Eleição da argentina e o que importa (de fato) para nós
A eleição de Javier Milei para a presidência da Argentina levanta muitos debates, inclusive os que importam
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Não me lembro de uma eleição na Argentina chamar tanto a atenção no Brasil como a que foi decidida no último domingo. Também não me lembrava de uma eleição na Argentina tão parecida com o nosso processo eleitoral de 2022, o que dá sentido para a primeira afirmação.
Neste cenário, muita coisa foi debatida e, inclusive, a eleição dos hermanos foi “nacionalizada”, com clara participação brasileira em ambos os lados. Até aí tudo bem, isso é do jogo no mundo inteiro e não haveria de ser diferente pelas bandas de cá.
Entretanto, tem algumas coisas que me chamaram bastante a atenção e acredito que concentram o maior ponto de interesse para o Brasil (não para o governo brasileiro ou para alguma ala política brasileira). E não se engane, é preciso fazer essa separação, pois as relações internacionais de um país moldam o seu direito interno, mudam regras, instituem outras, melhoram ou pioram a vida dos seus cidadãos.
Eu já afirmei isso aqui algumas dezenas de vezes e não me canso: as relações entre países se dão por interesse e não por gosto. Não existe amizade em nível internacional, mas necessidade e oportunidade.
18/10/2023 - 06:00 Entre Bis, KitKat e a necessidade de voltarmos a ter vergonha
08/11/2023 - 07:05 O agro mais esquerdista do mundo deu de reclamar da esquerda
15/11/2023 - 10:26 O caso Dino, o inferno tecnológico e o direito
Quer uma prova disso: Milei disse que não se relacionaria com a China (maior parceiro comercial) e com o Brasil (segundo maior parceiro comercial). O resultado foi que tudo chacoalhou na Argentina. Ele, que é completamente louco ao que parece, mas talvez não seja burro, correu para mudar o discurso e dizer que o governo não teria relações com esses países, mas que os argentinos poderiam fazer o que quisessem e com quem quisessem.
O motivo é simples: se não for assim o país desmorona de vez (no nível guerra civil e fome generalizada) e a culpa seria exclusivamente dele. Na prática, quase ninguém (para dar uma margem para erro) pode se dar ao luxo de parar de fazer comércio com a China. Os EUA não têm poder de decidir, hoje, por romper relações comerciais com a China. Logo, quem é a Argentina (e nosostros también) na fila do pão...
Considerando esta premissa, o que temos de realidade para além do discurso político e das nossas intermináveis brigas entre torcidas organizadas de políticos de estimação no Brasil?
Primeiro uma questão terminológica importante: a esquerda brasileira vem rotulando Milei como “extrema-direita”, o que está rotundamente equivocado. Extrema-direita conflui o espectro político que amplia o poder do Estado ao extremo (meio auto explicativo...), assim como a extrema-esquerda, diferenciando-se uma da outra pelo discurso de ordem, segurança nacional, nacionalismo e alguma guerra qualquer contra um inimigo (real, como o crime organizado em El Salvador, ou imaginário, como o Comunismo no Brasil).
Milei também vem sendo rotulado por alguns como anarco-capitalista, o que também está errado. Anarco-capitalismo está vinculado à ideia de abolição total do Estado, sem a existência de qualquer mecanismo de autoridade pública. Fosse ele de fato anarco-capitalista, não teria se candidatado.
Parêntesis único: anarquia é uma ideologia política normalmente vinculada à esquerda, mas isso está muito errado. A esquerda tende a aumentar o tamanho e o poder do Estado na execução de atividades na sociedade, como mecanismo não apenas indutor, mas concretizador, de necessidades públicas. Anarquia prega a abolição completa do Estado! Como isso seria compatível?
Voltando: há no Brasil alguns grupos ditos liberais que querem enquadrá-lo como liberal. Neste ponto eu sou obrigado a discordar. Discordo porque o seu discurso não é liberal, mas tem alguns elementos que podem ser coincidentes com o liberalismo – o que é coisa muito diversa.
A própria postura de classificar esquerdistas como seres inferiores já retira completamente a base liberal do seu discurso e o iguala à extrema-esquerda que ele tanto ataca. Isto porque são exatamente esses extremos que querem encontrar “pessoas do bem”, de um lado, e “pessoas do mal” do outro. Essa busca de “bom”, “mau”, “belo”, “feio”, “correto”, “incorreto”, etc. é chave para todo tipo de caos e autoritarismo.
Ocorre que o liberalismo de verdade é a ideia (essa sim, muito radical) de que todo ser humano é rigorosamente igual e absolutamente livre para ser o que bem entender, especialmente ser livre para ser aquilo que eu não suporto. É a ideia (absurda para alguns) de que a vida do outro não é da minha conta e que preservar a livre existência de todos (ainda que meus discordantes) é a única forma de se evitar a escravidão e servidão no mundo.
Qualquer projeto de eliminação de pessoas, ideias, culturas, modos de ser e de viver, filosofias e etc. pode ser qualquer coisa, menos liberal. E neste ponto, as políticas argentinas dos próximos quatro anos podem impactar nossa vida e nosso direito.
