Quando o biológico e o mecânico se aproximam
Estamos entrando em uma era em que máquinas estão se tornando capazes de sentir, interpretar e reagir ao ambiente de forma muito mais natural
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A fronteira entre organismos vivos e máquinas sempre pareceu bem definida. De um lado, sistemas feitos de células, tecidos e impulsos nervosos; do outro, circuitos, motores e estruturas rígidas. Mas essa divisão está desaparecendo rapidamente.
Avanços recentes em robótica, neurociência, materiais inteligentes e bioengenharia mostram que o futuro será habitado por tecnologias que não apenas imitam a vida, como funcionam segundo os mesmos princípios biológicos. Dentre essas inovações, uma das mais impressionantes é a NRE-skin, uma pele robótica neuromórfica (que funciona como nosso sistema neural) capaz de dar a máquinas algo muito próximo do tato humano e até mesmo reflexos de dor.
A NRE-skin, desenvolvida por pesquisadores chineses, simula o funcionamento do sistema nervoso humano ao processar informações sensoriais por meio de pulsos elétricos semelhantes aos sinais neurais. Ela é composta por camadas de polímeros (plásticos) flexíveis com sensores de pressão que enviam sinais codificados em forma, magnitude, duração e frequência, exatamente como nossos nervos fazem ao transmitir informações ao cérebro.
A tecnologia não apenas detecta o toque, mas identifica a intensidade, a localização exata e até danos na própria pele, graças a sinais periódicos de “estou funcionando” que cessam quando há falha em algum ponto do material.
Um de seus aspectos mais revolucionários é sua capacidade de gerar reflexos imediatos, sem depender do processador central do robô (o cérebro do robô), similar aos nossos reflexos involuntários. O funcionamento é simples: quando a pressão ultrapassa um limite considerado perigoso, a pele envia um pulso direto aos motores, fazendo o robô recuar instantaneamente, assim como fazemos ao tocar algo quente ou afiado.
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Enquanto a NRE-skin aproxima máquinas da sensibilidade neural, outra linha de pesquisa aproxima máquinas da capacidade de cicatrização da pele humana. Um exemplo recente é o estudo “3D printed self-healing, degradable on-skin electronics with liquid metal for multi-functional monitoring” (DOI: 10.1016/j.cej.2024.159190).
Nele, pesquisadores desenvolveram um elastômero (pele artificial) flexível, autorreparável, biodegradável e aderente à pele humana, capaz de ser impresso em 3D com alta precisão. Esse material apresenta uma eficiência de autorreparo de 99,5%, resistência mecânica elevada e capacidade de degradação ambiental, aproximando-se do comportamento de tecidos biológicos.
O estudo foi além e combinou esse elastômero com circuitos feitos de metal líquido Galinstan (GaInSn), que também se autorreparam quando fraturados. O resultado é uma plataforma eletrônica multicamadas capaz de monitorar sinais fisiológicos, como temperatura, movimentos corporais e sinais eletrofisiológicos, mesmo durante estiramento, dobra ou torção.
Além disso, o dispositivo pode ser reciclado simplesmente mergulhando-o em etanol (álcool domiciliar), que dissolve o polímero e libera os componentes eletrônicos para reutilização.
O encontro entre biologia e engenharia está transformando a robótica em algo mais sensível, adaptável e quase vivo. Tecnologias como a NRE-skin e as peles regenerativas levantam novas questões sobre o que significa “sentir” para uma máquina, até onde queremos que robôs se pareçam conosco e como essas tecnologias transformarão nossa relação com o mundo físico.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
