O baiano Gervásio Baptista, mal passados dos dez anos de idade, subiu no banquinho para ganhar altura e encontrar o enquadramento. Trabalhava no estúdio Foto Jonas para aprender o ofício de fotógrafo. Esticou o corpo, depois curvou-se sobre o defunto para achar o melhor ângulo. Faltava só mais um pouquinho, só mais um pouquinho..., quase, quase... e o tamborete virou. O pequeno fotógrafo desabou sobre o morto e ambos foram ao chão. O menino que brincava com caixinhas de fósforo como se fossem máquinas fotográficas, diante da estreia desastrada, em lugar de desistir teve certeza: vou por aí!

Nenhum dos presentes ao velório, naquela primeira metade dos anos 30, poderia prever sem parecer um piadista, mas começava ali uma carreira longa e brilhante. Descoberto por um senador, de quem fez um 3 x 4, Gervásio foi contratado pelo jornal O Estado da Bahia e depois pela revista O Cruzeiro, ambos do lendário Assis Chateaubriand. O seu talento levou-o em seguida a outra revista, a Manchete, de Adolpho Bloch, onde trabalhou até seu fechamento, em 2000. Fotografou todos os presidentes brasileiros e alguns estrangeiros durante sua trajetória profissional, de Getúlio Vargas a Luís Inácio, viajou o país e o mundo para cobrir 16 concursos de miss Brasil e miss Universo, sete copas do mundo, a revolução cubana em 1959 e a dos Cravos, em Portugal, além de destacada atuação no registro da guerra do Vietnam.

Fidel Castro e Che Guevara posaram para sua Rolleiflex. Suas lentes registraram a queda de Juan Domingo Perón na Argentina e o enterro de Getulio Vargas em São Borja, e ainda foram merecedores de receber o seu clique a rainha Elizabeth II, Charles de Gaulle, John e Jack Kennedy. Foi preso algumas vezes durante a ditadura militar, não por militância política, mas pelo exercício naturalmente subversivo de sua profissão. Atrás das grades, pode estreitar relações com seus companheiros de cela, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes e o advogado e líder camponês Francisco Julião. O século XX bem que tentou, mas não conseguiu esconder de Gervásio seus segredos.

Por volta de 1976, ele e o jornalista Carlos Chagas foram à fazenda de Juscelino Kubitscheck, em Luziânia, levá-lo para passear por Brasília. Isolado na pequena propriedade por ameaça do governo militar, JK andava mergulhado em tristeza. O ex-presidente pediu para descer em frente ao Itamaraty para olhar a cidade que tinha construído. Gervásio, que o havia fotografado acenando com um chapéu na inauguração da nova capital, captou as lágrimas nos olhos de Juscelino. "Cada pessoa é um país, e em cada cabeça há um mundo que eu tento fotografar", explicou anos depois, em entrevista ao repórter Rondinelli Tomazelli.

De Tancredo Neves recebeu o convite para ser seu fotógrafo oficial. Por estrepolia do destino, em lugar de fazer a foto da posse do primeiro presidente civil depois de 21 anos de ditadura militar, registrou-lhe a última e polêmica pose, cercado pela equipe médica que lhe assistiu durante a internação hospitalar. Os próprios médicos, familiares e representantes do futuro governo se revezaram na tarefa de desmentir a suposta existência de um tubo de oxigênio escondido atrás de Tancredo. Mas foi exatamente o autor do flagrante, aquele que não trabalhava com palavras - sublinha outro expoente da arte de fotografar, Orlando Brito (1950-2022) -, o único testemunho a merecer crédito da imprensa e acabar com a dúvida: tinha sim! Por sua excelência, o baiano foi mantido no posto por José Sarney, o sucessor.

Alegre e de muita presença de espírito, sempre gostou de contar casos e piadas apimentadas. Certa vez, fazendo troça com seu longo tempo de vida profissional, o então presidente Fernando Henrique Cardoso disse que Gervásio havia fotografado a Santa Ceia. A réplica foi imediata: "O senhor tem uma memória prodigiosa, presidente!". Gervásio foi ainda fotógrafo do Supremo Tribunal Federal e sua chegada ao plenário, passos lentos, a câmera dependurada ao pescoço, era reverenciada pelos ministros.

Quando a velhice acampou de mala e cuia no quintal de Gervásio, o fotógrafo internou-se numa casa de repouso nos arredores de Brasília. Quando recebia visitas, gostava de vestir sua melhor roupa e relembrar as tantas histórias que presenciou. "O que faz meu trabalho não é o olhar, é o sentimento", dizia aos seus visitantes. Aos 95 anos de idade, no dia 05 de abril de 2019, o querido Gervásio foi fazer um instantâneo de São Pedro. E deixou, entre nós, uma saudade enorme.

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