Juleba, meu amigo de quase uma vida, me perguntou se eu já tinha escrito sobre as bactérias multirresistentes e os absurdos dos seres humanos. Não me lembro. Cronista semanal só olha para frente. Cronista e ciclista, então, se não olhar para frente é tombo na certa. Na gíria do nosso Pedal da Lagoa, é "comprar terreno".


Juleba é poeta e sambista do "Me samba que eu vou". Alto, esguio, solteiro, nariz de perdigueiro — hábil para farejar moças à caça de bom companheiro. Zagueiro dos bons. Um dia, na nossa pelada de fim de ano, foi comparado ao Beckenbauer por ninguém menos que o Tostão (Eduardo Gonçalves, para os colegas da medicina). Claro, Eduardo, com sua retina comprometida, já não enxerga como o Tostão. Mas isso não importa. A sugestão do Juleba merece replay, mesmo que já tenha passado por esta coluna.


Pois bem. Vou contar como nasce uma bactéria multirresistente, que é coisa que eu entendo, para depois falar de gente, que é coisa difícil de entender. A bactéria não é má. Ela só quer ficar viva, como o pé-de-couve da minha mãe queria ficar vivo, como o Juleba quer ficar ligado até o próximo carnaval. Quando o antibiótico chega, a maioria morre. Mas uma, por sorte de nascença, tem uma fechadura que a chave do remédio não abre. Ela sobrevive, se multiplica e ensina a receita às vizinhas, num troca-troca de genes que faria inveja a qualquer roda de samba e suruba do Vorcaro. Quanto mais a gente usa antibiótico sem necessidade — para gripe, para dor de garganta, para "prevenir" —, mais a gente seleciona a teimosa. A bactéria não fica resistente por maldade. Fica resistente porque nós insistimos no erro.


Agora, o ser humano. A bactéria resiste ao antibiótico. O ser humano resiste ao óbvio. O óbvio tem cara de termômetro subindo, de geleira derretendo, de UTI lotada. O óbvio é o que o Juleba vê do fundo da zaga: o atacante vem, a bola vem, e o beque adianta a posição. Quem não vê o óbvio não é cego. É resistente. Desenvolveu, à força de repetição, uma fechadura que nenhuma chave de argumento abre.


Camus, argelino que fumava (não sei o que) olhando o mar, gostava de um grego chamado Sísifo. Os deuses o condenaram a empurrar uma pedra montanha acima; chegando ao topo, ela rola de volta, e ele desce para recomeçar. Eternamente. Camus dizia que era preciso imaginar Sísifo feliz. Não porque a tarefa fosse boa, mas porque ele a conhecia. Sabia o peso da pedra, o tamanho do morro, o jeito que ela escapa. Sísifo era lúcido. A pedra não o enganava.


Eu fui Sísifo por dois anos, de graça, a convite de um prefeito. Empurrava a pedra, máscara, vacina, leito de UTI. Chegava no alto, a pedra rolava. E rolava sempre pelo mesmo motivo: parte do país se recusava a enxergar que havia um morro. Essa é a diferença entre Sísifo e nós. Ele sabia da pedra. Nós fingimos que ela não existe, e ela desce do mesmo jeito. Camus chamava de absurdo a distância entre o que o mundo é e o que a gente gostaria que fosse. O negacionismo é o jeito covarde de fechar essa distância: em vez de enfrentar o mundo, a gente edita o mundo.


E a gente aprendeu, na marra, que negacionismo não é opinião. É uma cepa. Seleciona-se por repetição, transmite-se por contato e, como toda cepa, muda de cara e volta. Hoje ela se apresenta na candidatura do filho do golpista preso, com a bênção de Trumpalhão americano — o homem que sugeriu desinfetante na veia como quem oferece cafezinho.


Nietzsche fazia uma pergunta cruel: se você tivesse que viver essa vida infinitas vezes, exatamente igual, você aceitaria? Pois eu pergunto ao Brasil: você viveria 2020 de novo? Os caminhões frigoríficos em Manaus? A cloroquina? A fila do oxigênio? Se a resposta é não, por que diabos estamos tirando a mesma receita da gaveta? Nietzsche também dizia que o rebanho prefere a mentira confortável à verdade incômoda. Não por maldade. Por teimosia. O negacionismo é um antibiótico de balcão: não cura nada, mas alivia a angústia de pensar.


O detalhe é que o planeta inteiro está na mesma enfermaria. A possibilidade de um presidente negacionista do país dono da maior floresta tropical do mundo não é problema de bairro. É infecção hospitalar grave e global. Clima, pandemia, vacina — tudo isso é multilateral, como o esgoto. Não adianta tratar só a sua casa se o vizinho despeja o dele na sua porta.


Aí entra Spinoza, filósofo de primeiro escalão, polidor de lentes — ofício de quem quer que os outros enxerguem. Ele dizia que todo ser, da bactéria ao homem, carrega um conatus: o esforço de perseverar no próprio ser. Mas Spinoza fez uma distinção que a bactéria não faz. Há o conatus cego, movido por paixões tristes — medo, ódio, ressentimento, essa ânsia de culpar o vizinho. E há o conatus lúcido, movido por ideias adequadas, que são as que entendem a causa das coisas. O primeiro diminui nosso tesão de agir; o segundo aumenta.


A bactéria, coitada, só tem o primeiro: persevera sem saber o motivo. Nós fomos dotados do segundo. É aí que mora a nossa tragédia e a nossa chance. Um povo que vota com medo, com rancor, com saudade de um passado que nunca existiu, está perseverando — mas perseverando na própria diminuição. Spinoza chamaria isso de servidão. A liberdade, dizia ele, não é fazer o que se quer. É entender o que nos faz querer.


Juleba terminou a conversa como bom zagueiro: "Doutor, no futebol, quando o beque não enxerga o óbvio, o técnico tira. Na vida, quem tira?".

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Meu caro Juleba, quem tira é o nosso dedo, conectado com nossa consciência. Fui pedalar. Olhando pra frente, claro, para não comprar terreno. Mas confesso: olhei pelo retrovisor. E a pedra do Sísifo vinha descendo novamente. Fiz um sprint e estou correndo até agora, com um olho na pedra e outro no caminho.

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