Quer o acaso que esta coluna quinzenal seja publicada uma semana após as eleições. O pleito é suficientemente recente para continuar a ser o grande assunto. Aqui vem o pobre colunista, escrevendo um texto sem conexão com a política, temendo não conseguir prender a atenção do leitor.

Tentemos, porém. Falemos de leões, girafas e rinocerontes.

Falemos da viagem que fiz com minha família, no final de setembro, durante alguns dias, por vários parques do Quênia.

Iniciamos nosso percurso pelo Parque Amboseli, do qual obtêm-se excelentes vistas sobre o Monte Kilimanjaro, situado na verdade na Tanzânia. Frequentemente encoberto por nuvens, nós o vimos quase sempre despejado. Um dia, ao acordar cedo, abri a porta do quarto e vi-me frente à montanha, com a alvorada tornando avermelhada a sua rocha vulcânica. Entre nós, havia apenas a savana. O impacto foi colossal. Entendi que aquela visão, pela sua força, necessariamente me acompanharia para sempre.

Talvez nesse mesmo dia, encontramos nosso primeiro leão, na verdade uma leoa. Ela veio em direção ao veículo, sem hesitação, calmamente. Ao chegar perto, atravessou frente a nós, sem nem sequer nos dirigir um olhar. Era como se não existíssemos, como se não estivéssemos ali. Do outro lado do carro, parou. Examinou aquela vastidão de savana deserta, talvez procurando uma presa. Sua cor se confundia com a da vegetação árida.

Em Amboseli, contudo, as estrelas são os elefantes. Observamos várias manadas. Uma delas, com aquele pisotear vagaroso mas sólido, tão característico da espécie, chegou perto da estrada de terra onde o nosso veículo e outros haviam parado para admirá-la. Frente ao muro de carros, os elefantes estancaram. Nosso motorista retrocedeu, abrindo espaço. Adultos e bebês se aproximaram e passaram diante de nós. Um amigo, ao ver a foto depois, perguntou se não sentíramos medo, com vários daqueles animais gigantescos circulando ao alcance da mão. Não houve medo algum, apenas o suspense de presenciar sua caminhada maciça e segura.

Um dado recorrente em todos os dias passados nos parques quenianos foi a absoluta indiferença dos animais em relação aos humanos. Às vezes, algum búfalo ou gnu ou zebra nos olhava, com ar de suspeita, enquanto circulávamos. Era até onde ia seu interesse por nós.

Nos parques em torno aos lagos Naivasha e Nakuru, há muitos pelicanos, marabus, águias, flamingos, rinocerontes e hipopótamos. Na Ilha Crescente, no Lago Naivasha, enquanto andávamos a pé, estivemos frente a magníficas girafas Rothschild, as mais altas de todas. Impalas e gazelas corriam por todo lado.

Em Maasai Mara, presenciamos uma morte. Um guepardo andava suave, delicadamente. Parou, sentou, olhou em direção a um grupo de impalas. Estes, percebendo sua presença, começaram a correr em fila. O guepardo, celebremente o animal mais rápido do mundo, precisou apenas escolher uma vítima e dar o bote. Formou-se um círculo de veículos em torno à cena. O felino, deitado, mordia o pesçoco do antílope. Às vezes, o moribundo procurava levantar a cabeça. O guepardo permanecia imóvel, os dentes bem presos à goela de sua próxima refeição. Morto o impala, o guepardo soltou seu pescoço, onde aparecia uma mancha de sangue, e olhou ao redor, como que aspirando algum cheiro. Não se incomodou de estar totalmente circundado por carros. Preservou o ar filosófico, misterioso, tão característico dos felinos. Pôs-se então a jantar, iniciando pelas coxas traseiras.

Uma ou duas horas depois, outra cena nos ensinou ainda mais sobre a natureza. Um leão dormia, deitado à beira do caminho de terra. Paramos para fotografá-lo, conversamos sobre ele, mas nada o acordou. Prosseguimos. Uns trezentos metros depois, havia duas ou três leoas, um macho jovem com a juba ainda pouco crescida e alguns bebês. Estavam adormecidos. Esperamos. Pouco a pouco, foram acordando. Espreguiçaram-se, viraram de barriga para cima, brincaram.

De repente, os animais ficaram imóveis, olhando para a mesma direção, aquela de onde viéramos. Minha filha falou: “O leão que vimos dormindo deve estar chegando”. Uma leoa se afastou do grupo, desaparecendo do nosso raio de visão. Regressou acompanhando o leão. Este se movia da maneira mais majestática. Sentou-se tal qual uma esfinge, bocejou um pouco, olhou à sua volta. Mesmo Luís XIV jamais terá transmitido tanta serena autoridade, a segurança absoluta de dominar o seu universo.

No dia seguinte, testemunharíamos menos pompa leonina. Deitados à sombra de uma árvore, um leão e uma leoa descansavam. Aproximou-se uma manada de elefantes. Foram passando rente ao casal, ignorando-o, atravessando um tronco caído no chão. O movimento das enormes patas, levantando-se sobre o tronco, por si já justificava nossa viagem inteira.

Revelou-se, no rosto dos felinos, uma certa inquietação com a proximidade dos paquidermes. O maior deles parou diante dos leões. Encarou-os. Com ar de medo, macho e fêmea se levantaram e, a passo rápido, deslocaram-se até outra árvore, mais afastada da rota dos elefantes. Às vezes, até o ser mais soberbo percebe existir uma força maior.

O alojamento em Maasai Mara situava-se em uma floresta à beira do Rio Olare Orok. Nossas noites foram perturbadas ou enriquecidas, dependendo do ponto de vista, pelo canto noturno dos hipopótamos, numerosos naquele local. Muitas vozes pareciam mugir e urrar ou dialogar. Não sabíamos se eram gritos de cólera ou de afeto ou apenas conversas.

O concerto costumava se iniciar às duas ou três horas da manhã. Éramos acordados com os sons, mas aquilo era tão fora da nossa experiência habitual, tão fascinante, que ninguém pensava em lamentar o sono perdido.

Em tudo há um aspecto triste. No topo do Kilimanjaro, sobra pouco da sua celebrada neve, descrita por Hemingway em 1936 como “inacreditavelmente branca sob o sol”, e que hoje desaparece por causa da mudança do clima. Em uma ação ecológica, os homens preservam os parques e sua fauna, mas em movimento para o lado oposto, modificam até a mais imponente das montanhas africanas.

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* O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmentre para o Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti.

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