Em um primeiro “quadrado” (e para mim o principal), se o presidente eleito cumprir as suas promessas monetárias de campanha e dolarizar a economia, teremos cenários extremos: ou haverá uma enxurrada de dólares ou uma escassez generalizada de dólares. Na enxurrada poderemos ser beneficiados se o comércio continuar, pois entrariam mais divisas no Brasil e o preço do dólar cai (lembra que é o nosso principal parceiro na Am. Latina).
Na segunda hipótese, o povo argentino vai ultrapassar na velocidade da luz a linha da pobreza e vamos viver um novo êxodo de gente faminta cruzando a fronteira, exatamente como aconteceu com a crise da Venezuela. A diferença é que vão chegar pelo RS, SC e PR. E daí eu não faço a menor ideia de como será o comportamento do governo de cá e de lá, mas será um caos.
O segundo ponto importante são as promessas estruturais de campanha sobre a eliminação da estrutura do Estado: não temos uma experiência semelhante para comparar. Bolsonaro foi eleito sustentando a redução da máquina e neste ponto pouco ou nada fez.
Para um bom observador, é possível perceber que transformar um ministério em secretaria sem mexer em mais nada é mudar nome e mexer em egos, sem qualquer repercussão real na estrutura do Estado. Em suma: não tivemos uma experiência liberal no Brasil (nem com muito boa vontade).
Logo, se a Argentina executar isso mesmo, seremos observadores próximos dos impactos que o Estado pode causar na vida das pessoas. Nem o mais liberal dos brasileiros ousaria sustentar o Estado sem uma estrutura de saúde e educação e, ao que parece, é o que o novo mandatário do nosso vizinho quer fazer.
Não se engane, qualquer efeito positivo ou negativo do lado de lá da fronteira vai virar lei do lado de cá. Como disse, nunca houve tanta confluência política entre os dois países, de modo que há, pela primeira vez, um projeto político expressamente conjunto.
Além disso, muda-se bastante o jogo internacional, principalmente em relação aos organismos internacionais que fazemos parte. Mercosul e Unasul podem pausar as atividades. Sem Argentina, perdem o sentido e abandonar esses organismos é também promessa de campanha de Milei. Os BRICS tocam a vida normalmente, mas o poder de influência e voto do Brasil cai um pouco (exatamente no momento em que a China aumentou o dela).
Ou seja, pelas bandas de cá, precisaremos nos reestruturar para reorganizar os fluxos internacionais. Como é de bom tom, provavelmente a postura será de espera, visto que rupturas muito abruptas só são críveis depois de efetivamente executadas. Antes disso, são especulações.
Por fim, a maior lição que podemos retirar do processo eleitoral argentino é que algumas coisas são constantes:
1. o voto é em papel e teve alegação de fraude; ou seja, a culpa não é da urna eletrônica, mas das pessoas. Se você acredita em voto de papel como a panaceia dos nossos males eleitorais, talvez acredite que importa mais o papel do que a pessoa que escreve nele e os hermanos mostraram que você está errado;
2. a manutenção de um mesmo grupo político no poder com sentimento patrimonialista (como é o caso do peronismo) leva qualquer país ao colapso; o Estado não pode ter dono, mas gestores. Quando essas linhas se confundem, o país afunda e a população admite qualquer alternativa, ainda que envolva conselhos espirituais de um falecido doguinho (e haverá muito brasileiro afirmando que é melhor se aconselhar com um caramelo do que com a maioria dos nossos representantes);
3. ideologia política não está no primeiro plano da população, com a exceção dos membros das torcidas organizadas de políticos de estimação. A postura política da população está (acertadamente) vinculada à quantidade de comida que tem na geladeira. Governo bom é governo que viabiliza geladeira cheia. Esvaziou, ficou ruim. Se é de esquerda ou de direita, liberal ou estatista, etc. não tem a menor relevância;
4. muito por causa do item anterior, o voto é emocional e não racional; vota-se pela crença, pela esperança, pelo ódio, pela revolta, pela rivalidade e por mais infinitos motivos. Normalmente, a razão não entra na lista. Logo, antes de julgar o comportamento político de alguém, vale muito a pena entender os motivos irracionais que o colocaram naquele lugar;
5. A política não é feita só com parcerias agradáveis e amistosas, mas com inteligência e muito sangue frio. Lula fez o que pode para que Sérgio Massa ganhasse a eleição e foi o primeiro a cumprimentar Milei, o que é absolutamente acertado e o que se esperava de um chefe de Estado. Milei, por sua vez, se recusou a cumprir um protocolo secular com o Brasil, o que é um erro grosseiro e desnecessário, muito semelhante à equivocada política internacional de Bolsonaro e que não nos trouxe bons resultados. A ver como isso repercutirá no futuro.
Para além disso, apesar das hecatombes anunciadas, continuaremos próximos, pois (pelo que o próprio Milei prega) sociedades são maiores e mais fortes que governos; o pessoal da Faria Lima vai continuar a passar férias em Bariloche; os hermanos vão continuar a tomar sol em Florianópolis; e eu vou continuar com esperança de que os pacotes para Ushuaia deixem de ter preços compatíveis com os da Europa para eu manter a esperança de conhecer el fin del mundo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.