Dispam-se de preconceitos e hipocrisia. Se as religiões um dia os condenaram, a ciência de hoje os absolve. Houve um tempo em que mulheres e homens temiam mais a própria mão direita (ou esquerda) do que o inferno. E o inferno, naquela época, não era pouca coisa. Era um departamento concorrido, com fila, senha e vaga garantida para praticamente todo mundo. Ainda assim, nenhuma chama eterna assustava tanto um rapaz de bem quanto o aviso, repetido do púlpito e da cátedra médica com a mesma cara de enterro, de que aquele gesto solitário — praticado às escondidas, debaixo das cobertas, com a respiração de quem desarma uma bomba — o levaria infalivelmente à cegueira, à loucura, à tuberculose e, nos casos mais imaginativos, ao brotar de pelos na palma da mão. Era o pecado que se autodenunciava. Bastava o sujeito virar a mão para cima diante do confessor e pronto: estava entregue.
Apresento o réu. Chamemo-lo, com o respeito que se deve a um homem caluniado por séculos, de punheteiro ou onanista. Não é um sujeito específico. É uma multidão, espalhada por toda a história e por todas as latitudes, sem distinção de credo, classe social ou time de futebol. A masturbação é, possivelmente, a coisa mais democrática que a humanidade já produziu. As pesquisas sérias — e há pesquisas sérias sobre isso — mostram que a quase totalidade dos homens e a larga maioria das mulheres praticam. Os que juram não praticar geralmente estão mentindo. O comportamento, aliás, é observado em dezenas de outras espécies de mamíferos, o que enterra de vez a tese de que se trata de um vício moderno ou uma perversão criada pela Revista Playboy e importada junto com a televisão a cabo.
O paradigma que precisou ser quebrado, é justo reconhecer, era robusto. Vinha da Bíblia, por um mal-entendido de proporções bíblicas. Onã, o coitado que emprestou o nome ao "onanismo", não se masturbava. Praticava o coito interrompido para não dar herdeiro ao irmão morto, descumprindo uma cláusula contratual da família. Foi punido por quebra de contrato, não por diversão caseira. Mas a história tem dessas ironias requintadas: durante dois mil anos, um homem castigado por não querer filhos virou o padroeiro involuntário de quem fazia exatamente aquilo que ele não estava fazendo.
A medicina, que deveria ter posto ordem na casa, preferiu entrar na onda e não se opor ao poder do clero. Em 1760, um doutor respeitabilíssimo garantiu, de jaleco e tudo, que a perda de sêmen esvaziava o organismo como torneira mal fechada, ressecava o cérebro e arruinava os nervos. O pânico ganhou aval científico, que é a pior espécie de pânico, porque vem com “bibliografia”. No século seguinte, virou indústria. Um senhor inventou um biscoito sem graça para domar a carne, e um doutor, convicto de que a comida insossa era a melhor algema da libido, criou um floquinho de milho com idêntica e nobre intenção. Os flocos perderam feio a guerra que se propunham a vencer e hoje convivem, mansos, com tudo o que prometiam abolir.
E aí veio a parte que estraga qualquer sermão. A ciência, quando finalmente se dispôs a investigar o assunto sem o temor de quem espera encontrar o capeta atrás da porta, não encontrou capeta nenhum. Não cega. Não enlouquece. Não enfraquece os nervos, não consome a medula, não encurva a coluna. O que se observa é o anticlímax de uma catástrofe que nunca veio. O orgasmo despeja no organismo uma rodada de dopamina, ocitocina, endorfinas e prolactina — um coquetel que reduz a tensão, melhora o humor e explica, sem poesia, por que tanta gente apaga feito vela logo depois. É relaxante muscular, ansiolítico e sonífero, tudo de graça e sem bula.
Mas é depois dos 60 que a velha calúnia revela todo o seu cinismo. Porque é justamente quando o corpo precisa de manutenção que o moralismo decreta a aposentadoria compulsória do desejo. O senso comum acha graça, faz piada, finge que avô não tem libido, como se a alma envelhecesse no mesmo prazo da carteira de identidade. A fisiologia discorda com todas as letras. A atividade sexual regular, com companhia ou sem, mantém a irrigação dos tecidos, preserva a função erétil, exercita o assoalho pélvico e conserva viva uma engrenagem que, abandonada, simplesmente trava. Acrescente-se o que ninguém quer dizer em voz alta: aos 60, 70, 80, muita gente está viúva, separada ou sozinha, e o toque do próprio corpo é o que sobra de uma intimidade que a vida foi levando embora, aos poucos. Não é vício de velho safado. É higiene, é sono, é alívio da ansiedade, é independência, é antídoto contra a solidão e é, acima de tudo, a teimosa afirmação de que ainda se está vivo. Negar isso a um idoso em nome do pudor é crueldade e ignorância científica.
Durante séculos, condenou-se em alto e bom som aquilo que se praticava em silêncio absoluto, e era essa distância entre o púlpito e o quarto a verdadeira anomalia. A ciência teve apenas a indelicadeza de medir, contar e relatar, desmontando com evidências o que a culpa havia erguido com retórica.
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Sobra uma lição, e ela é quase terna. O punheteiro foi, por séculos, o bode expiatório perfeito: caladinho, universal e incapaz de se defender em público sem piorar a própria situação. Carregou a culpa de uma cegueira que nunca veio e de uma loucura que era, no fundo, só de seus acusadores. Hoje, absolvido pela fisiologia, ele pode finalmente erguer a cabeça — e, se a idade permitir, também as mãos — sem temer que alguém lhe examine a palma à procura de pelos. Não há pelo nenhum. Nunca houve. Havia, o tempo todo, apenas paranoia e gente com medo da própria sombra ao luar. E a sombra, finalmente, ganhou luz e desapareceu.
