Anos atrás vi um espetáculo inesquecível, estrelado por Paulo Gracindo e Clara Nunes, ambos brilhando agora no firmamento da arte nacional. Chamava-se "Brasileiro, profissão esperança", texto de Paulo Pontes e direção de Bibi Ferreira, em homenagem a Dolores Duran e Antônio Maria – todos eles astros do estrelado céu dos nossos talentos.
Mas me apego aqui ao título, que reconhece nele, o brasileiro, a esperança como pulsão de vida. A tal ponto que a exercita como uma profissão, com a qualificação de quem não espera acontecer. E o digo assim, menos na condição revolucionária de quem sabe e faz a hora – seguindo o fluxo do belo poema de Geraldo Vandré.
Não me refiro à realização extraordinária, com aspiração ao heroísmo, mas à capacidade de fazer a hora presente, sendo o que é na luta diária da vida e suas dificuldades, de acordo com as crenças que nele subsistem, mesmo inconscientemente. Ser brasileiro é uma arte diurna e noturna, mas com retorno a longo prazo.
Dito tudo isso, fui varrido pela esperança (como quem diz desencostado do lugar de preguiça para um outro de cruzamentos e travessias) ao terminar a leitura do livro "Brasil no espelho – um guia para entender o Brasil e os brasileiros", de Felipe Nunes, PhD em ciência política e fundador da Quest.
É uma janela que se abre no quarto escuro - onde se briga de foice -, em que nos jogou a polarização política. E o que se vê através dela é um país cheio de vida, complexo, contraditório e que, na invisibilidade da rotina de nossas cidades, vai desenhando seu caminho sem dar pauta para os jornais. As mudanças acontecem na surdina.
A partir de uma pesquisa de fôlego, levado a cabo em 340 municípios brasileiros, durante quase dois meses, Felipe conseguiu dependurar à frente de nossos olhos um retrato de todos nós. Criou nova metodologia e dividiu os brasileiros de acordo com crenças, identificando os grupos de pessoas nas quais determinadas crenças se acumulam, feito pau de enxurrada. E que surpresas!
Somos – para dar uma amostra ligeira - a cada geração mais conscientes de que não vivemos em uma democracia racial e, exatamente por isso, os jovens são menos racistas que seus pais e avós, indicando uma tendência pela qual em algum lugar do futuro, mais perto que longe, deixaremos de enxergar os outros pela ótica do preconceito de cor.
Individualistas como traço de cultura, estamos agarrados à âncora do merecimento pessoal. Isso nos faz acreditar que dependemos exclusivamente de nós mesmos na lida da subsistência. Acreditamos – e muito! – que Deus está no comando, mas que Ele só ajuda quem cedo madruga. Além dessa proteção do alto, na realidade dura deste chão que pisamos, não há ninguém por nós. Somos, por desdobramento desta solidão, refratários a cotas raciais e políticas de erradicação da pobreza, como o Bolsa Família.
Achamos que os ricos são ricos por privilégio, os pobres são pobres por falta de merecimento, mas quando é com a gente, somos ricos porque suamos a camisa ou pobres por injustiça. Ao mesmo tempo, porém, esperamos, indignados, do Estado políticas universalistas que melhorem a vida de toda a população, na forma de serviços públicos de qualidade, como educação e saúde. Que a entrega desses serviços seja impessoal – igual para todos – mas, no guichê, que o tratamento seja atencioso e acolhedor.
Em outras palavras, apesar de a maioria dos brasileiros, incluindo os mais pobres, desconsiderar as origens sociais da pobreza como justificativa de políticas compensatórias, há uma consciência de que o Estado precisar fazer sua parte e garantir igualdade de oportunidades para todos. Esta é, a meu ver, a melhor notícia da pesquisa. Significa que os populistas estão com os dias contados!
Vivemos com medo do crime e da violência. Em consequência e por falta de resposta adequada do poder público a esses problemas, somos punitivistas, favoráveis à redução da maioridade penal e à pena de morte para crimes hediondos. Temos, pela mesma razão, muita desconfiança dos outros – apenas 6% dos brasileiros concordam que “podemos confiar na maioria das pessoas”. Mesmo com toda a pressão de uma rotina ameaçadora, não queremos fazer justiça com as próprias mãos e rejeitamos a liberação do acesso às armas. Queremos, mesmo, é que a polícia e a Justiça sejam eficientes.
Sim, não poderia ser de outra forma: experimentamos um grande cansaço, seja pelo medo que assombra nossos dias, seja pelo individualismo que nos sobrecarrega. A pior notícia da pesquisa já era conhecida: somos muito mal-informados e não temos noção dessa ignorância. Achamos que nossos grupos de redes sociais são confiáveis e suficientes. Em consequência, nos deixamos levar facilmente por notícias falsas no ambiente manipulado das redes sociais. O resultado é que o debate público fica rasteiro e equivocado.
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Me perdoem a ousadia do resumo. Esta é apenas uma pequena amostra do trabalho importantíssimo que Felipe Nunes e equipe nos entregaram recentemente, no livro Brasil no Espelho. Merece aplausos, plateia de pé por pelo menos 5 minutos de palmas incessantes. Bravo!
