A empresa Meta e a Fundação Dom Cabral divulgaram um retrato sobre o estado da transformação digital no Brasil. Com uma amostra composta por mais de 100 executivos e líderes de 19 setores da economia, sendo 64% representantes de empresas com faturamento superior a R$ 300 milhões anuais e 33% de organizações que superam R$ 1 bilhão, o levantamento tem porte suficiente para ser tomado como indicador confiável do comportamento corporativo do país em relação à inteligência artificial.
Porém, o que ele revela é preocupante: há um consenso declarativo sobre a importância da tecnologia, mas isso não encontra correspondência nas estruturas, nos investimentos nem nas práticas organizacionais. Os dados são claros.
Enquanto mais de 80% das empresas afirmam considerar a IA importante ou muito importante para sua estratégia, 43% das organizações investem menos de 1% de seu orçamento em transformação digital, e 15% simplesmente não investem nada. Para piorar, 17,5% sequer sabem responder qual é o percentual alocado, o que, por si só, já diz muito sobre o grau de formalização dessas iniciativas dentro das empresas.
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O problema central apontado pelos respondentes não é de natureza tecnológica. Quase 43% identificam a falta de conhecimento especializado como o principal obstáculo à implementação de IA, percentual que supera com folga a integração com sistemas existentes (20,5%), o custo de implementação (13,6%) e questões de privacidade e segurança (9,4%). Trata-se de um gargalo humano e organizacional, que o Brasil não consegue resolver há décadas, mesmo tendo algumas das melhores instituições do mundo no tema.
Esse déficit de capacitação se manifesta também no topo das estruturas corporativas. Mais da metade das empresas, 53,5%, não possui especialista em IA na liderança ou no conselho, e não pretende ter. Apenas 16,7% contam com essa figura em seus quadros diretivos.
Não dá para desconsiderar o efeito que a ausência de lideranças qualificadas no tema tem sobre a qualidade da governança: 68% das organizações não possuem estrutura dedicada para gerir projetos de IA, e 23,2% não utilizam nenhuma métrica para avaliar o impacto de suas iniciativas na área.
O problema torna-se ainda mais grave quando se avalia a qualidade das métricas. 21% delas se concentram em eficiência operacional e 17,4% em redução de custos. Claro que se trata de indicadores legítimos, mas que também revelam uma visão instrumental e de curto prazo sobre o potencial da tecnologia.
Esse padrão é coerente com o que a literatura sobre difusão de inovações chama de adoção superficial, ou seja, a tecnologia é incorporada de forma periférica, sem reorganização das estruturas que deveriam dar suporte ao seu uso pleno. O resultado é que a tecnologia opera, na maioria das empresas brasileiras, como uma ferramenta de otimização do presente, quase sempre automatizando processos existentes, e não como vetor de transformação de modelos de negócio.
Esse fato também é comprovado pelos números. O estudo indica que apenas 11,6% das organizações se posicionam como visionárias, isto é, capazes de redesenhar seus processos e produtos a partir das possibilidades abertas pela tecnologia.
O quadro descrito pela pesquisa não é exclusivamente brasileiro, mas tem contornos particulares no nosso país. A combinação de alta consciência declarativa com baixo investimento efetivo e ausência de governança configura o que poderia ser chamado de maturidade simbólica: as empresas reconhecem o valor estratégico da IA, mas não criam as condições institucionais para capturá-lo.
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Em contextos competitivos crescentemente mediados por capacidade analítica e automação, essa lacuna tende a se agravar até o ponto de nos tornarmos meros absorvedores de tecnologia externa. Por isso, o intervalo entre reconhecer e agir está se estreitando: ou aceleramos a curva de aprendizado no desenvolvimento de tecnologias ou nos tornaremos simplórios utilizadores de tecnologia importada, relegando ao país a irrelevância internacional.
