A Balt, uma agência brasileira de pesquisa e estratégia, acaba de lançar o pocket report "Ado(R)lescência", que reúne dados e reflexões sobre como os adolescentes brasileiros estão vivendo essa fase e o que eles têm tentado dizer, mas nem sempre encontram espaço para serem ouvidos.
A pandemia fez com que a tecnologia deixasse de ser apoio para se tornar a própria estrutura da vida e suas consequências. Como mães e pais de adolescentes, sabemos que, no tempo livre, a maioria deles está no digital: sejam redes sociais, jogos, séries e filmes, música ou podcast. Eles vivem direcionados pelos algoritmos, que atuam como agentes de socialização e influenciam as percepções, os interesses, o repertório. Na prática, são educados por pais, professores, famílias e algoritmos.
Jonathan Haidt, autor de “A geração ansiosa”, diz que os pais colocam cadeado no portão, mas deixam escancarada a porta digital. O medo se organiza em torno da violência lá fora, da rua, e quase nunca alcança o que atravessa a tela dentro do quarto. No livro “Aconteceu”, Paulo Zsa Zsa conta que, aos 13 anos, sua filha se envolveu em comunidades online onde era acolhida por desconhecidos e incentivada a se machucar. Nos livros “A geração do quarto” e “Agora meu chão são as nuvens”, o autor Hugo Monteiro Ferreira fala sobre como essas questões permeiam os adolescentes brasileiros.
De um lado, eles; de outro, elas
Meninos e meninas seguem sendo educados de maneiras diferentes - e os próprios adolescentes reconhecem isso (74% delas, 82% deles). Perguntados sobre a idade provável do primeiro beijo ou da primeira relação, os pais sempre apontam idades menores para os meninos. Parece detalhe, mas é fundamental para entender a diferença de gênero: muitas das questões de misoginia que vemos adiante começam nessa assimetria doméstica. Outro ponto é que quem faz a regra costuma ser quem menos a segue.
Perguntados sobre o tempo de tela, os pais superam os filhos. E, como lembra o filósofo Jordi Nomen, o adolescente detesta discurso: ele não aprende pelo o que se fala, aprende pelo que se faz na casa dele.
Entre os destaques, a pesquisa mostra que:
• sete em cada 10 adolescentes acreditam que suas emoções não são levadas a sério pelos adultos
• 58% já passaram por crises de ansiedade ou pânico
• 40% afirmam já ter pensado em tirar a própria vida
• 57% dizem já terem se sentido mais compreendidos por um creator (criador de conteúdo) do que por pessoas próximas.
O estudo também traz uma análise sobre o impacto das redes sociais, da pressão por desempenho, da relação com pais e professores, e de como marcas, escolas e famílias podem construir um diálogo mais efetivo com essa geração.
A base de tudo
A família continua sendo a primeira referência do adolescente e, ainda hoje, o mantém em pé. Ao contrário do que o senso comum poderia sugerir, a casa é um território de afeto. Num mundo que eles já percebem instável, marcado pela incerteza e pela presença constante da inteligência artificial, há respeito pelo percurso de quem veio antes.
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Amar, no entanto, não garante se sentir ouvido. Quase um terço dos adolescentes conta que a relação com os pais piorou ao longo da adolescência. Enquanto os pais mantêm uma visão romantizada da convivência, o adolescente vai aprendendo a se calar. Adolescentes não querem ter razão, querem que seus sentimentos sejam validados por nós. Validar não significa abrir mão de educar. Significa reconhecer a dor.
