Saí com o Sushi para o passeio do fim de tarde. Sushi é um salsicha e, como todo salsicha, vive rente ao chão, farejando cantinhos com a seriedade de quem procura algo que nós, humanos, jamais saberemos o que é. Desconfio que ele também não saiba. Talvez seja essa a graça da vida dos cães e da nossa: procurar por procurar — uns com mais elegância, outros com menos, todos de focinho no chão.

Foi quando surgiu o homem. Vinha curvado sobre a grama do canteiro, os olhos varrendo o mundo rasteiro com uma atenção que já não se vê nem em ourives. Pensei que tivesse perdido a chave de casa, a carteira, quem sabe a fé. Perguntei, solícito, como convém a um médico em dia de folga:

— Perdeu alguma coisa? Posso ajudar?

Ele mal ergueu os olhos. Respondeu no tom neutro de quem informa a hora:

— Uma guimba. Tem um cigarro aí?

Não tinha. Nunca fumei, por coerência profissional e covardia pessoal, nessa ordem ou na outra. Mas fiquei preso à palavra — guimba —, que não ouvia desde os tempos de faculdade. A guimba é o cigarro em sua fase póstuma: o que o fumante abandona quando o prazer acaba e a culpa começa. Para aquele homem, porém, era a fase inicial de alguma coisa. O que para um é resto, para outro é começo.

O Sushi cheirou os pés do homem e não latiu. Cachorro salsicha entende de gente que procura no chão: reconheceu o instinto dos caçadores.

— O senhor acha muita coisa por aí? — perguntei, e me arrependi do "senhor", que soou à distância, quando eu queria proximidade.

Ele se animou. Todo procurador profissional gosta de inventariar seus achados, como o pescador gosta de medir o peixe com as mãos abertas.

— O que o povo joga fora, doutor, dava um museu.

Doutor. Ele adivinhou, ou chuta doutor em todo mundo que passeia cachorro de raça às seis da tarde — chute, sociologicamente falando, de boa pontaria. E foi enumerando: guarda-chuva bom, só de cabo torto. Sapato de um pé só do atropelado, o objeto mais melancólico do universo. Um celular que ainda tocava, e do outro lado uma mulher chorava por um certo Fernando, e ele teve de explicar que Fernando não morava mais ali.


— Mas a mais bonita — e aqui ele fez a pausa dos grandes contadores — foi uma aliança. Jogada da janela de um carro, na avenida. Eu vi o braço sair, vi o brilho voar, vi ela quicar no asfalto. Ouro, doutor. Alguém terminou um casamento a sessenta por hora.

Fiquei imaginando o gesto curto do braço, o anel descrevendo no ar a última parábola de um amor. E embaixo, na calçada, um homem que procurava guimbas recebendo do céu uma aliança — como se a cidade fosse um sistema de vasos comunicantes onde a decepção de um escorre até virar o almoço de outro.

— Vendeu? — perguntei.

— Vendi. Comi uma semana. Casamento dos outros me sustentou sete dias. Devia ter mais gente desquitando por aí.

E emendou, porque memória de catador é rosário: uma conta puxa a outra.

— Teve o maço, doutor. Vi um maço de cigarros voando da janela de um carro e fiz uma ponte — que nem nosso goleiro tentando nos manter vivos na Copa do Mundo. Pura ilusão: o maço estava vazio. Dentro, só um papel com o telefone de uma mulher. Joguei pra lá. Esse tipo de coisa costuma dar confusão. Dito e feito: no dia seguinte, tinha um rapaz disputando território comigo, revirando a mesma grama. Procurava o maço. Ou melhor, o número. Quis evitar problema pra ele e pra ela. O nome dela era Laura.

Fiquei com o nome atravessado. Alguém escreveu aquele telefone com o coração aos pulos; alguém o atirou pela janela com o coração já em outro endereço; e um terceiro voltou no dia seguinte, arqueólogo de um amor com menos de 24 horas de idade. O catador, no meio, fez o que os deuses fazem quando estão de bom humor: nada. Deixou Laura em paz, perdida entre as guimbas — que é onde os amores impossíveis descansam melhor.

Riu. Ri também, com aquele riso que a gente dá quando a piada é boa e o mundo não é. Porque ali, entre um salsicha e um poste, estava resumida nossa engenharia social: uns jogam pela janela o que não lhes serve mais — o anel, o amor, o cigarro pela metade, o próprio semelhante —, e outros vivem de recolher esses arremessos. Chamamos isso de economia. Ele chamava de dia de sorte.

O filósofo diria que somos a civilização do descarte; o sociólogo faria estatísticas; o economista falaria em externalidades. O homem da guimba não teoriza: ele se abaixa. É o único que olha a cidade na altura em que ela é verdadeira — a altura do Sushi, a altura do chão. Nós, “os de cima”, temos a arrogância vertical de quem só olha o horizonte e a tela do celular; ele tem a sabedoria horizontal dos que sabem que tudo, cedo ou tarde, cai. E que o que cai de uma vida pode levantar outra.

Dei-lhe uma nota, sem que pedisse, com o constrangimento de quem sabe que uma nota não conserta engrenagem nenhuma. Ele agradeceu sem servilismo, com a dignidade de quem recebe pagamento, não esmola — e talvez fosse mesmo: pela crônica, pela aula, por Laura e pela aliança, que voaram de janelas alheias e vieram pousar nesta página.

Ele seguiu numa direção, farejando o meio-fio; o Sushi me puxou na outra, farejando a grama. Dois pesquisadores do rés-do-chão, cada qual com sua bolsa de estudos. E eu no meio, ereto e inútil, sem achar nada — porque quem anda de cabeça erguida encontra, no máximo, o pôr do sol, que é bonito, mas não se fuma, não se vende, não se come.

Em casa, à noite, pensei nas coisas que já joguei fora: cartas, certezas, amores em bom estado de conservação, apenas com pequenas avarias na alma. Onde andarão? Em que grama dormem, esperando que alguém se abaixe? Torço para que tenham servido a alguém, como a guimba serve, como a aliança serviu — porque nada é mais triste do que um abandono desperdiçado.

Antes de dormir, ainda pensei em Laura, que a esta hora não sabe que seu nome anda solto pela cidade, escrito num papel dentro de um maço vazio, debaixo da chuva que talvez caia. Todo mundo, no fundo, é um telefone anotado às pressas que alguém um dia atira pela janela. E todo mundo, também, é o rapaz do dia seguinte, de joelhos na grama, tentando reaver o que o vento levou.

Se um dia me virem curvado sobre o chão, não perguntem se perdi alguma coisa. Perdemos todos, o tempo inteiro — o anel, o número, o batom da guimba, a Copa do Mundo, a Laura. A diferença é que alguns têm a humildade de se abaixar e a coragem de procurar. Os outros seguem em frente, de cabeça erguida, sem desconfiar de que a vida inteira — a deles, a minha, a de Laura — está caída em algum canteiro, esperando, com a paciência das coisas pequenas, que alguém acenda de novo o que sobrou.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

 

compartilhe