A popularização dos k-dramas sul-coreanos e c-dramas chineses no Brasil, impulsionada pela onipresença das plataformas de streaming, não deve ser lida como uma tendência passageira de entretenimento. Para nós, mulheres, essas produções funcionam como um oásis em meio a uma paisagem árida de violência e misoginia, oferecendo uma representação de masculinidade que se permite ser educada, atenta e, fundamentalmente, humana. 

Contudo, esse sucesso também projeta um espelho incômodo sobre nossos próprios preconceitos arraigados. Precisamos ter a coragem de admitir que a rejeição ao feminino opera inclusive dentro de nós, mulheres, e que nossa persistência em validar apenas certos padrões de "virilidade" bruta pode ser o combustível involuntário para a frustração que empurra adolescentes para os abismos da machosfera.

É sintomático observar como muitas mulheres da minha geração, as 40+, reagem com estranhamento à estética impecável de protagonistas como Zhang Linghe, ator chinês de Por Você (Pursuit of Jade). Não é raro ouvir críticas de que esses atores "não têm cara de homem" por possuírem traços delicados e uma postura de cuidado com a própria imagem. 

O questionamento que fica é: o que exatamente compõe essa "cara de homem" que tanto exigimos? Se ainda associamos a masculinidade a uma estética tosca, a traços grosseiros e a uma certa aspereza compulsiva, estamos, na verdade, sabotando nosso próprio discurso. Ao rejeitarmos a suavidade no masculino, reafirmamos o sistema patriarcal que nos oprime, sugerindo que o homem só é "legítimo" se for uma fortaleza de rigidez. Essa contradição cultural mantém viva a masculinidade tóxica, pois, se definimos o valor do homem pela capacidade de ser rude, é precisamente essa rudeza que continuaremos a receber.

Essa dinâmica torna-se ainda mais perigosa quando analisamos o comportamento da nova geração sob a influência de nichos radicais da internet. Hoje, vemos meninos mergulhando em técnicas obsessivas como o “mewing” para forçar um maxilar marcado, movidos pelo medo de não corresponderem a um ideal de "macho alfa" biológico e agressivo. 

Quando esse jovem fracassa em atingir um padrão estético que ele acredita ser a única chave para o afeto e a validação, a frustração resultante não gera reflexão, gera um ressentimento profundo. É nesse terreno fértil que florescem os incels (celibatários involuntários). Radicalizados em comunidades que pregam o ódio às mulheres como resposta à própria inadequação, esses jovens transformam a dor em uma identidade política hostil. O destino de um homem que se sente excluído da performance de dominação é, quase invariavelmente, o braço acolhedor da misoginia organizada.

Para além da estética e da política, existe uma resistência que precisamos enfrentar: a desconstrução do nosso próprio desejo. Não basta afirmarmos que queremos homens parceiros e gentis se, na prática, o imaginário coletivo ainda rotula o homem sensível como "tedioso" ou "menos másculo". Existe uma pedagogia do desejo que precisa ser revista; fomos ensinadas a confundir proteção com controle, e força com agressividade. 

Quando uma produção asiática apresenta um protagonista que valida os sentimentos da parceira e assume responsabilidades domésticas e emocionais sem que isso fira seu ego, ela está nos desafiando a reeducar o que consideramos atraente. A verdadeira revolução acontece quando deixamos de ver a gentileza como uma fraqueza e passamos a entendê-la como a forma mais elevada de maturidade masculina.

Romper esse ciclo exige uma mudança radical no olhar, especialmente para quem educa. Como mães, o desafio é compreender que homens que se conectam com o feminino não estão perdendo sua masculinidade, mas sim expandindo sua humanidade. A aparência bem cuidada e a fluidez comportamental nada têm a ver com orientação sexual, mas sim com uma saúde emocional que o patriarcado tentou castrar por séculos. 

O soft power do Leste Asiático nos oferece, através da ficção, um modelo de amor construído sem a urgência da posse ou a desumanização do outro. Se desejamos filhos e companheiros que saibam amar e dividir o peso da vida, precisamos parar de exigir deles a frieza da pedra. Uma masculinidade positiva só será plena quando pararmos de temer o feminino e passarmos a celebrá-lo como parte essencial de qualquer ser humano equilibrado.

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