O debate sobre o futuro da mobilidade se divide basicamente em dois paradigmas tecnológicos. Há aqueles, principalmente os chineses, que defendem a eletrificação total, e há aqueles que defendem o que se acostumou chamar de caminho múltiplo.

Akio Toyoda, presidente do conselho da Toyota, é um dos defensores do segundo caminho. Segundo ele, o melhor rumo para alcançar a neutralidade de carbono é a combinação de diferentes tecnologias, e não a concentração em uma única. Essa posição tem provocado controvérsia no setor, mas está ancorada em dados técnicos, análises de ciclo de vida e na realidade energética dos países. Essa visão se apoia em um estudo feito pela montadora japonesa que afirma que os materiais necessários para produzir a bateria de um carro totalmente elétrico poderiam ser usados para fabricar seis híbridos plug-in ou noventa híbridos tradicionais. Isso leva à conclusão de que noventa híbridos retiram muito mais CO? da atmosfera do que um único elétrico premium.

 

 

Essa lógica está mudando o consenso sobre a transição para veículos elétricos e tem interferido na decisão de investimentos em P&D. O problema é que mais e mais governos têm anunciado metas de eletrificação total e, se os dados da Toyota estiverem certos, isso pode significar que esse foco excessivo em elétricos pode, na realidade, prejudicar o processo de descarbonização que ele objetivava acelerar.

O ponto central aqui não é negar a importância dos veículos elétricos, mas mostrar que eles podem não ser a melhor solução para todos os países ao mesmo tempo, principalmente porque a eletrificação total exige volumes gigantescos de minerais críticos. Para se ter uma ideia, dados da Agência Internacional de Energia (IEA) mostram que a demanda por lítio pode aumentar quarenta vezes até 2040.

Isso é corroborado por outro ponto técnico importante: muitos países do mundo ainda possuem matriz elétrica dependente de combustíveis fósseis como petróleo, carvão ou gás natural. Ou seja, nesses países, a utilização de veículos elétricos pode não reduzir significativamente as emissões e, em alguns casos, pode até aumentá-las.

Por tudo isso, tem ganhado força a percepção empresarial de que carros totalmente elétricos são insustentáveis e que a distribuição dos minerais críticos entre híbridos e híbridos plug-in pode reduzir mais emissões totais.

Nesse sentido, a estratégia de caminhos múltiplos, ou seja, aquela que permite que diferentes soluções coexistam (além de elétricos, biocombustíveis, hidrogênio, híbridos etc.), parece melhor e mais adequada para os diferentes contextos mundiais.

Uma crítica comum a esse caminho é que ele pode atrasar a eletrificação plena e prolongar a vida útil dos motores a combustão. Para esses críticos, a urgência climática exige foco total nos elétricos. A pergunta que fica é: a base de evidências que embasa o caminho múltiplo está errada?

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O debate está longe de terminar, mas uma coisa é certa: a transição energética depende de avanço tecnológico, e os investimentos que forem feitos agora é que determinarão esse caminho — ou esses caminhos. Para isso, o mundo precisa responder qual ou quais tecnologias conseguirão reduzir mais carbono no menor tempo possível.

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