Clássico de Waldick Soriano, considerado o brega dos bregas. Mas o homem tinha um vozeirão. Cantava pra caramba, numa época em que recurso tecnológico era basicamente garganta, pulmão e coragem. Ele cantando Tortura de Amor é impagável — sofrimento legítimo, sem filtro e sem pudor.
Mas por que lembrei dele e dessa música hoje?
Fui vencido pelo cansaço. Resisti enquanto pude à ideia de ter um cachorro em casa. Argumentei, racionalizei, invoquei higiene, epidemiologia e até zoonoses. Mas minha esposa não resistiu aos olhos doces de Sushi. Foi seduzida à distância pela magia das redes sociais — esse lugar onde se vende tudo, até afeto embalado para viagem.
Minhas filhas, que já vinham cultivando esse sonho há tempos, deram apoio irrestrito. Democracia familiar é isso: você vota, perde e ainda paga a conta. Quando percebi, o cão já estava vindo de Porto Alegre num ônibus-canil que cruza o país distribuindo filhotes como quem entrega uma encomenda frágil. Um dog delivery em alto estilo. Não me perguntem quanto custou. Preservo, por instinto de sobrevivência, certas ignorâncias.
A família inteira foi recebê-lo. E confesso: o danado é bonitinho. Uma mistura improvável de salsicha com poodle, com olhos de uma doçura quase indecente. Até eu, que estava firmemente contra, fui conquistado. O bicho não se impõe — ele se insinua.
Mas a realidade, como sempre, não aceita idealizações. O cachorro não era de pelúcia. Come e descome. E descome com uma liberdade que beira o existencialismo. Não há culpa, não há projeto, não há amanhã. O reflexo gastrocólico funciona com precisão científica: entrou, saiu. Uma biologia admirável — e devastadora.
E os tapetes? Nossa… ali se deu o primeiro abalo sísmico da nova ordem doméstica. Em menos de 48 horas, a casa que antes cheirava a jasmim passou a exalar uma mistura difícil de nomear, algo entre curral e experiência sensorial involuntária.
O caos atingiu seu ápice quando uma giardíase resolveu se manifestar. Não foi um episódio clínico — foi um acontecimento. Houve momentos em que considerei que a casa havia sido tomada por uma forma de vida independente.
E as madrugadas? Somos vizinhos de uma unidade do glorioso Exército Nacional. Às 5 da manhã, um corneteiro acorda a tropa e, por extensão, todos os cidadãos que contribuem, ainda que involuntariamente, para a manutenção daquele instrumento. Sushi, solidário, responde. Late, uiva, acompanha. Um dueto improvável entre disciplina e desordem.
O sono, desde então, tornou-se uma hipótese. E, no entanto, a casa mudou. Ficou mais cheia. Mais viva. Mais barulhenta — e, curiosamente, menos vazia. Vivemos tempos de relações rápidas, superficiais, quase sempre mediadas por telas. Falamos muito, escutamos pouco e sentimos menos do que imaginamos. As pessoas entram e saem com a facilidade de quem troca de aplicativo. Provas demais, vida de menos.
E talvez por isso o cachorro encontre lugar. Ele não substitui nada, mas ocupa. Está ali. Escuta — à sua maneira — e, de vez em quando, interrompe com um latido que mais parece um comentário fora de hora. E, curiosamente, até isso tem valor. Porque nos tira do automático. Há algo de terapêutico nisso, ainda que não reconhecido pela ciência em protocolos formais. O animal não interpreta, não devolve, não elabora. Mas permanece. E, às vezes, isso basta.
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Claro que essa terapia tem prazo. Doze, 15 anos — em média. Uma relação com começo, meio e fim previamente determinados. Não há negociação possível com o tempo. Talvez por isso mesmo seja tão intensa: porque sabemos, ainda que não pensemos, que ela é finita.
E custa. Custa dinheiro, tempo, energia e alguma sanidade. Ração, vacinas, consultas, emergências, pequenos sustos e grandes boletos. Ao final do mês, o investimento rivaliza, com alguma folga, com sessões regulares de terapia. Com a diferença de que o terapeuta não mastiga seus sapatos. Mas também não abana o rabo quando você chega..
Existe hoje um sofisticado e crescente complexo econômico em torno dos pets. Clínicas modernas, produtos especializados, serviços personalizados. O cachorro, de certa forma, foi promovido à condição de paciente — e nós, seus tutores, à de financiadores dedicados.
Alguém ganha com isso. E não é pouco. Mas talvez isso diga mais sobre nós do que sobre o mercado. Porque, no fundo, seguimos tentando lidar com uma questão antiga: a solidão. Essa presença silenciosa que não desaparece com tecnologia, nem com agenda cheia, nem com redes sociais movimentadas. Uma solidão que não é falta de gente — é falta de encontro.
O cachorro não resolve isso. Mas, de algum modo, atenua o vazio existencial que nos acompanha do princípio ao fim. E, nesse acompanhamento, talvez nos ajude a sustentar o que somos: seres imperfeitos, carentes, em busca de algum tipo de sentido — ainda que provisório.
No fim das contas, talvez a gente não tenha um cachorro. Talvez a gente apenas precise de alguém que fique e amanse o nosso cão interior. Mesmo que, às vezes, esse alguém acorde cedo demais e faça cocô no seu tapete persa.
Por fim, volto ao Waldick Soriano, que nos deixou em 4 de setembro de 2008. Ele cantava, com aquela dor orgulhosa: “Eu não sou cachorro, não”. Era um protesto contra ser tratado com desprezo, com descaso, com pouco amor. E cá estou eu, décadas depois, dividindo a casa com um cachorro — que, ironicamente, talvez nos ensine como é ser tratado com uma fidelidade simples, dessas que não pedem nada além de presença.
Talvez o segredo não esteja em não ser cachorro. Talvez esteja em aprender um pouco com ele. Mesmo que, no meio do caminho, a gente perca um tapete, algumas noites de sono — e ganhe, sem perceber, uma certa alegria meio brega, meio sincera… dessas que Waldick entenderia perfeitamente.
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