*** Ângela Mathylde Soares, PhD em Saúde Mental e Neurociências Cognitivas

Durante anos, muitas pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ouviram a mesma frase: “Você não dorme cedo, porque não tem disciplina.” Hoje, a neurociência revela que essa afirmação pode estar profundamente equivocada.

Uma das queixas mais frequentes entre adolescentes e adultos com TDAH é permanecer acordado até altas horas da madrugada, estando muitas vezes exaustos, porém, incapazes de iniciar o sono. O fenômeno não é apenas comportamental. Tem base neurobiológica.

Felizmente, as pesquisas das últimas duas décadas demonstraram que esses  indivíduos apresentam maior prevalência de atraso na fase do sono. Trata-se de uma alteração no ritmo circadiano, popularmente conhecido como “relógio biológico”, ou seja, o cérebro libera melatonina mais tarde do que o esperado. 

A melatonina é o hormônio responsável por sinalizar ao organismo que é hora de dormir. A produção atrasada deixa o corpo em estado de vigília, mesmo quando há cansaço físico evidente.

Os estudos de centros como o Karolinska Institutet (Suécia), Universidade de Groningen (Holanda) e Harvard Medical School, apontaram que até 70% dos adultos com TDAH apresentam características compatíveis com atraso circadiano. É importante entender que não se trata de falta de vontade. É biologia.

O TDAH envolve alterações na regulação dopaminérgica. A dopamina não participa apenas dos circuitos de atenção e motivação, pois influencia também o ciclo sono-vigília. À noite, quando o ambiente está silencioso e há menos estímulos concorrentes, muitas pessoas com TDAH relatam experimentar maior clareza mental. É como se o cérebro, finalmente livre da sobrecarga sensorial diária, encontrasse um estado ideal de funcionamento. O resultado é um hiperfoco tardio. O problema é que o mundo continua funcionando pela manhã.

As últimas pesquisas investigaram a participação de genes relacionados ao ritmo circadiano, como CLOCK, BMAL1 e PER2. As alterações desses marcadores parecem estar associadas a um cronotipo mais noturno em pessoas com TDAH. A situação ajuda a explicar por que crianças com o transtorno têm maior latência para iniciar o sono e adultos, frequentemente, relatam insônia de início, não de manutenção.

Infelizmente, a privação crônica de sono agrava sintomas centrais do TDAH: desatenção, impulsividade, instabilidade emocional e baixa tolerância à frustração. Forma-se um ciclo vicioso: atraso para dormir, sono insuficiente, piora executiva, maior desorganização e mais dificuldade para regular o sono.

Muitas vezes, o sofrimento é interpretado como desleixo, quando na verdade é desregulação neurobiológica. As intervenções baseadas em evidências incluem:

  • Terapia de luz matinal para reajuste circadiano
  • Uso criterioso de melatonina sob orientação médica
  • Estruturação ambiental e redução progressiva de estímulos noturnos
  • Avaliação de comorbidades como ansiedade
  • Ajustes personalizados na rotina.

A abordagem deve ser individualizada. Não existe um protocolo único. É necessário compreender que a relação entre TDAH e ritmo biológico é um avanço clínico e social. Quando se entende que o cérebro não “desliga” porque está desregulado — e não porque é desobediente — muda-se a forma de acolher, tratar e orientar.

A ciência está refinando o olhar. Cabe a cada um refinar o cuidado. Dormir não é apenas fechar os olhos. É alinhar o tempo biológico ao tempo do mundo. E, para muitos cérebros com TDAH, a sincronização exige ciência — e não julgamento.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

*** Leia mais no site e redes sociais draangelamathylde

compartilhe