Nada vamos colher desse campo exausto, já palmilhado milhares de vezes para rastrear os nossos erros. Não é por falta de olhar mais detido sobre o que já foi feito. O inventário dos pecados está pronto e revisado. A dificuldade maior do tempo que passa grave sobre nossas cabeças atordoadas é justamente mudar a trilha em que viciamos nossos cérebros na tarefa de interpretar o que nos acontece. Essa laranja não dá mais caldo, está chupada até o bagaço. O que nos desafia agora é encontrar uma outra linguagem, diferente da que temos usado para traduzir a realidade.
O império da razão, que fundamos no Renascimento, reforçamos na revolução científica do século XVII, estendemos mundo afora com a revolução industrial e estamos implodindo com a atual revolução tecnológica, nos trouxe até aqui. Há absurdos por toda parte e não vou cair na armadilha de listá-los uma vez mais. Sempre que o faço, uso o olhar do passado e sinto aprofundar em mim o fosso em que nos metemos. Impera, então, o pessimismo, esse campo infértil em que padecem a criatividade e o desejo.
O certo é que a visão puramente materialista nos deixou aqui, à beira do abismo. É hora de trazermos à tona o resto de nós, o que em nós foi desconsiderado pela ciência clássica, pelo racionalismo e o antropocentrismo. O que em nós arde como chama e desejo. Em lugar de mudar a natureza para auferir ganhos, integrar-se a ela para perenizar a vida. Ser da natureza uma de suas expressões. É hora do equilíbrio entre espiritualidade e razão. Da humildade de quem, diante das ruínas de uma civilização caduca, admite: erramos. O que precisamos fazer agora?
“A música, como a natureza a que pertencemos, sugere o que na música não está”, escreveu Eduardo Giannetti, em seu essencial "Trópicos utópicos". É este conteúdo que “não está”, este perfume imperceptível ao olfato, esta música que responde desde dentro à beleza e a seu encantamento, que verdadeiramente interessam – o cerne da linguagem desejada. São pontos de encontro com algo que já estava lá, que nos antecede e permanece durante nossos períodos de ausência. Possivelmente, dedos indicadores que se tocam, do Criador e da criatura. Oásis do qual nos aproximamos e afastamos seguidamente, ansiando o dia quando não mais o abandonaremos, ao tomar consciência de que miragem é o deserto ao redor. Entre o presente e o futuro que desejamos construir, há um longo caminho: o tempo do autoconhecimento é interminável e o do amor, que o acompanha e depois continua, mais longo ainda. Mas estar em marcha é começar a chegar.
Não estamos sozinhos, mas é muito comum que andemos pelo mundo como caminham os solitários, com os olhos pregados no chão. Sentir a Presença é fruto de uma vontade ou da Graça. Se batermos o martelo sobre o joelho de Deus esculpido, como fez Michelângelo com a escultura de Moisés, e perguntar a Ele: “Por que não fala?”, não ouviremos resposta. A frustração da expectativa parece representar, metaforicamente, o argumento do racionalismo para defender suas convicções. Não precisamos, na verdade, do martelo nem da estátua. Apenas do silêncio que busca o esvaziamento interno de todo o barulho que nossas crenças, dúvidas e medos produzem, e da expectativa de escuta. Deus fala, não importa se atenda por outro nome que o tenhamos batizado, seja Buda, Olorum ou Inconsciente, desde que haja vontade de escuta.
A simplicidade das mãos que limpam da mesa o pó para servir o jantar, a simplicidade da pessoa que se solta nas águas da imaginação enquanto vira a página de um livro, a simplicidade de quem escuta atentamente o que outro fala, de quem, com sinceridade, pergunta "em que posso ajudar?"; a simplicidade de quem observa em volta como as coisas são, de quem ergue aos céus uma prece; esta simplicidade cria um lugar de serenidade no coração do cotidiano. Da mesma forma, faz a alegria de reunião, especialmente de fazer juntos algo bom em prol de alguém. É deste lugar de ser que podemos mudar o mundo. Não mais de uma revolução.
Volto aos "Trópicos utópicos", de Giannetti: "A capacidade de sonho e o desejo de mudar fertilizam o real, expandem as fronteiras do possível e reembaralham as cartas do provável. Quando a vontade de mudança e a criação do novo estão em jogo, resignar-se a um covarde e defensivo realismo – 'uma aceitação maior de tudo' – é condenar-se ao passado e à repetição medíocres (ou pior). Se o sonho descuidado do real é vazio, o real desprovido de sonho é deserto. No universo das relações humanas, o futuro responde à força e à ousadia do nosso querer. O desejo move".
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Que o bom Deus nos ilumine!
