O parque estava entupido de gente – algo como uma multidão concentrada às portas do Mineirão para um clássico decisivo entre Cruzeiro e Atlético. Os gramados estavam literalmente tomados por toalhas de piquenique. O motivo de tamanha mobilização não era nenhum show de artista famoso, mas o primeiro fim-de-semana em Toquio com as cerejeiras em flor. Um cenário deslumbrante, inimaginável de tão bonito, impossível de ser fielmente retratado por melhor que fosse o celular ou a câmera digital. A beleza é assim, só se revela aos olhos presentes, e mesmo assim não a todos. Exige atenção e tempo de contemplação. O mundo instagramável, por conseguinte, não a percebe. Só mostra como são belas as árvores em flor. Como eram os cartões postais de antigamente.

Estávamos lá, eu e Adriana. Eu e ela silenciosos e atentos para estarmos lá inteira e plenamente de forma a não perder os detalhes, especialmente os fugidios, os que só podem ser percebidos primeiro em vislumbre, depois em deslumbre, assombro e arrebatamento. Beleza, indescritível beleza! Não estou me referindo apenas às cerejeiras, mas à multidão. À sombra daquelas centenas de árvores cobertas de flores, andávamos nós, a multidão, sem esbarros e encontrões. Todos se deslocavam pela esquerda, como fazem os japoneses, com vagar. Nos gramados as pessoas conversavam em tom suave e alegre, animadas mas quase à meia voz. Nenhuma ansiedade nos semblantes. Não divisei ninguém de cenho carregado, não havia discussões nem mau humor. Formávamos um coral imenso, sem ensaio e afinadíssimo e tal dissonância soaria tão destemperada - uma verruga brotando em meio ao veludo - que se faria perceber até pelos mais distraídos.

O ar que respirávamos nós, a multidão, era de congraçamento, abençoados todos pelas cerejeiras em flor, gratificados pela presença que naqueles espaços se manifestava, nas formas vegetal e humana, e entre nós, em todo lugar, se fazia facilmente perceber na condição de energia, boa energia, sagrada energia. Estar ali juntos e integrados à natureza trazia à flor da pele o perfume da nossa essência. Assim mesmo no singular, essência, essência comum, resultado que, sendo plural no conjunto, é único como expressão de humanidade. Podíamos ali, cada um de nós, encostar os lábios no cálice e beber do sublime a seiva. O quanto há de eternidade na reunião. Abençoados fomos.

Mestres na arte do paisagismo, os japoneses conjugam o viver em sete elementos, combinados nos jardins para convidar à contemplação: a água, renovação e purificação, fluida em riachos, cascatas e lagos, ou sugerida em meio à aridez de seixos e areia; as pedras e as rochas, eternidade; lanternas de pedra para guiar o caminho e iluminar a ignorância; pontes para a transição do mundo físico para o espiritual; plantas para marcar a passagem das estações e do tempo; os caminhos de pedra para atrasar e acalmar o passo; as carpas, para adicionar movimento, cor e o som à quietude, e coragem para os momentos em que se faz necessário nadar contra a correnteza. Mesmo feitos para convidar ao silêncio e à meditação, os jardins foram cenário perfeito para inspirar e abrigar a manifestação da alma coletiva. Fui dela uma testemunha. Jamais esquecerei.

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Mais adiante, fora dos limites do parque, em uma praça ampla, havia música, oficinas, atividades lúdicas para as crianças e, claro, conversas e encontros. O mesmo espírito de congraçamento por outros ângulos. Sob uma tenda, um trio de cordas tocava a belíssima Com te Partirò. Mais uma vez naquele dia inesquecível, despistamos as lágrimas. Um japonês de seus 30 anos nos abordou pouco depois. Queria saber de onde éramos. Depois perguntou o que estávamos achando. Eu senti circulando em meu corpo o ímpeto de quem vai iniciar um discurso. Bem que tentei, mas só consegui dizer algumas palavras, frases pontuadas de emoção e reticências. Terminei da forma mais objetiva e franca que consegui encontrar. Com as mãos espalmadas sobre o peito, disse com voz trêmula: “Muito obrigado!”.

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