Nasci em ano de Copa. Não me lembro, claro — mas dizem que foi um ano bom para nascer brasileiro. Naquele junho de Estocolmo, Pelé tinha 17 anos, minha mãe acabara de me colocar nessa confusão, e o Brasil ganhava sua primeira Copa do Mundo com a categoria de um menino predestinado a ser Rei. Não sei se foi coincidência ou sinal dos céus, mas desde então carrego comigo essa estranha certeza de que meu nascimento e o futebol são, de alguma forma, o mesmo fenômeno: barulhentos, imprevisíveis e absolutamente desnecessários para a sobrevivência da espécie — e, ao mesmo tempo, fundamentais para tudo o mais.
Como infectologista, passo os dias cuidando de pacientes e cercado de vírus, bactérias, parasitas e pela permanente e saudável suspeita de que o mundo microscópico conspira contra nós com uma eficiência que nenhum time de futebol jamais alcançou. Mas a cada quatro anos acontece algo que me convence, por algumas semanas, de que a medicina é apenas um detalhe. A Copa do Mundo chega e o planeta inteiro adoece de um vírus para o qual não existe vacina, tratamento ou protocolo clínico: o vírus do futebol.
Já tentei estudar esse fenômeno com rigor científico. Fracassei. Não existe metodologia capaz de explicar por que um homem de 68 anos, com pressão arterial que precisa de monitoramento, glicemia em impedimento e joelho que range nas manhãs frias, se levanta às três da madrugada para assistir ao Brasil jogar contra a Coreia do Sul. Não existe lógica que justifique a suspensão coletiva do juízo crítico que ocorre quando um atacante chuta para fora um pênalti que decidiria tudo. Nessas horas, toda a minha educação científica se dissolve numa só palavra, proferida em voz alta, com uma ênfase que envergonharia qualquer banca de doutoramento, ou o boteco da esquina.
A Copa do Mundo é, antes de tudo, uma doença comunitária. E como toda boa epidemia, ela não escolhe classe social, grau de instrução ou convicção política. Otto Lara Resende, grande escritor mineiro de São João del-Rei, escreveu certa vez que "o cotidiano é que nos mata, devagar". Pois a Copa do Mundo faz o contrário: ela interrompe o cotidiano com a brutalidade de um soluço ou de um infarto, fica por conta do freguês. Por 30 dias, as conversas sobre o rombo do Banco Master, as falcatruas dos Bolsonaros, o procedimento negado pelo plano de saúde, cedem espaço a debates acalorados sobre escalação, álbum de figurinhas, sistema tático e a vida pregressa do técnico da Seleção. É quase terapêutico. O sofrimento muda de natureza — e isso, clinicamente falando, já é algum progresso.
Conheci, ao longo da carreira, um paciente que internei durante a Copa de 2002. Homem de 50 anos, dengue hemorrágica, estado grave. Ficou 10 dias na UTI. Na noite em que o Brasil jogou a final contra a Alemanha, conseguiu convencer a enfermeira de plantão — uma mulher de fibra, que não se deixava dobrar por coisa alguma — a trazer um televisor portátil para a beira do seu leito. Quando Ronaldo fez o segundo gol, o homem arrancou um dos eletrodos do monitor cardíaco para vibrar com mais liberdade. O alarme disparou, a equipe correu, e o paciente estava ali, vivo, sorrindo, com os braços para o alto, pedindo um copo de cerveja. Alta médica no mesmo dia. Nunca soube se foi o tratamento ou o futebol que o curou. Suspeito de ambos, com leve vantagem para o segundo.
Isso me ensinou algo que os livros de medicina não dizem: a esperança tem fisiologia. O corpo que torce é um corpo que quer continuar. Há uma bioquímica da euforia que nenhum laboratório reproduz com a mesma eficiência que um gol nos acréscimos.
Mas seria desonesto da minha parte transformar esta crônica numa apologia ingênua. A Copa do Mundo também é — e cada vez mais — um grande negócio. Um negócio que constrói estádios onde deveriam existir escolas, que movimenta bilhões enquanto famílias inteiras são removidas de suas casas para "revitalizar" cidades que só ficam bonitas para as câmeras dos patrocinadores. Há um enorme vácuo entre a bola que pica nos campos de várzea e o dinheiro que vai se alargando a cada edição. Dessa vez veremos lá, o senhor das guerras, dos tarifaços e da tentativa de dar cartão vermelho para o nosso Pix. Mestre em fazer gol contra a humanidade, flerta com o fascismo (inclusive brasileiro) e já deveria ter sido declarado impedido, sem a mínima necessidade de VAR.
E ainda assim eu torço. Menos que para o Galo, mas torço. Torço com uma lealdade que envergonharia qualquer análise racional. Aprendi, ao longo da convivência com a condição humana, que o ser humano precisa de ritos coletivos. Precisa de momentos em que o "eu" se dissolve no "nós" — ainda que esse "nós" dure apenas enquanto a bola está em jogo. A Copa do Mundo é um desses ritos. O mundo vira uma bola oval. Imperfeita, contraditória, comercializada até os ossos — mas ainda assim capaz de fazer uma nação inteira respirar no mesmo ritmo por alguns dias.
Penso nisso toda vez que vejo uma criança parar na calçada para olhar um jogo transmitido pela janela de um bar. Ela não sabe nada de Fifa, de patrocínio, de direitos de transmissão. Só sabe que ali está acontecendo alguma coisa grande, que envolve todo mundo, e que ela também quer fazer parte. É exatamente esse sentimento — primitivo, pré-racional, anterior a qualquer cinismo — que a Copa desperta. E que nenhuma crise, nenhum escândalo e nenhuma derrota conseguem matar de vez.
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Nasci no ano em que o Brasil ganhou sua primeira Copa. Não assisti àquela — estava ocupado demais aprendendo a respirar. Mas vivi os quatro títulos seguintes com uma intensidade crescente, como quem vai percebendo, a cada edição, que o tempo não é infinito e que cada celebração pode ser a última que os joelhos aguentam.
A Copa do Mundo não é apenas um torneio de futebol. É o momento em que o mundo inteiro concorda, por alguns dias, em se importar com a mesma coisa. Num planeta que raramente concorda com algo, isso já seria razão suficiente para celebrá-la.
Gaaaalooooo! Ou melhor, Brasililililil!
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