Semana passada, fui apresentado ao deserto do Atacama. Um infectologista de férias no lugar mais estéril do planeta — pura ironia profissional. Passo boa parte do meu tempo tratando pacientes com infecções por micro-organismos super-resistentes e fui descansar justamente onde nem eles se dão ao trabalho de viver; no Atacama, existem solos onde não mora bactéria alguma, e um colega brincou que ali eu poderia, enfim, apertar mãos sem pensar duas vezes. Não apertei mão nenhuma. No deserto, apesar da epidemia de turistas, cumprimenta-se o silêncio.


A geografia é de uma simplicidade e beleza que dá vertigem. De um lado, a Cordilheira dos Andes, com suas centenas de vulcões sonolentos — o Licancabur à frente, um cone tão perfeito que parece desenhado por um deus geômetra que, satisfeito com a obra, se aposentou. Vulcões que dormem há milênios com um olho aberto, como pais que fingem cochilar para espreitar a filha adolescente que se engruvinha na sala com o primeiro namorado. No meio, o deserto infinito, cor de ferrugem e osso. Dunas, vales e formas que desenham figuras impossíveis. Do outro lado, uma cordilheira pequena, modesta, quase tímida, separando aquele universo mineral do Oceano Pacífico, febril e convulsionado pelo super El Niño.


Andei por ali pensando no livro de Eduardo Galeano. "As veias abertas da América Latina" fala de um continente que se especializou em ser pilhado: nos levaram ouro, prata, salitre, borracha, açúcar, e nos exploraram com tal constância, que fizemos da perda quase uma vocação. Os espanhóis chegaram há mais de 500 anos perguntando por ouro com a delicadeza de quem pergunta por um parente desaparecido — e, não o encontrando ali, levaram o que havia, inclusive a paz dos atacamenhos. Depois veio o salitre, que valeu uma guerra inteira; depois o cobre, que ainda vale. Hoje, o Atacama exporta o metal que corre nos fios do mundo e o lítio que dorme nas baterias dos nossos telefones. Claro, tudo devidamente tarifado a mais de 15%, o novo estilo de pirataria com escusas esfarrapadas.

A humanidade inventou o carro elétrico para salvar o planeta e foi buscar a salvação, naturalmente, no subsolo alheio. As veias continuam abertas; apenas trocamos a lanceta pelo caminhão de mineradora, que é mais eficiente e lucrativo. Galeano morreu, mas seu livro segue rigorosamente atualizado — o que, para um livro, é uma glória, e para um continente, o diagnóstico de uma tragédia crônica.


O deserto, que nada pede, é um dos territórios mais assediados. Ninguém cobiça os jardins; cobiçam-se as entranhas. O Atacama é como certas pessoas caladas em reuniões de família — todos juram que ele não tem nada a dizer, mas é dele a herança que se disputa no cartório. Exploração a céu aberto com defunto ainda quente e saudável.


Foi minha filha mais nova que me obrigou à filosofia, ofício que os médicos evitam por falta de posologia. Diante do salar, ela perguntou por que um lugar tão vazio era tão bonito. Não soube responder na hora; respondo agora. O deserto é bonito porque não finge. Ele é a única paisagem que não nos promete nada — e, não prometendo, não nos decepciona. As florestas nos iludem de abundância, o mar nos ilude de infinito, mas o deserto nos entrega, sem cerimônia, a verdade de que somos pouco, breves e sedentos. É o mais honesto dos interlocutores. Talvez por isso os profetas de todas as religiões tenham ido ao deserto ouvir suas vozes: em matéria de escuta, nada supera um lugar onde não há mais nada falando, apenas o vento soprando areia nos nossos olhos e sussurrando verdades nos nossos ouvidos.


E pensei, claro, na aridez dos homens — porque médico em férias, na era do whatsapp não descansa, apenas muda de consultório. Conheço desertos que não estão em atlas nenhum: casamentos onde não chove há décadas, amizades reduzidas a figurinhas de aplicativo, famílias inteiras atravessando o almoço de domingo como caravanas que se cruzam sem levantar os olhos, cada uma vidrada em seu oásis de bolso, esse telefone que — convém lembrar — funciona à custa do lítio arrancado exatamente dali. Somos áridos com o auxílio da aridez alheia; até nisso a economia é globalizada.


Mas o Atacama me ensinou que a aridez tem seus segredos. De tempos em tempos, chove onde não devia, e o deserto amanhece coberto de flores — o deserto florido, chamam os chilenos, com a naturalidade de quem já viu milagre demais para se impressionar. As sementes estavam lá o tempo todo, esperando, algumas há décadas, com uma paciência que nenhum ser humano alcança. E ocorreu-me que as relações humanas talvez funcionem assim: o que parece morto está apenas à espera de uma chuva. Um telefonema fora de hora, um pedido de desculpas atrasado 10 anos, um "eu estava com saudade" dito sem anestesia — e eis que floresce aquilo que jurávamos extinto.

A diferença é que o deserto nunca tem orgulho. Nós temos, e o orgulho é o mais eficiente dos esterilizantes. Na última noite, olhamos o céu — aquele céu que atrai os maiores telescópios da Terra, porque para ver melhor as estrelas, é preciso ir aonde nada mais brilha, lição que serve igualmente à astronomia e à vida. Impossível não lembrar do meu tio Ernesto, um astrônomo amador que construiu o próprio observatório em plena Rua Pouso Alegre, em BH. Vendeu quando a iluminação a mercúrio invadiu as ruas da cidade e apagou o céu. Sophia, que me acompanhou nessa aventura, ria de alguma coisa que não entendi. Talvez do ponche andino que eu vestia. O riso dela fazia, naquela imensidão, o serviço da chuva.

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Pensei que os vulcões continuariam dormindo, o cobre continuaria partindo, as veias continuariam abertas — e que eu nada podia contra isso, a não ser o pouco que qualquer um pode: regar os seus, enquanto é tempo. Voltei do lugar mais seco do mundo, e ninguém precisa saber que foi de lá que eu trouxe, no canto do olho, a única umidade da viagem.

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