersky, empresa de cibersegurança, 88 mil aplicativos desse tipo foram usados para bloqueio apenas entre agosto de 2024 e julho de 2025. Isso representa um crescimento de 43 vezes em comparação com dois anos antes.

Esse aumento mostra que o modelo não só existe, como está se espalhando rapidamente, mesmo com alertas e decisões judiciais contrárias.

O que diz a Justiça sobre o bloqueio remoto de celulares?

Decisões judiciais já condenaram a prática. Tribunais do Distrito Federal e do Amazonas já entenderam que oferecer crédito condicionado à instalação de um app que bloqueia o celular é ilegal.

O argumento central é que essa prática viola direitos básicos do consumidor, como o direito à comunicação e ao trabalho, princípios da dignidade humana. Afinal, hoje em dia, o celular carrega nossa vida inteira. 

Em um mundo onde o celular é ferramenta de trabalho, estudo, acesso a serviços públicos e até a emergências, bloquear o aparelho vai muito além de uma simples cobrança de dívida.

Se é ilegal, por que essas financeiras continuam operando?

Aqui está um ponto importante, a decisão vale apenas para uma empresa específica, a SuperSim. Outras financeiras continuam oferecendo crédito com garantia de celular, como Juvo e Mister Money, que seguem ativas na Play Store. Fato é que existe uma brecha jurídica e uma fiscalização que ainda não acompanha a velocidade do mercado.

Empréstimo com juros baixos? Nem tanto 

As financeiras defendem esse modelo dizendo que, pelo celular reduzir o risco de inadimplência, os juros são mais baixos. Além disso, um grande argumento é a acessibilidade do crédito para pessoas inadimplentes.

Na teoria, parece razoável. Na prática, os números contam outra história.

Quanto você paga pelo empréstimo?

O simulador da Mister Money mostra a seguinte oferta:

  • Empréstimo de R$5.000

  • Pagamento em 36 parcelas de R$516,72

  • Total pago: R$18.601,92

Isso significa que o consumidor paga mais de três vezes o valor emprestado e com celular travado como ameaça constante.

O risco vai além da dívida: entra a segurança digital

O risco desse tipo de empréstimo não termina quando a parcela atrasa. Ele avança para um território ainda mais sensível: a segurança digital do consumidor. Especialistas em cibersegurança chamam esses aplicativos de spyloan, uma combinação de spyware com loan (empréstimo).

De acordo com a Kaspersky, esses aplicativos têm comportamentos típicos de vírus. Eles podem roubar informações pessoais, acessar fotos, contatos e arquivos, além de dificultar ou até impedir a restauração de fábrica do aparelho. Em muitos casos, o app também não pode ser desinstalado pelos caminhos tradicionais do sistema, o que deixa o usuário sem controle sobre o próprio dispositivo.

Outro ponto preocupante é que o aplicativo responsável pelo bloqueio do celular geralmente não está disponível na Play Store. Durante a contratação do empréstimo, o consumidor é orientado a baixar um outro arquivo diretamente de uma página externa. Essa estratégia serve justamente para fugir da fiscalização das lojas oficiais e evitar denúncias que poderiam levar à remoção do app.

Falar em extorsão, nesse contexto, não é exagero. Em países como o México, onde essa prática é ainda mais comum, já foram registrados casos de vazamento de fotos íntimas, ameaças a familiares e cobranças abusivas e humilhantes. 

Empréstimo com garantia de celular vale a pena?

Na prática, não vale.

Você assume três riscos ao mesmo tempo:

  1. Financeiro: juros altos e dívida longa

  2. Digital: roubo de dados e invasão de privacidade

  3. Social: perder acesso a comunicação, trabalho e serviços

Tudo isso para conseguir um crédito que parece fácil, mas cobra um preço altíssimo depois.

Não existe alternativa mais segura? 

Sim, existem alternativas bem menos arriscadas do que colocar o celular como garantia. Dependendo do seu perfil, pode ser possível recorrer ao empréstimo consignado, que costuma ter juros mais baixos, ou a linhas de crédito com garantia real regulamentada, como imóvel ou veículo. 

Cooperativas de crédito e bancos digitais também oferecem opções com análise de perfil mais flexível e, em muitos casos, condições melhores do que as praticadas por financeiras agressivas. Em situações de endividamento, a renegociação das dívidas existentes pode ser o primeiro passo antes de assumir um novo compromisso.

Nenhuma dessas soluções é perfeita ou imediata, mas todas são muito menos invasivas do que correr o risco de perder o controle do próprio celular.

Conclusão: crédito fácil não pode custar sua liberdade digital

O empréstimo com garantia de celular é o retrato de um problema maior: a falta de educação financeira somada à exclusão bancária empurra pessoas vulneráveis para soluções perigosas. Quando o acesso ao crédito exige abrir mão do seu principal meio de comunicação, trabalho e informação, o problema já deixou de ser financeiro e virou social.

Hoje em dia, celular não é luxo. É uma ferramenta básica de sobrevivência. Se uma empresa precisa te ameaçar com um bloqueio remoto para garantir o pagamento, talvez o modelo não seja tão justo quanto parece. Informação é proteção. 

No Educando Seu Bolso, a regra é clara: antes de aceitar dinheiro fácil, vale sempre perguntar qual é o verdadeiro custo escondido atrás da promessa.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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