Meu colega Leo Cirino, clínico dos bons e ciclista mais multirresistente do que qualquer pseudomonas que conheço, me enviou o último número do New England Journal of Medicine. Lá dentro, uma pergunta que eu julgava resolvida desde Hipócrates: devemos examinar um homem saudável?
O caso é simples, como são simples as coisas que acabam em briga de boteco. Um senhor de 60 anos, arquiteto, casado há 20, vai ao médico sem queixa nenhuma. Foi porque a mulher mandou. Toda consulta masculina depois dos 50 começa assim, e desconfio que a medicina preventiva deva mais às esposas do que a qualquer Ministério da Saúde.
Toma um remédio para a azia e outro para dormir, não fuma, pressão de 12,6 por 8,8. É, em suma, um homem que não tem nada — o que, para um médico, é sempre uma afirmação provisória.
Pois a revista, com aquela elegância americana de transformar dúvida em torneio, convidou dois professores ilustres para defender um lado cada, designados pelos editores como num debate de colégio. Ao final, o leitor vota. Nunca imaginei que o estetoscópio fosse parar nas urnas.
Registro, antes, uma alegria de revisor: no texto do caso, escrito por uma neurologista, a doença do refluxo gastroesofágico virou doença do “reflexo”. Um erro de uma letra que confirma minha velha tese: cada especialista enxerga no corpo o que estudou. A neurologista vê reflexo até no esôfago; o infectologista, confesso, vê bactéria em tudo.
O primeiro professor defende o exame. Diz que o toque cria confiança e cita uma metanálise para prová-lo — é o nosso tempo: precisamos de estatística multivariada para demonstrar o que meu avô, Sr. Lozico, fazendeiro matuto, sabia ao pôr a mão na minha testa. Conta ainda um estudo em que os satisfeitos com o médico lembravam, em média, 8,20 manobras do exame; os insatisfeitos, 4,44. Fico imaginando o paciente contando nos dedos feito jurado de carnaval: ausculta, nota 10; fígado, nove e meio; reflexo (não refluxo) patelar, esqueceu — perdeu ponto. O professor pede 10 minutos, 10 minutos apenas, para procurar pinta estranha, gânglio no pescoço, sopro nas artérias, pulso fraco no pé.
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O segundo é contra, e seu argumento tem a frieza de um teorema. O exame físico, diz ele, é um teste, e todo teste responde a uma pergunta que a conversa levantou. Se não há queixa, não há pergunta; e exame sem pergunta é resposta procurando dono. Cita uma revisão Cochrane: os check-ups não diminuem as mortes, por câncer ou pelo coração. E faz uma conta que me encantou: a chance de pneumonia num homem sadio é de 0,1%; depois de ouvir um estertor no pulmão, sobe para... 0,27%. De quase nada a quase nada — agora acompanhada de ansiedade, radiografia e, quem sabe, tomografia. Ele chama o exame, com crueldade elegante, de ato performático: o médico, um ator de jaleco, e a maca, um pequeno palco sem plateia.
O segundo tem razão nos números; o primeiro, em outra coisa, que não cabe em razão de verossimilhança. Lembro do meu pai, médico da minha infância em Ibiá, que chegava em casa de jaleco branco, pedia uma bacia com água e sabão e me examinava como quem lê uma carta. Não sei se reduzia a mortalidade dos pacientes. Sei que estou aqui até hoje, repetindo os exames que ele fazia, escrevendo crônicas e pedalando com o Leo Cirino e a turma da Moeda. Sei também que minha mãe dormia melhor depois que ele me examinava e ia tomar uma cerveja.
Meu velho professor de clínica, Dr. João Galizzi, me disse: “Dr. Carlos, a coisa mais difícil que existe é melhorar um paciente assintomático”. Ele tinha razão. Mas, na infectologia, aprendi também que o paciente que “não tem nada” às vezes tem uma placa branca na língua que ninguém olhou, uma mancha na pele que conta a história inteira antes que o laboratório abra a boca. Não são achados de metanálise; são de quem examina dos pés à cabeça. O corpo é um livro que não se deixa ler só pelo índice.
É verdade que já abandonamos exames feitos por décadas com a mesma convicção — o toque de próstata, certos exames ginecológicos. A medicina é uma velha senhora que vive se desfazendo das joias e às vezes descobre que eram bijuteria. Pode ser que o exame do homem saudável seja a próxima peça do brechó.
Mas penso no arquiteto. Ele sabe que um prédio não se avalia só pela planta: é preciso subir a escada, bater na parede, sentir se o piso range. Ninguém sério assina laudo sem entrar na casa, ainda que esteja perfeita. Sobretudo se estiver perfeita — é aí que a gente se acostuma a não olhar.
Sei em qual opção eu votaria: na que a mulher dele escolheria. Ela, que o empurrou até o consultório, não queria estudo randomizado nenhum. Queria que alguém pusesse a mão no peito do marido, auscultasse aquele coração de 60 anos e dissesse, com a autoridade antiga dos que tocam: “Está tudo bem, vá para casa e curta a sua mulher”.
Luiz Otavio, anestesista e aluno antigo, me contou que um amigo lhe pediu indicação de gastroenterologista e, sem lembrar de nenhum, passou-lhe a lista do plano. Semanas depois, reencontrou o amigo, e a pergunta veio na primeira frase. “Consultou?”. “Sim”. Escolhi um médico experiente, que me examinou como ninguém. Tinha 92 anos e era meio surdo. Disse que eu melhoraria logo. De fato, melhorei. Foi o único que escutou as minhas queixas.
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Pode ser que escutar o paciente e examiná-lo não reduza a mortalidade. Mas reduz a solidão e o medo do dia seguinte. E, pelo que sei, ninguém fez ainda metanálise sobre a solidão e o medo de continuar vivo e sobrevivendo nesse planeta.
