Queria muito não precisar falar sobre isso, porque sempre tive um amor enorme pelos animais. Meus gatos Meg e Quéops são meus xodós, e meu filho adolescente também. É difícil pensar sobre o caso do cão comunitário violentamente agredido por quatro adolescentes, que precisou ser submetido à eutanásia, tamanha a gravidade dos ferimentos. Sim, além de tudo eles tiveram a coragem de deixar o bichinho agonizando até que alguém o encontrasse.
Esse caso tem muitas camadas. Não podemos achar que é uma questão individual, tampouco devemos jogar a culpa na adolescência. Por isso, compartilho com vocês o texto da querida Priscila Sanches, psicóloga clínica com perspectiva feminista, formada em psicologia pela Universidade Federal do Ceará, especialista em psicologia clínica e com formação em saúde mental, gênero e sexualidade:
“Não, eles não são monstros ou loucos. A socialização masculina forja subjetividades perversas desde cedo. O caso dos quatro adolescentes de Santa Catarina que torturaram um cachorro comunitário chamado Orelha escancara essa realidade. Não se trata somente da violência contra um animal, mas da expressão concreta de subjetividades moldadas para experimentar prazer no controle absoluto sobre uma vida indefesa.
A tortura de Orelha não foi acidental: foi um exercício de poder, autorizado por uma cultura que ensina meninos à agressividade, à dominação e à objetificação do outro — seja mulher, criança, animal ou qualquer ser percebido como vulnerável. A violência masculina não nasce do nada, nem é majoritariamente fruto de desvios individuais, ela é produzida socialmente.
Desde a infância, meninos são socializados para a dominação, para a insensibilidade ao sofrimento alheio e para a ideia de que seus desejos importam mais do que a vida, o corpo ou os limites do outro. Não se trata de loucura, mas de um projeto pedagógico masculino profundamente violento.
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A reação das famílias é tão reveladora quanto o crime. Parentes dos criminosos estão sendo acusados de coagir testemunhas e tentar comprar silêncios. Isso mostra como a socialização masculina se articula à classe social. Quando o dinheiro entra em cena, a mensagem transmitida a esses meninos é clara: vocês podem tudo. Seus atos não terão consequências reais, porque há sempre adultos prontos para proteger, justificar e apagar seus rastros.
O fato de que, mesmo após o crime, dois dos adolescentes estavam nos Estados Unidos fazendo intercâmbio reforça essa sensação de impunidade estrutural. Enquanto um animal foi brutalmente violentado até a morte, os responsáveis seguiram suas vidas normalmente, acumulando privilégios e oportunidades. A desigualdade de valor entre as vidas não poderia ser mais explícita. A classe social amplia o alcance da violência masculina e promove sua blindagem. Meninos ricos aprendem, além da dominação, que o sistema trabalha a seu favor.
Aprendem que a lei é negociável, que a dor do outro é secundária e que dinheiro compra até absolvição.
A violência contra animais é frequentemente o primeiro laboratório da violência masculina. Quem aprende a desumanizar um ser vivo indefeso, aprende que a empatia é descartável. Não é coincidência que tantas trajetórias de violência masculina comecem justamente aí. Enquanto a sociedade tratar a crueldade e a violência dos homens como desvio individual e não como produto social, seguirá produzindo homens que acreditam que tudo lhes é permitido.”
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Acrescento: a agressão covarde contra um ser indefeso é o estágio final de um processo de dessensibilização que começa em servidores de plataformas como o Discord, onde a violência é memetizada, a dor é gamificada e a empatia é tratada como fraqueza. O horror se torna entretenimento, transformando jovens em executores de uma barbárie que eles já consumiram mil vezes diante de uma tela.
