Passei a semana falando de sarna. Repórter de rádio, de televisão, de jornal, todos querendo saber do ácaro que anda visitando escolas, creches, presídios e asilos de Minas e de outras partes do país. Expliquei tantas vezes a mesma coisa que, à noite, deitado, me peguei coçando o braço — e não era sarna, era sugestão, que também pega.

Vamos ao que importa, porque o leitor é como a mãe na porta da escola: quer saber se o menino pode voltar.

Sarna é um bicho miúdo, o Sarcoptes scabiei, que não se enxerga a olho nu e passa a vida cavando túneis na pele alheia. Não é falta de banho. Não vem do cachorro — a do cachorro é outra, de outra variedade, que no homem não vinga. Pega por contato: pele com pele, 15, 20 minutos. Por isso gosta de sala de aula, de cama partilhada, de família grande dormindo junta. Pega também por lençol, toalha, uniforme emprestado, mas o grosso é o abraço demorado.

E aqui a primeira lição, que aprendi na pele dos outros: a pessoa transmite antes de coçar. Fica um mês, mês e meio, sem sentir nada, e já está passando adiante. Quando a coceira chega, chega de noite, chega no banho quente, chega entre os dedos, no punho, na barriga. Coça tanto que a pessoa pensa que é alergia, que é nervoso, que é o sabão novo.

Foi mais ou menos no terceiro telefonema que me ocorreu a comparação. Não sei se por cansaço ou por espírito de porco — o cronista, como o ácaro, também cava seus túneis.

Minha mãe dizia que quem procura sarna pra se coçar acaba achando, e ela tinha razão nas duas acepções, a dermatológica e a outra. Nunca vi sarna em quem não quisesse. É que a sarna de pele tem uma parente que vem crescendo no país na mesma velocidade: a sarna de ideias, essa que a imprensa chama de extrema direita e o leitor já conhece de algum almoço de domingo.

Também não vem do cachorro, embora adore culpar o vizinho, o estrangeiro, o de fora. Também não é falta de higiene — pega em gente escovada, de gravata, de diploma na parede. Também se espalha pelo contato prolongado: o churrasco em que o cunhado fala 20 minutos sem parar, o grupo da família no telefone, o pastor, o vizinho de condomínio. Quinze minutos de pele com pele, e pronto. E, como a outra, transmite antes do sintoma: o sujeito ainda não sabe que está contaminado, mas já encaminha o áudio.

A coceira, igualmente, piora de noite. O homem acorda às três da madrugada, pega o celular e sai coçando a tela, procurando conspiração, procurando inimigo, procurando, enfim, sarna pra se coçar. De manhã, amanhece com umas bolinhas vermelhas no discurso e acha que foi contaminado por um comunista...


O diagnóstico, nos dois casos, segue a mesma regra. Se uma criança coça, pode ser alergia; se coçam três da mesma sala, é sarna até prova em contrário. Se um tio fala sozinho, é tio; se a mesa inteira repete a mesma frase, com as mesmas palavras, na mesma ordem, é surto de negacionismo.


Agora o tratamento, e aqui peço ao leitor atenção redobrada, porque é o que a saúde pública ensina e a política esquece. Não se trata só a criança. Trata-se todo mundo que teve contato próximo nos últimos trinta dias — no mesmo dia, mesmo quem não coça. Se o pai trata o filho e não trata a si mesmo, a sarna volta na semana seguinte pelo caminho da cama. É permetrina do pescoço aos pés à noite; lava-se de manhã, repete-se em uma semana; ou ivermectina, um comprimido hoje e outro daqui a 10 dias. Simples.


O difícil é convencer o adulto sem sintoma de que ele também precisa. "Mas eu não coço, doutor." Pois é. O ácaro não pede licença nem avisa; a pessoa está cheia dele e se acha saudável. É o caso mais comum, na pele e na política.


Não adianta desinfetar a carteira, o ônibus, a sala. O ácaro não vive no ambiente; vive na gente. Gasta-se fortuna borrifando o prédio e esquece-se do contato. Conheço prefeituras que fecharam escola por uma semana, mandaram dedetizar tudo, e, na segunda-feira, a sarna voltou com as crianças, limpinha, descansada.


A escola, aliás, não fecha por gravidade; fecha por logística — dois dias para tratar todas as turmas de uma vez e lavar as roupas. Lençol, toalha e uniforme dos últimos três dias vão para a água quente e para o sol de Minas, que ainda é o melhor desinfetante que temos. O que não dá para lavar vai para o saco plástico, bem fechado, por uma semana: sem pele humana para morder, o bicho morre sozinho.


E a notícia boa: 24 horas depois do tratamento correto, já não transmite. Não precisa de atestado de cura. Precisa, isso sim, de tratamento simultâneo.


Há uma última lição, a mais humana de todas. Depois de tratado, o doente continua coçando por até um mês. Não é falha do remédio; é alergia ao ácaro morto. A pele leva tempo para acreditar que o bicho já se foi.


Hidratante, um anti-histamínico, paciência. Nada de repetir o tratamento por desespero.

Conto isso porque, no outro caso, a coceira também persiste. Passou o pior, trocou-se o lençol, lavou-se o uniforme, e a pessoa continua acordando de madrugada, coçando a tela. Não é que a sarna voltou; é o corpo ainda se lembrando dela.


Eleição não é atestado de cura. Na realidade, dependendo do seu voto no próximo dia 25, estará procurando sarna pra se coçar durante muitos anos.


Fecho como fechei para a repórter, com a frase que ela queria: trata-se todo mundo junto, lava-se a roupa, 24 horas de afastamento, e 90% dos surtos se resolvem. Os outros 10% são de quem tratou o filho e não quis tratar a si mesmo.


Nem o cachorro, pobre do cachorro, tem culpa disso.

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